Rooney Mara. Até agora, um nome sem expressão dramática, sem aquele brilho na mediática indústria de cinema. Subitamente, a herdeira de um império desportivo americano – o seu avô e o pai têm mantido a liderança da famosa equipa de futebol americano New York Giants – assume a responsabilidade de dar rosto a Lisbeth Salander, a hacker destemida e bissexual, torturada, da trilogia Millennium, a obra que vendeu 60 milhões de exemplares em todo o mundo. Em «Os Homens Que Odeiam as Mulheres» terá provavelmente o papel feminino mais duro do ano. A responsabilidade vai direitinha para o creditado David Fincher que ficou impressionado quando miss Mara deu uma ‘tampa’ a Jesse Eisenberg na cena inicial de «A Rede Social». Um ano depois, em Estocolmo, Rooney relatou à Máxima como foi viver na Suécia essa experiência que a transformou e fez ascender à lista A das estrelas de Hollywood. E quando lhe perguntámos se estava preparada para esse impacto na sua vida depois da estreia de «Os Homens Que Odeiam as Mulheres não houve hesitação na resposta. “Confesso que nem tive tempo para pensar nisso, pois vivi numa espécie de bolha durante um ano.” Depois sorri e acrescenta: “Mas, sim, estou preparada.”
A jovem americana de 26 anos, que equilibra o trabalho de atriz com uma causa social com crianças órfãs num bairro de lata no Quénia, teve de pintar as sobrancelhas de loiro, os cabelos de negro e habituar-se a conviver com um piercing no lábio, dois no nariz, um na sobrancelha. Há ainda um no mamilo. Naquela manhã cinzenta de Estocolmo, Rooney mantinha apenas um suave tom de batom e uma maquilhagem discreta. Da experiência anterior conservava apenas o cabelo negro. Sentada de forma descontraída numa sala de reuniões do hotel Hilton Slussen, no bairro Sodermalm, foi pontuando as respostas concisas com sorrisos e uma voz suave. Percebe-se que vive aquele momento irrepetível entre o limiar do anonimato e um inevitável estrelato. Ela sabe-o, nós sabemo-lo. Um percurso para seguir de perto, entretanto abrilhantado pela experiência de trabalho com Terrence Malick, em Lawless, ao lado de nomes como Christian Bale e Ryan Gosling.
Rooney Mara em«Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres»
Já percebeu que a partir de agora a sua vida mudará radicalmente? Sente alguma pressão pela responsabilidade de abraçar um papel tão importante para os muitos milhões de leitoras que devoraram os livros de Stieg Larssen?
Senti essa pressão antes de obter o papel. Mas depois do David mo oferecer tentei ficar distante de toda essa pressão. Se me deixasse invadir por ela jamais conseguiria fazer o que fiz.
Há muitas pessoas que se sentem próximas de Lisbeth Salander. Está preparada para esse julgamento?
Como é difícil de agradar a todos, não deixei que isso me influenciasse.
Sente alguma proximidade com a ‘sua’ Lisbeth Salander?
Se não tivesse essa ligação com ela acho que não conseguiria passar um ano ligada a ela. É que eu própria também tenho um lado negro, por isso não foi muito complicado. Aliás, não gostaria de interpretar nenhuma personagem com a qual não tivesse uma ligação.
O que achou da Noomi Rapace no mesmo papel?
Vi o primeiro filme, antes de saber que iria fazer o filme. E gostei imenso dela. Mas não fiquei a pensar que também o poderia fazer. Percebi que era uma grande oportunidade para uma rapariga, mas não necessariamente que seria eu. Só depois de ler os livros fiquei obcecada por interpretar a Lisbeth.
O David (Fincher) definiu-a como uma punk…
A sério? Não acho. Ser punk ou gótico significa pertencer a um qualquer tipo de movimento ou subcultura. E não é o caso dela, ela não faz nem deseja fazer parte de nada. É como se usasse uma armadura que repele pessoas e as mantém longe de si.
Quais foram as exigências físicas mais marcantes deste papel?
Tive de aprender a andar de moto, de skate; treinei muito kickboxing e também dialeto. E, claro, fiz muita pesquisa a ler e vi filmes algo perturbantes.
Digamos que o objetivo era entrar num ambiente mesmo negro…
Chegou a magoar-se?
Digamos que senti muita dor, isso sim… [risos] Mas nunca pensei realmente nela.
O que achou da experiência de descolorar as sobrancelhas, pintar e cortar o cabelo de forma tão radical?
Até gostei dessas mudanças e de assumir esse lado andrógino. Seduz-me a possibilidade de trabalhar num local onde não existe vaidade.
Acha que a sua mudança de visual neste filme acabou por influenciar a maneira como se veste agora?
Sim, acho que sim. Como passei um ano inteiro vestida de forma tão confortável, acho que nunca mais vou usar uma saia… [risos] É muito mais divertido poder vestir-me como um rapaz. Era muito mais feminina antes de fazer este filme. Pode ser que volte a ser como antes, mas também não sinto essa falta.
O filme contém várias cenas de abuso sexual particularmente perturbadoras. Como acha que o público feminino irá reagir?
Não vai ser fácil de ver, mas é natural que seja assim. Sobretudo a minha cena de vingança. Vai ser muito difícil de ver. É um momento em que existe um enorme conflito. Mesmo assim, é um conflito que me parece salutar. Acho mesmo que as pessoas devem sentir esse conflito no cinema.
Sendo mulher, como avalia esse abuso, esse trauma?
Não gostaria de fazer uma declaração política. Obviamente que qualquer tipo de violência feminina é simplesmente terrível. Ajudou-me bastante o facto ter lido sobre o tema e recolhido informação num centro de mulheres abusadas sexualmente. Achei importante fazer tudo isso, mas no final interessava-me de que forma isso alteraria a minha personagem. Isso não se lê no livro.

