Entrevista a Miguel Gomes, o realizador do premiado «Tabu»

(Fotos: Divulgação)

«Tabu», a terceira longa-metragem de Miguel Gomes (“A Cara Que Mereces”, “Aquele Querido Mês de agosto”) que venceu o prémio FIPRESCI e o Prémio Alfred Bauer no Festival de Cinema de Berlim, chegou na passada quinta-feira aos cinemas nacionais.


«Tabu» é um filme muito onírico que lida com os códigos romanescos e mostra um cineasta que se sente mais próximo de um cinema não naturalista, que estará sempre «mais do lado do Howard Hawks e de Minnelli, dos musicais dos anos 40 nos EUA, do Jacques Demy ou do Murnau, ou seja, de um cinema que inventa as suas próprias regras e não que tenta reproduzir cinematograficamente a aparência de uma realidade.»

Protagonizado por Teresa Madruga, Laura Soveral, Ana Moreira, Carloto Cotta, Ivo Müller, Isabel Cardoso e Manuel Mesquita, e dividido em duas partes (Paraíso Perdido e Paraíso), «Tabu» começa por nos apresentar Aurora (Laura Soveral/Ana Moreira) enquanto idosa já meio senil, tal como a sua empregada Santa (Isabel Cardoso) e a sua vizinha Pilar (Teresa Madruga).  No leito de morte, Aurora pede a Pilar para contactar um homem, Gian Luca Ventura (Henrique Espírito Santo/Carloto Cotta). Ventura e Aurora conhecem-se dos tempos em que ambos tinham fazendas na África colonial portuguesa e por lá tiveram uma relação intensa que entretanto se diluiu até à inexistência. Ventura, já velho e solitário, acaba por nos contar o porquê, recordando os dias tórridos que viveu com aquela mulher.

O c7nema juntou-se a um grupo de jornalistas e críticos brasileiros (Luiz Carlos Merten, Mariane Morisawa, Orlando Margarido) numa mesa redonda para falar com o cineasta português que ganhou em Berlim um notável prestígio internacional.

Aqui ficam as suas palavras:

Este é mesmo um filme onírico. Como foi construído esse clima? No set, na montagem?

Eu sinto-me próximo de um cinema não naturalista. No cinema contemporâneo, sobretudo no cinema europeu, há muito cinema naturalista e realista, mas eu sinto-me muito mais próximo de um registo fantasioso. Mas para cada filme tenho regras diferentes.

Que regras neste caso?

Por exemplo, toda a gente na nossa equipa tinha de deixar crescer o bigode. A começar por mim. 

E porquê?

Porque em África estávamos numa zona em que não existiam brancos e tínhamos de usar as pessoas da equipa. E só tínhamos quatro actores. Davam uma patine colonial. A outra regra tinha a ver com a bebida oficial. Que neste caso era obviamente gin tónico. Estas são as regras que eu acho fundamentais, anda que não contem tanto para a feitura do filme. As outra regras vão sendo ajustadas. Como a crónica falta de dinheiro para fazer o filme.

Filmei a primeira parte do filme de uma determinada maneira, seguindo o roteiro; e na segunda já não tinha dinheiro para fazer esse roteiro. Foi aí que decidi improvisar com os actores.

Tens alguma relação familiar ou afetiva com África?

A minha mãe nasceu em Angola mas nunca fui a Angola. A primeira vez que estive em África foi para preparar este filme. Não tenho qualquer tipo de relação com África. Acho que essa relação com uma colónia africana, inventada nesta caso, passa muito por uma ideia de cinema. Mesmo que não fosse muito contemporânea. Pode ser o cinema mudo como o cinema clássico americano. Talvez por não ter uma relação pessoal com África acho que passa muito pelo cinema, e por um cinema que já não existe.

Nas notas de produção do filme diz-se que se os surdos mudos tentarem ler os lábios dos actores terão uma surpresa. O que quer isso dizer?

Não faço ideia o que vão ver ou não. O que acontece na segunda parte, como não haviam diálogos eles diziam o que lhes passava pela cabeça. Geralmente o que lhes passava pela cabeça era absolutamente surreal. Se alguém conseguir ler os lábios o filme não fará qualquer sentido…Mas o Fellini também dobrava os filmes…

Porquê o uso de película 33mm e 16mm?

Há um lado afectivo neste filme que passa por coisas que já não existem ou estão à beira da extinção. Esta pareceu-me a minha última oportunidade de fazer um filme em película e a preto-e-branco. 

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