Entrevista a Nadine Labaki, a realizadora de «E agora, onde vamos?»

(Fotos: Divulgação)

A bela atriz e realizadora Nadine Labaki é um caso singular na cultura libanesa. Num país que não produz mais do que escassas produções cinematográficas (ela própria adianta que não serão mais do que uma ou duas) conseguiu logo na estreia atrás das câmaras um assinalável sucesso internacional. “Caramel” percorreu diversos festivais mostrando um retrato de Beirute através dos anseios de mulheres que trabalham num salão de beleza. “E Agora, Onde Vamos?” parece a inevitável (“a sua missão?”, como refere) de aproximação às questões religiosas e politicas, embora com um suave véu de comedia dramática musical em jeito de “conto de fadas”, como a própria também descreveu há pouco menos de um ano, durante a nossa entrevista à beira de uma das praias privadas de Cannes.  Filha de uma atriz e um realizador, percebe-se que o cinema surgiu com rumo natural para Nadine. Enquanto realizadora, começou por se dedicar-se à indústria musical árabe, sendo mesmo responsável pelo lançamento de alguns artistas. No cinema trabalha habitualmente com atores não profissionais e mistura-se numa comunhão criativa. Mas quando lhe perguntamos que realizadores mais admira, é o inevitável Lars von Trier que surge à cabeça: “é um visionário”, reconhece, apesar de distinguir também Pedro Almodóvar. “No fundo cineastas que são mais arrojados e arriscam”.

Qual foi a ideia que despoletou fazer este filme?

 Não sei bem dizer. Talvez um sonho. Como fazer cinema; era para mim um sonho. Mas nunca foi fácil porque não existe uma indústria de cinema. NO meu caso bastou um sonho…  

É verdade que estava grávida na altura? E que forma essa expectativa contribuiu para o nascimento do filme? 

Sempre me impressionaram as imagens de pessoas a matar-se na rua em nome de uma religião. E lembro-me de ter pensado até que ponto, como mãe, estaria disposta a ver o meu filho pegar numa arma para matar outras pessoas. E de que forma poderia tentar proteger a família e as suas crenças. Foi esta a ideia do filme. 

Acha que as mulheres podem ser até mais hábeis do que os homens na solução de conflitos?

 Este lado protetor diante da violência é algo natural e muito feminino. Algo que é um pouco diferente no homem. Mas não se pode generalizar. Até porque há mulheres que instigam os filhos para serem mártires, que é algo que eu não consigo compreender. Por isso tento seguir o meu ponto de vista enquanto mulher e como mãe. 

A Nadine é também atriz. Teve alguma hesitação em participar no filme como atriz? 

É claro que hesitei. Mas não no tipo de trabalho que fazemos. Normalmente trabalho com atores não profissionais. E isso permite-me estar perto deles. E torna-se mais fácil de os dirigir do lado de dentro. Já não há o receio do realizador que os observa do outro lado da câmara. Eu estou com eles e reajo com eles. Isso pode às vezes ser complicado para a equipa, porque posso mudar alguma coisa durante a rodagem. Até porque grande parte da equipa não é libanesa, mas francesa. Por isso, podem enganar-se quando estou a realizar ou a interpretar. Não é fácil. Trabalho de uma forma íntima e caótica. 

No seu filme, percebe-se que aflora importantes questões religiosas. Sobretudo na descrição que faz dos líderes religiosos. Acha que podem também fazer parte do problema?

 Sim, de facto, muitas vezes fazem parte do problema. Veja bem, aqui estou eu a falar de cristãos e muçulmanos, mas pode aplicar-se a qualquer tipo de religião, bem como a dois irmãos, a duas famílias, a dois partidos políticos. Por aplicar-se a pessoas que tenham um conflito qualquer. E as autoridades podem ser também o líder ou quem tenha o poder de influenciar alguém. Pode ser uma fantasia, mas eu gostava que as autoridades pudessem portar-se desta forma e contribuíssem na construção da paz.

Tem esperança que as coisas possam mudar na região? 

Não sei, mas tenho esperança. No caso do meu filme, talvez o ridículo da situação possa fazer as pessoas pensar. Mas por viver nesta parte do mundo parece que temos uma espécie de missão. Pode parecer um pouco ingénua, mas porque não?… 

A própria afirmação da posição feminina neste mundo tem ainda um caminho a percorrer. Acha que os seus filmes podem fazer alguma diferença? 

Temos ainda um longo caminho a percorrer. Não estou a dizer que tudo está bem, mas acho que as mulheres estão a conseguir espaço para se exprimir melhor. De resto, o Líbano é um pais muito livre. Não existem situações de défice de direitos, apesar de nem tudo estar correto. Há ainda muito tabus a superar. Mas não senti dificuldades na minha profissão, pelo simples facto de ser uma mulher. Já é de si um trabalho complicado. Mas nunca senti dificuldade em me exprimir. Não sei que tipo de dificuldade o meu filme terá no Líbano, porque lida com um tema muito delicado. No mundo árabe ninguém ainda o viu.  

Não tem por isso uma ideia de como o seu filme será recebido no seu pais?… 

Será para mim uma surpresa completa.   

No entanto, no seu pais deverá ter bastante atenção mediática por estar aqui em Cannes… 

Sim, sim. E houve muita atenção quando estava em rodagem. Todos queriam saber do que tratava o filme, mas mantive tudo em completo segredo.Não mostrei o guião a ninguém. Mesmo os atores descobriam o que iriam rodar apenas nesse dia. 

Porquê? 

Não queria que as coisas fossem mal interpretadas. É sempre delicado tratar de religião nesta parte do mundo.   

Acha que como realizadora tem de ser mais autoritária? Autoritária?, não… Considero que é o nosso próprio trabalho que nos confere autoridade. É assim que acontece. E estou rodeada de pessoas que acreditam no que faço. Por isso não tenho de me estar a provar aos outros.   

Como uma espécie de sedução mútua? E respeito… Sim, respeito.  

Quantos filmes se fazem no Líbano por ano? Muitos poucos. Uns dois.   

Depois do sucesso de “Caramel” sentiu orgulho por parte dos seus conterrâneos? Sim, senti. 

Como lhe ocorreu a ideia para os números musicais? 

Ocorreu-me porque não queria situar esta história num lugar ou tempo ou sequer num outro contexto diferente. Quando se fala num conflito é uma analogia que se torna inevitável. Por isso quis dar-lhe uma aproximação próxima de um conto de fadas. É uma fantasia sobre a eternidade e como nós somos.  

Considerando o seu sucesso como cineasta consideraria a hipótese de trabalhar na Europa, por exemplo? 

É algo muito tentador. Porque não? Mas não sinto essa necessidade. Gosto de fazer filmes na minha língua, sobre a minha cultura. Não sinto a necessidade de falar da cultura francesa, de histórias que têm lugar em Paris…  

Até que ponto foi difícil para entrar na profissão e estar onde está agora? 

Claro. É difícil. Mas não senti uma dificuldade suplementar, pelo facto de ser uma mulher. Tive sorte porque conheci pessoas que acreditaram em mim e me deixaram fazer os meus filmes. Isto porque não existe uma estrutura de cinema.  

E agora para onde vamos?

 (risos) Não sei. Pelo menos não tenho ainda outro projeto. Acho que vou dormir…

 
 
 
 
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