Nascida a partir do curta-metragem “Respiro”, exibido no festival Shortcutz Lisboa, em 2011, “Assim Assim” reuniu um grande elenco de habituais colaboradores do cineasta na televisão para contar pequenas histórias que se cruzam tendo Lisboa como pano de fundo. Às vésperas do lançamento do filme, Graciano falou ao c7nema sobre o processo de produção e sobre o cinema português – que ele considera ainda demasiado distante de uma boa comunicação com o público.
A ideia do “Assim Assim” começou com uma curta-metragem. Quando é que sentiu que ele podia virar um longa?
Depois de exibido o curta comecei a perceber que havia uma recetividade muito boa e que era uma história que tocava toda a gente. Fez algum sucesso num festival, o Shortcutz Lisboa. Falei com o autor, o Pedro Lopes, sobre as ideias que eu tinha e decidimos avançar para o guião. Ele escrevia, eu dava umas ideias, e foi assim que decidimos fazer uma longa-metragem. Achamos que vida daquelas pessoas valiam um bocadinho mais e fomos por aí afora.
Como foi o processo de produção?
Desde a primeira curta até final da longa passaram três anos. Mas o processo de produção em si foi um processo normal, dadas as condições que tínhamos, já que foi filmado sem orçamento nenhum. Eu estava sempre dependente da disponibilidade dos atores, uma vez que foi filmado sempre aos sábados e aos domingos e eles têm teatro, cinema e televisão. Foi como consegui fazer. Foram oito dias a filmar espalhados por quatro meses.
Em relação aos atores, como foi unir todo esse elenco?
Foi a parte mais fácil. Eu trabalho com eles todos na televisão, falei com eles, disse-lhes o que era, que tinha aquele projeto, que não havia dinheiro. Fizeram todos de bom grado, não houve problema nenhum com isso.
À medida que ia sendo escrito e produzido, teve alguma preocupação com a ligação entre as histórias? Teve receio de ter um final sem uma grande conexão entre elas?
Tive uma preocupação com as histórias. Se bem que neste filme o que eu quis foi mostrar pessoas que vagueiam um bocado na vida umas das outras. Não quis dar uma importância muito grande às ligações. Por isso optei por usar separadores, como as luzes, as luzes significam mesmo isso, são como se significassem as pessoas, às vezes são mais ou menos intensas, cruzam-se e misturam-se e é isso mesmo que as pessoas são. Há umas histórias em que as pessoas são mais importantes, em outras elas simplesmente passam. Não quis de todo dar muita importância nas transições. É como se fossem fantasmas a andar no meio das histórias uns dos outros.
E facto de ser Lisboa como pano de fundo?
Tem toda a importância, é a minha cidade, eu nasci aqui. E é uma cidade a qual eu gosto muito. Então eu quis fazer uma história sobre a minha geração na minha cidade. Eu acredito que esses problemas sejam comuns a todas as cidades, em todos os países, mas esta é a minha cidade.
Acha que esse filme se enquadra numa espécie de género de cinema, essa coisa do mosaico, que ganhou força principalmente a partir dos anos 90, com “Short Cuts”, do Altman?
“Short Cuts” era mosaico, mas eu bebi mais no “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson, que também é um filme mosaico. Mas eu não sou obcecado por isso. Eu não quero fazer só esse tipo de cinema. Eu gosto muito de relações humanas, este tipo de cruzamento. Eu gostei muito do “Magnólia” e também do “Crash”, do Paul Haggis. E ali é tudo muito fragmentado, mas isso não quer dizer que seja quebrado, pode ser fragmentado mas pode ser coeso. Fiz assim também em função das contingências de produção. Mas tenho planos de fazer outro tipo de filme.
Já tem algum novo projeto?
Tenho. Estou a pensar em dois projetos para cinema. Um já está mais avançado, é baseado num escritor português, que já está a ser adaptado. Se tudo correr bem vamos filmá-lo com dinheiro privado. Mas ainda não há elenco nem data para início das filmagens.
