Meryl Streep transforma-se de novo. Ela é (mesmo) A Dama de Ferro. E está na rota de um novo prémio. O filme estreia hoje nos cinemas…
Se tudo correr como o previsto, no próximo dia 26 de Fevereiro Meryl Streep ganhará o seu terceiro Óscar pela arrepiante composição de Margaret Thatcher, em «A Dama de Ferro». Será outra aposta ganha de Phillida Lloyd, a realizadora lésbica que a convidou para cantar e dançar no mega sucesso musical «Mamma Mia!» Aos 62 anos, depois de já ter vencido o seu nono Globo de Ouro, em 26 nomeações, Meryl avança agora para a 17ª nomeação ao Óscar, estacionando imediatamente na pole position. Algo porque espera há precisamente 30 anos, depois de ver reconhecida a dilacerante dúvida da prisioneira judia que foi forçada a optar pela vida de um dos dois filhos, em «A Escolha de Sofia», em 1982. Ela que começou a sua carreira no cinema precisamente quando Thatcher chegou à liderança do Partido Conservador, em 1975? Numa altura em que Streep abandonava a ideia peregrina de ser advogada ambiental e se deixava seduzia pelo palco. Questionada sobre a possibilidade de Meryl Streep ganhar o Óscar, Phyllida Lloyd atirou: “Se não for ela a ganhar, não estou a ver que possa ser…” Sim, acreditamos que deve ser desta…
Não deixa de ser fascinante toda esta numerologia em redor dos prémios de Meryl Streep. Mas não é ela que assume ter 14 discursos guardados? A verdade é que até lhe fica bem toda esta sinceridade, bem mais do que a habitual atitude blasé encapotada daquelas que afirmam a pés juntos não quererem saber de prémios. Tretas. Meryl, já se sabe, é um caso à parte. Tem aquela singeleza capaz de nos arrebatar, de se transformar e se fundir da forma mais inesperada na alma de outras personagens. Reais ou de ficção.
Apesar dos óbvios elogios a Streep, David Cameron, o actual inquilino do nº 10 de Downing Street, não deixou de alfinetar o “timming errado” ao abordar a vida da ex-presidente do Partido Conservador, alegando ser “cedo demais”. Ao que Streep ripostou: “porque não afirmou ele que deveríamos esperar que ela morresse? E como se haveria ela de sentir?” Tricas à parte, Meryl demonstrou-nos ter compreendido bem o tecido e o perfil da mulher e da personagem política. Se não leiamos…
Parabéns pelo filme e por uma carreira plena de sucessos. No próximo festival de Berlim (9 a 19 de Fevereiro) receberá um prémio de carreira. Isto para além do Globo de Ouro e de continuar a ser uma crónica candidata aos Óscares. Por tudo isto, apetece perguntar: todos este prémios e todo este reconhecimento que significado tem para si?
(risos) Claro que tem. Significam muito. Quando somos nomeados a um Óscar somos nomeados pelos actores. São os nossos colegas que nos conhecem bem, sabem quem somos, percebem o que fazemos. Isso é muito importante.
Muito bem. Vamos então ao filme. Poderá afirmar que esta será a interpretação mais conseguida da sua carreira?
Foi seguramente a melhor oportunidade de interpretar uma vida inteira. De uma forma completamente subjectiva. Ainda não tinha sentido isso.
O que a fascinou mais nesta mulher que quis interpretar?
Eu digo-lhe o que mais me interessou neste papel, e o que mais me surpreendeu. É que se trata de um filme sobre uma mulher velha, ao longo de três dias da sua vida. Não será esse o temas menos interessante da nossa cultura? Interpretar uma mulher velha? Pelo menos na cultura americana. É o que tem menos marketing, que chama menos a atenção, que tem menos valor em termos pessoais: uma mulher velha e gorda. Acho que foi isso que me arrebatou.
Apesar de viver nos EUA, tinha a noção de que Margaret Thatcher era uma personagem tão controversa e que provocava tantas divergências?
Sim, sem dúvida. Parte disso foi o que mais me interessou. Trata-se de um filme sobre uma figura política, mas que tem uma história muito pessoal, quase existencial. O lado político serve apenas para acentuar as paixões dela e como era encarada. Mas isso não tem a ver apenas com o lado mais político da sua função. Havia uma série de pessoas em redor dela, mas que podiam andar na rua sem serem reconhecidas. Só ela é que permanece tão odiada.
Sentiu necessidade de rever a sua infância para a compreender?
Ela era comparada a Reagan, que na altura também não era muito popular (risos). Eu só via o tipo mal vestido e com o cabelo oleoso. Nada mais. A ideia subversiva deste filme é que considera Margaret Thatcher como um ser humano. Mais do que um ser político. Que não é propriamente como pensamos nela.
De facto, percebe-se que o filme não aborda toda a carreira política dela…
Sim, muitas coisas foram deixadas de fora. Como o aprofundar da desavença com o ministro Michael Heseltine, os encontros com Gorbachev, o envolvimento na campanha de libertação de Pinochet. E muito mais. Tive a oportunidade de ler muito sobre ela e isso fascinou-me: a forma como muitos políticos defendem um princípio à custa de outros. Pesam o valor de uma medida contra o valor de outra. Não é isso que fazem os políticos?
Diria que sim…
Claro! A Thatcher, na minha opinião, tinha aquela obsessão por uma única medida. Mas essa é uma força que inevitavelmente se esvai quando ouvimos outros argumentos que conseguem desfazer essa posição. O paradoxo é que é precisamente isso que as pessoas apreciam nos líderes. Gostam de sentir aquela firmeza. Não querem ver o barco do Estado ser desviado por alguém com uma opinião diversa. Preferem a visão voluntariosa. E ao mesmo tempo é essa a reacção que provocam quando não escutam e não se mantém abertos ao diálogo.
Foi difícil para si encontrar o equilíbrio certo entre a dramatização e a interpretação da personagem?
É interessante porque existe muito material dela quando jovem, o que me permitiu retirar essa manifestação. Foi importante encontrar esse lado, pois é importante perceber como ela era nessa altura. A grandeza com que demonstrava todas as suas opiniões, como jovem política, quase sem emoção. Já numa época recente, mais velha, não existe nada. Teve de ser tudo imaginado.
Neste ponto, é importante saber: conseguiu ou tentou falar com Margaret Thatcher?
Não consegui, nem quis. Este filme é apenas uma imaginação do que seria o ponto de vista dela ao olhar para trás e recordar a sua vida. Desse ponto de vista, senti-me totalmente livre. Normalmente, ou interpreto uma ficção ou alguém que viveu. Neste caso, vivi ambos os lados. Tive de inventar a versão dela mais velha desta pessoa real. Senti-me como eu própria.
Artigo originalmente publicado no Sol

