Novo filme dos manos Dardenne em Cannes e um novo encontro com a ‘nova vaga’ do cinema europeu. Como sempre, Jean-Pierre faz as honras da conversa e Luc completa sempre que há necessidade. Duas cabeças, uma mente. E mais um filme de puro cinema. Um verdadeiro conto de fadas.
Temos visto diversos problemas de família durante este festival. Sente que é um problema dos nossos tempos?
Jean-Pierre Dardenne – Talvez numa sociedade cada vez menos solidária haja tendência a encontrar solidariedade na família. Um pouco como sucede com os emigrantes. Mas você fala de ‘problemas’ de família, é porque entende que as famílias são hoje menos solidárias. Existem hoje conflitos novos. Não sei exatamente. Nos nossos filmes, as personagens tentam sair de uma solidão para encontrar o outro, seja o amor, solidariedade ou a amizade. É como se tentassem encontrar uma família. Não uma família biológica.
Vê então este filme como uma espécie de continuação com o seu trabalho anterior? Não só como tema, mas também no estilo?
Jean-Pierre Dardenne – Sim, há uma continuidade na forma, de certa forma como diria um Presidente francês, uma “renovação na continuidade”. Mas essa continuidade importa também diferenças. Uma delas é que se trata de um filme rodado sob a luz do sol – e isso é uma novidade. A mise en scène é mais descontraída. E é um filme, para nós, do lado da esperança e da felicidade. Pelo menos os outros eram menos. E é a primeira vez que filmamos uma história de amor, um gesto de amor para salvar outro.
É de facto um filme muito otimista e humanista. De certa forma, ao contrário de uma realidade menos otimista. Posso perguntar-lhe onde encontra esse optimismo?
Luc Dardenne – Temos de o encontrar (risos)… Acho que o cinema nos faz sonhar e ter os sonhos mais felizes e não os tristes. Penso que neste filme, mais do que nos outros, pensámos em filmar momentos de felicidade. Mesmo que não nos seja fácil chegar a essa realidade, o cinema é esta resposta à realidade. Como um conto de fadas. Uma tragédia otimista que descreve o mundo como o vemos, mas de uma forma feliz.
JPD – Não podemos dizer que já não aguentamos. O conformismo está ligado ao desespero. E isso é um mau sinal para a Humanidade.
Foi difícil de encontrar o Tomas (Doret, personagem do miúdo Cyril Catoul)?
JPD – A verdade é que não foi difícil. Fizemos um casting e seleccionámos uns 150 meninos. E logo no primeiro dia vimos o Tomas. Ele fez a 5ª audição. Quando acabámos as cenas ele virei-me para o meu irmão e ambos percebemos que tinhamos encontrado o nosso Cyril. De resto, ele possuía uma presença que nos espantou.
Qual o exercício que lhe pediram?
JPD – Foi a cena do início do filme. Em que toca o telefone, ele atende e o seu pai desliga. Foi um momento em que percebemos o sentimento de alguém que sente que do outro lado desligaram a comunicação. Sentimos esse abandono. Foi um milagre tê-lo encontrado no primeiro dia. Continuamos a ver os outros, mas já com esta certeza. Foi a primeira vez que isso nos aconteceu.
Ele tinha já alguma experiência? Conhecia o vosso trabalho?
JPD – Não, não nos conhecia.
«O Miúdo da Bicicleta»
Podemos ver aqui uma homenagem ao neorealismo italiano e, em particular, ao filme de De Sica, Ladroes de Bicicletas (1948)?
LD – É claro que conhecemos o filme. É claro que aqui há uma bicicleta roubada, mas não pensámos nesse filme. Mesmo com a proximidade da relação entre o pai e o filho. Gostamos muito do filme, mas não quisemos fazer nenhuma homenagem.
Curiosamente, hoje em dia, é o vosso estilo que inspira muitos realizadores na Europa e nos EUA, como Darren Aronofsky que reconheceu a vossa influência?
LD – É sempre gratificante saber que inspiramos o trabalho dos outros. É claro que segue as personagens e tem essa proximidade dos movimentos com a realização. É um pouco o que fizemos com Rosetta (1999) ou O Filho (2002). Gosto muito do cinema dele, mas não por isso.
O que sentem ao estar aqui em Cannes e já ter ganho a Palma de Ouro por duas vezes (Rosetta e O Filho)? Não falta quem vaticine que podem ganhar outra vez…
(risos) JPD – O meu irmão encontrou uma fórmula simpática de responder, e que é: “os nossos filmes vêm da Bélgica, mas também de Cannes!”… (risos) Como fórmula não está mal… É verdade que foi graças a Cannes que os filmes que rodámos na Bélgica puderam ter o devido reconhecimento. Estar aqui de novo dá-nos a possibilidade de obter um reconhecimento internacional. Se for bem recebido pela imprensa e pelo público isso significa que poderá chegar a mais pessoas. Se tiver prémios ficaremos contentes, claro, mas não se trata de nenhuma competição. Para isso, basta-nos a nossa equipa: o Standard de Liége!
Tiveram alguma razão particular para a escolha de Cécile De France para este filme?
JPD – For por duas razões. A primeira, antes de começarmos a escrever o guião, percebemos que seria uma actriz conhecida. E isso foi algo que nunca fizemos. Somos irmão e nunca trabalhámos com um actor ou actriz conhecida. Até porque há sempre um trabalho de sedução. Por isso é melhor sermos dois.
LD – Mas também se pode dar o caso dela se aproveitar disso. Mesmo assim decidimos tentar. E como queríamos que a personagem trouxesse algum calor e alegria a Cyril, lembrámos-nos depressa da Cécile De France. Foi bom quando ela disse que sim, até porque assim somos todos belgas…. (risos)

