Entrevista a Michael Fassbender, o protagonista de «Vergonha»

(Fotos: Divulgação)

Michael Fassbender. Nome a reter. Seria um dos mais creditados candidatos ao Óscar. Isto caso o pudor envergonhado dos membros da Academia de Hollywood não tivesse ignorado a magistral performance de um homem dominado por uma incontrolável pulsão sexual. Depois de em 2008 perder quinze quilos, ao encarnar o preso político Bobby Sands, em Fome, este germano-irlandês de 34 anos retoma a colaboração com o realizador e artista conceptual Steve McQueen para dar vida a Brandon Sullivan, um novaiorquino adicto por sexo e pornografia em Vergonha. Quando não encontra uma parceira ocasional, contrata uma prostituta, recorre à masturbação ou procura até novas sensações num bar gay. Sempre com frieza, pois o calor humano está aqui posto de lado. Até que recebe a visita da irmã carente, Sissy (espantosa Carey Mulligan), que quase lhe arranca uma lágrima pela sua interpretação downtempo de New York, New York, numa sequência, só por si, digna de um prémio para a actriz. Vergonha vai dar muito que falar. Preparem-se para ficar enfeitiçadas, mas também enregeladas, diante de tanta emoção escondida.  Depois de uma ainda algo reticente entrevista em Veneza, eis que voltamos a encontrar Fassbender em San Sebastian. De t-shirt branca, barba de três dias, um imenso sorriso e… muita vontade de falar. O tema de conversa poderia vir a propósito das inúmeras iguarias da região basca, do relato da sua viagem de moto pela Europa, ou o método de trabalho com Steve McQueen. Mas sabíamos ambos que o sexo estaria naquela sala do luxuoso Hotel Maria Cristina, em pleno centro histórico. De qualquer forma, foi curioso como acabámos por falar de tudo um pouco. De muitos prazeres. Até da crise. Só faltou mesmo a gastronomia. Conversa franca e aberta. Sem rodeios. Mas só para gente crescida.

A propósito do título do filme, leva-me a perguntar-lhe: sentiu alguma vez vergonha durante a rodagem?

 É claro que tirar a roupa diante das outras pessoas é algo embaraçoso. O que faz é que nos fiquemos a conhecer muito depressa. Acho eu… (risos) Sobretudo quando, como acontece neste filme, temos de simular cenas de sexo com todo o realismo. Nessa altura, o mais importante é tentarmos fazê-los sentir confortáveis, que não estão a ser usados. 

Numa sociedade em que o sexo é sobrevalorizado, e em que as mulheres se vestem da forma mais sexy, o cinema vende sobretudo personagens ultra-machistas. Não é contraditório? O que se lhe oferece dizer sobre isto?

 Não sei, mas é uma boa questão. Ao mesmo tempo, se vemos um pénis no ecrã isso causa logo uma grande agitação. A verdade é que o corpo das mulheres sempre foi explorado sexualmente. Será que temos medo delas? Não sei. Por isso, não tenho uma resposta para essa pergunta, mas sempre achei algo bizarro. Até porque, continuamos a viver num mundo bastante conservador. É, portanto, uma contradição. Podemos ver na TV uma imagem de uma cabeça cortada, mas não podemos ver uma cena de sexo no cinema? As mensagens que estão a ser enviadas são bastante confusas. 

Apesar de tudo, os indicadores mostram também que as mulheres sonham com esse tipo ideal de homens machos. Tem a mesma resposta?

 É complicado perceber de onde vêm essas mensagens, porque a maior parte é-nos vendida. Veja bem, a pintura de há 100 anos atrás era muito mais explícita e era vista como algo belo, mas hoje, uma vez mais através do marketing, um corpo super-magro parece ser o modelo ideal de beleza. Será o mais atraente para os homens? É difícil perceber o que é realmente o nosso instinto. 

 
Artigo originalmente publicado na Máxima 
 
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