E em relação à música? Também é um elemento bastante interessante do filme…
A única música que se ouve no filme fui eu quem compôs com o André (Joaquim). A música é uma ideia gira porque o filme quase que nasceu, o filme foi escrito, a partir da música. Eu pedi a uma amiga, a Patrícia Sequeira, para ela escrever uma letra que tivesse a ver com o assunto e o nome do filme vem da música. A música nasceu ali. O André compôs sozinho o resto da música (banda sonora), que é uma espécie de “música nova portuguesa”. Há ali qualquer coisa de diferente e acho que é muito o ambiente de Lisboa. É muito contemporâneo.
E como foi a escolha da Mariana Norton para interpretá-la?
A Mariana Norton é minha amiga, trabalhei com ela muitas vezes. Eu pedi-lhe e ela deu voz à aquela letra, muito bem, por sinal.
Como é que enquadra esse filme dentro do panorama do cinema português? É um cinema muitas vezes visto como hermético pelo público e o seu trabalho é mais acessível…
O cinema português é um cinema muito particular. É um cinema de autor e esse género, em Portugal, tem dificuldade em comunicar com o público. Eu sou fã do cinema independente americano, sou fã da nova geração do cinema brasileiro, bebo muito daí, é um cinema que comunica muito. Eu acho que nós não nos preocupamos muito em comunicar com quem vai ver o filme porque não pensamos no cinema como indústria em Portugal, caso contrário haveria necessidade de fazer com que as pessoas fossem ao cinema. E eu acho que é fundamental que as pessoas vão ao cinema para criar uma dependência de cinema português. Um filme por ser mais visto não tem que necessariamente ser mau. Eu acho que esse é muito o estigma que existe na nossa sociedade cultural. Mas eu respeito imenso Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão. Eles têm o caminho deles e eu gosto de pensar que tenho o meu. Gostar de contar outras histórias para as pessoas verem. Acho que não faz sentido fazer uma obra que não seja vista e admirada pelas pessoas.
E o seu filme também demonstra que não é preciso usar aquelas fórmulas do cinema de Hollywood…
Não, não é. Por isso é que eu falo do cinema independente americano, que é muito mais low cost, histórias muitos simples que tocam a toda a gente. É desse tipo de histórias que eu gosto. Também não temos hipótese de filmar em Portugal helicópteros a explodir, por isso vamos criar histórias para serem contadas e produzidas. Cá não há dinheiro para fazer cinema, temos que produzir guiões que sejam possíveis de realizar.
Um produtor alemão do “Comboio Noturno para Lisboa”, que está a ser rodado aqui, disse que achava que um problema no cinema português é que os potenciais financiadores não encaravam o cinema como negócio…As filmagens de “Comboio Noturno para Lisboa”, por exemplo, vão deixar € 3,5 milhões na cidade…
É verdade, dinheiro gera dinheiro. Eu acho que se nós produzirmos mais há de haver mais pessoas a ir ao cinema. Se nós nos preocuparmos um pouco mais com as pessoas e “industrializar” um bocadinho mais esse cinema eu acho que ele pode crescer muito. Passa por obter um mecenato diferente. No Brasil o cinema vive muito do mecenato, as empresas privadas (não ligadas ao cinema) começaram a aplicar dinheiro em filmes – o problema é que estas empresas não querem ver seu nome associadas a filmes que não interessam ao consumidor. E o cinema brasileiro tem essa preocupação. A marca aposta ali mas sabe que é um cinema que vai ter boa visibilidade. Se calhar também passa por uma lei de mecenato diferente, abrir o espectro de financiamento. Eu acho que um filme que tem três atores e dois décors não pode custar o mesmo que um que tem 50 atores e 30 décors. Cá o dinheiro que é dado para um e para outro é exatamente o mesmo. Isto teria que ser repensado. Eu também não quero dizer que descobri um modelo de negócio nem que o meu filme seja o melhor filme do mundo. Mas quero pensar que esse é o meu caminho, é o que eu quero seguir.
Gostaria de trabalhar só com cinema?
Não, eu gosto muito de fazer televisão. Não tenho problema nenhum em fazer televisão. Acho que se fazem coisas muito boas e coisas menos boas em televisão, tal e qual como no cinema e na música. Nós é que temos a mania de que em televisão é tudo mau. Mas não, não é.
Já há planos para distribuição fora de Portugal?
Não, ainda não foi nada pensado nesse sentido. Enviamos o filme para vários festivais, se for selecionado, quem sabe isso pode acontecer.

