Uma conversa prolongada sobre as possibilidades do sexo, das relações afetivas e sobre a capacidade de cada um de nós explorar essa procura. Ao falar sobre o filme pela primeira vez, percebe-se no discurso do realizador germânico um raciocínio em construção. Como se o filme fosse um corpo vivo. Que nos fizesse pensar e questionar a nossa vida. Foi em Veneza que aconteceu, quando o filme por lá passou o ano passado em competição. Ainda antes de “Coud Atlas” ser uma realidade.
Foi intencional fazer uma comédia negra?
Será uma comédia negra? O lado negro parece algo deprimente… Mas acho que sei ao que se está a referir. Deve compreender uma coisa: é a primeira vez que estou a falar sobre o filme. É tudo ainda muito novo para mim. Acabei-o no sábado passado. Ainda estou a tentar compreendê-lo eu próprio. E há um ano e meio que ando a olhar para ele. Mas o que é que eu sei? O meu filme anterior (“International”) era um filme muito mais fácil de falar. Acho que este é um filme que oferece algumas pistas sobre a maneira como vivemos uns com os outros. E questiona-se sobre as regras em que vivemos. Será que já as superámos? Isto pode parecer estranho, mas acho que eu sou mais aberto quando falo do que na realidade. Serei até um pouco tradicional, mais receoso e sujeito aos tabus.
Mas qual foi a ideia que despoletou o filme?
É um daqueles filmes que se vai construindo ao longo dos anos, colecionando situações que se foram juntando. Fui escrevendo sem saber onde me levaria. Quando essa caixa de ideias estava cheia, pareceu-me que poderia dar um filme. Quando tentei começar a escrever um guião começou por ser algo muito fluido. É um filme que pretende ser leve sobre esta complicação que às vezes é viver. É interessante a forma como aborda o lado sexual escondido das pessoas…Sim acho que ninguém é 100% heterossexual, ou homossexual, todos sabemos que não é bem assim. Mesmo àqueles que afirmarem a pés juntos que são uma ou outra coisa. Isso interessa-me porque as pessoas têm a tendência para se agarrar a certas regras, mesmo àquelas que acham que as fazem sentir mais livres. Mesmo que não sirvam a nossa curiosidade sobre a vida. Exploram apenas o facto de que não temos de deixar de amar alguém só porque se possam envolver com outra pessoa.
Acha, por exemplo, que uma relação a três poderia ser também duradoura?
Às vezes funciona, mas não sei. Tudo depende do que consideramos ser uma relação duradoura. Será essa aquela em que estamos sempre apaixonados? Não creio. É talvez um filme sobre a tentativa de nos tentarmos reinventar. Vejo muitos casais separarem-se por causa disto mesmo.
Mas não deixa de ser divertido ver o casal sentir-se atraído pela mesma pessoa…
Sim, isso é comédia, claro. É a coincidência que nos prega essa partida. Por exemplo, a minha relação, que é ótima, baseia-se numa questão de tempo. A mulher com que eu vivo encontrei-a um pouco por acaso, e durante muito tempo não consegui comprometer-me. O problema estava comigo. Podemos até conhecer alguém com quem vivemos para sempre sem problemas. Mas isso é apenas uma coincidência. Neste caso, acho que ambos se sentem atraídos pela mesma pessoas porque, ao longo dos anos, foram-se tornando muito semelhante um ao outro. O filme tenta analisar essas possibilidades. Mas eu não tenho a solução…

