Estivemos à conversa com o dinamarquês voador, o autor da trilogia Pusher, Bronson e Valhalla Rising, e seguramente um dos mais promissores realizadores do nosso tempo. Depois do estrondo que foi Drive, fomos desenrolando o novelo de histórias que emanam deste inflamado série B disfarçado de conto de fadas, ao som do marulhar suave das pequenas vagas que banhavam a praia de Cannes.
Antes de começarmos, Nicolas fez questão de vestir o blusão do filme e beber um café duplo… Até chegamos a falar de Logan’s Run, esse projecto megalómano de 200 milhões.
Explique um pouco como se envolveu neste projecto.
Envolvi-me porque o Ryan Gosling me sugeriu este filme. Acabei por me envolver, embora o guião original tivesse sido desenvolvido pela Universal como um projecto de um filme de acção de 60 milhões de dólares com o Hugh Jackman. Mas não chegou a ser financiado. E o romance original era sobre a mitologia do cinema. Acho que provavelmente os executivos da Universal nem sequer o leram… (risos) O título era Drive, mas acho que procuravam uma espécie de Fast and Furious 7… Até que o Ryan tomou conhecimento e obteve a aprovação para escolher o realizador. Foi então que me ligou.
Já se conheciam?
Nunca nos tínhamos encontrado… Mas quando nos conhecemos percebemos que poderíamos fazer alguma coisa interessante. Curiosamente, nessa altura tinha estado a ler contos de Grimm às minhas filhas e tinha vontade de fazer algo com esse imaginário.
E porquê os contos de fadas?
Interessava-me sobretudo a estrutura do conto de fadas e a sua mitologia. É quase como um western. A ideia foi adaptar esse estilo sem o tornar muito óbvio. Depois de ler a novela fiquei apanhado por ela. Gostei da história do duplo. O curioso é que Bullit foi feito porque o Steve McQueen quis fazer o filme com o Peter Yates. O mesmo sucedeu com o Lee Marvin em Point Plank. Ele só queria fazer o filme se o John Boorman viesse de Inglaterra.
A proximidade e influência do cinema americano é muito vincada no seu filme, mas com uma sensibilidade europeia, concorda?
Adoro o cinema americano. Mas acho que o cinema americano funciona melhor ainda quando tem um sabor europeu. E vice-versa. A partir dos anos 20 em que os europeus começaram a emigrar para a América foi quando o cinema começou a criar uma tradição clássica. O mesmo nos anos 40, 60, 70…
Fale-nos um pouco das influências do filme, da música, dos filmes dos anos 80… Foram influências que quis trazer para este filme?
Acho que não podemos falar em influências em concreto. É mais um sub-género do LA Noir. E até de um sub-género que apelidámos de néon noir. Representa muito poucos filmes, mas em que é o néon. Um deles é «Liquid Sky» (1982, de Slava Tsukerman). E o outro «Blade Runner».
Até que ponto a escolha dos carros…
… atenção. Eu não sei nada sobre carros; eu nem sequer sei conduzir e não tenho carta de condução! Apenas perguntei ao Ryan que carro ele queria conduzir e ele escolheu. Neste caso é quase como um adereço.
Teve algum receio de usar as cenas de ultra violência?
Não. Acaba por ser próximo daquilo que tenho feito. Mas gostava de ver o que conseguiria fazer com o Ryan. Também não tinha muito dinheiro e usei isso em meu favor. Nem os investidores viram o filme antes de o mostrar aqui em Cannes.
Acha que este vai ser o seu bilhete para Hollywood ou continuará a fazer filmes nas Dinamarca?
Eu não tenho o desejo de viver em Hollywood ou Los Angeles. Não tenho qualquer interesse nesse ponto de vista. Gostei de viver lá quando fiz este filme, porque consegui perceber a mitologia de ser um realizador em LA.
Está a trabalhar de novo com o Ryan Gosling, certo?
Sim, estamos a fazer o Logan’s Run. E quando fazemos um filme como este, temos de assumir a parceria com a Warner de uma forma monumental. Acaba por ser uma coisa completamente diferente. São 200 milhões de dólares, mais o lado franchise. É algo que se aborda de uma forma diferente.
Sentiu que estava preparado para dar este passo?
Nunca se está pronto. Eu sei disso porque sou pai…
Sentiu alguma apreensão ao embarcar nesse projecto?
Claro. Pensei naquilo que realmente queria e precisava. Mas ao mesmo tempo, apenas vivemos uma vez. Quando fiz Valhalla Rising percebi que ou fazia algo igual ou então algo completamente diferente. Foi o que escolhi.
Nos créditos finais, agradece a Alejandro Jodorowsky, porquê?
Porque o ano passado baptizou-me como o seu filho espiritual. E deu-me uma máxima dizendo-me que se fosse para Hollywood, me limitasse apenas a sorrir…

