A partir de setembro, poderá ser vista na peça – cujo nome não revela – de reabertura da temporada do teatro D. Maria II, em Lisboa. No final do ano deve voltar à televisão. No cinema não tem qualquer previsão, em grande parte devido à situação que o país atravessa e a sua consequente influência no cinema. Na avaliação de Margarida Marinho, “… a cultura nunca foi prioridade em Portugal e não é agora que vai ser”. Da mesma forma, pensa que “…a sociedade portuguesa está a bater no fundo nas mais diversas esferas”.
Como foi a sua entrada no projeto?
Casting. Convite direto do Nicolau Breyner e depois casting. Muitas vezes acontece de um realizador gostar muito de nós mas não servirmos para o papel. Ele quis ter a certeza, até por uma questão de idade. Eu tenho 49 anos, mas ele precisava de saber como é que eu imprimia a idade. Escurecemos o cabelo, houve uma tentativa de pôr cabelos brancos mas desistimos porque não acrescentava verdade à personagem, até atrapalhava. Então optamos por um negro azeviche asa de corvo (risos). Fica sempre bem num filme cujo ambiente é denso. É um filme com grande densidade.
Esta é uma personagem com características muito particulares…
Uma das indicações que o Nicolau me deu foi que não é preciso parecer “pesado”, não é preciso parecer extraordinariamente perversa. É preciso ser. E quando se é torna-se muito mais fácil, temos uma maior liberdade. E a densidade acabou por aparecer no jogo entre os atores, não tanto como uma construção isolada. E há o ato da realização que constrói esse jogo, que ajuda a construí-lo. E há a luz e a montagem, como é óbvio.

Que impressão teve quando leu o guião a primeira vez?
Achei que estava muito bem construído. Que era simples na sua mensagem, não pareceu nada complicado do ponto de vista das intenções. Mas eu acho que a maior parte do jogo está na rodagem. O argumento é sempre um ponto de partida. Foi surpreendente perceber o que depois aconteceu na rodagem, assim como o produto final.
Mas ficou muito diferente?
Não. Simplesmente o argumento é um simples pretexto. É um pré texto…
Também foi rodado num único ambiente que, como já referiu, era bastante denso…
Bem, já tinha feito alguns trabalho em que a claustrofobia se instalava…
Ninguém sofreu da “febre da cabana”…?
Não, mas por acaso fiquei doente no final das filmagens! E bastante! Não imaginas o frio que estava naquela casa! É uma casa gelada, não está habitada e já possui uma densidade própria não se fazendo nada, mesmo sem iluminação. Aquecedores não serviam de nada. Tínhamos alguns canhões de calor que de vez em quando eram ligados para conseguirmos estar lá, mas estávamos sempre de anorak. Quando íamos filmar tirávamos. Houve essa particularidade. Não foi fácil. Mesmo articular e ter um ritmo foi difícil, porque estávamos a tilintar de frio. Foi de facto uma rodagem puxada. Depois quando eles tiveram uma experiência na Serra da Estrela que foi ainda pior. Mas depois vingaram-se em São Tomé!
Este filme também tem alguns elementos de filmes de terror. Gosta deste género, tem algum filme que goste em especial?
Não gosto de filmes de terror em si por si. Gosto do “Sexto Sentido”, por exemplo. Há filmes que apontam, que “raspam” no género. Acho que isso é mais interessante. Que é um jogo que o Tim Burton também gosta de fazer e que eu adoro. Mas não é “o” género. Não é um filme de monstros, velas derretidas e cadáveres à espreita. É o caso deste filme. Isso é que é engraçado. Isso surpreende o espectador.
E também é um filme policial ao mesmo tempo…
Sim, do ponto de vista da classificação é um thriller. Mas acho que quando os realizadores fazem um filme não pensam num género. Os distribuidores e os exibidores é que precisam de uma classificação. Mas não acredito que os realizadores trabalhem muito com esse paradigma. Contar uma boa história é a grande preocupação do Nicolau – e conta-la muito bem. E uma coisa que ele procura, relativamente ao cuidado que põe no argumento, é que haja surpresa. O expetador tem que ser surpreendido. E não interessa que tipo de surpresa, mas sim criar impacto em quem está a ver o filme.
Têm muitos trabalhos na televisão. Sente muita diferença entre TV e cinema?
Não, nem cinema, nem teatro, nem televisão. São técnicas artísticas diferenciadas, mas se pensarmos bem nós nos alimentamos de tudo e acabamos por transportar as experiências de um lado para o outro. Eu não sou atriz sem televisão, sem teatro e sem cinema. Neste momento a televisão já faz parte da minha biografia de uma maneira muito forte. Durante muitos anos eu não fazia televisão, só fazia cinema e teatro. E, aliás, foi pela mão do Nicolau Breyner que eu comecei a fazer televisão. Foi com “A Grande Aposta”, até aí eu só tinha feito cinema e teatro e não conhecia esse género.
E adaptou-se logo à televisão, gostou logo de fazer?
Eu gosto do lado do exercício de representação em televisão. É uma coisa que cada vez mais acho interessante, muito mais do que no começo. No começo eu gostei, mas vinha muito marcada pelo cinema, precisava de tempo de reflexão, de tempo de empatia para com as coisas, com o texto, com os outros, com a contracena, a iluminação – que era um jogo que nos ensinaram desde sempre no cinema. Esse foi o primeiro choque relativamente à televisão. Mas depois também se tornou um exercício apaixonante porque de fato é atlético do ponto de vista das emoções. Obriga-te a trabalhar as emoções de maneira muito mais rápida do que no cinema. Os atores são uns “bichos “ com grande capacidade de adaptação ao sistema em que se encontram. E isso faz as qualidades do ator, a sua capacidade de adaptação. Portanto, quando se entra num processo de cinema também nós entramos num ambiente, num registo e num ecossistema ao qual nos adaptamos e percebemos rapidamente como é que temos de lidar. Não me parece que haja nenhum choque, da mesma maneira que no teatro nós precisamos dos tempos, das pausas e da repetição. E ninguém entrou em hipotermia por causa disso. Mas pode acontecer, um grande ator de teatro não se adaptar à televisão. Já vi casos. Raramente vejo um ator de televisão não se adaptar ao cinema. E se um ator é desinteressante em cinema também é desinteressante em televisão.
Já há alguns anos que não fazia cinema?
De facto, nos últimos tempos tenho feito mais teatro e televisão.
E gostaria de fazer mais?
Eu faço o meu trabalho na medida em que convivemos com uma realidade duríssima do ponto de vista financeiro, como se sabe, e a cultura em Portugal não é propriamente uma prioridade. Nunca foi, não era agora que seria. O cinema em Portugal é uma realidade rara, escassa e que caminha para a extinção. É uma arte muito cara, que depende de um mercado que nós não temos e, portanto, precisa ser subsidiado – seja através do Estado ou de outros parceiros internacionais. Ou das televisões, da publicidade. Precisa de padrinho. Sem padrinho o cinema não existe. E o teatro também não. Quando um modelo está montado desta maneira também não é por acaso. Nós não temos mercado para os filmes se pagarem a si próprios. Mas é preciso pôr a máquina a funcionar senão ela morre. Sempre vai se fazendo alguma coisa. Nós estamos a bater no fundo em várias esferas da sociedade portuguesa. Obviamente que há um tipo de cinema que tem mais hipóteses de ter eco nas salas do que outro. Este é um filme claramente acessível, com uma mensagem muito clara.

