Entrevista a Ryan Gosling, o protagonista de «Drive – Risco Duplo»

(Fotos: Divulgação)

Ryan Gossling usa uma camisa de alças, calcas de linho claro e sapatos italianos. Sem meias. Estamos numa das praias privadas de Cannes. Mais adiante está Nicolas Winding Refn com outro grupo de jornalistas. Ele que ganharia o prémio de realização do festival. Pode dizer-se que «Drive» é um filme inflamado por 98 octanas e que tempera um suave romance com algumas cenas de ultra violência. Uma espécie de conto de fadas moderno, segundo o próprio Gosling. A doce Carey Mulligan gostou muito. Nós também amámos.

Você é mesmo obcecado por carros?

Um bocadinho. Pelo menos, mais do que o Nicolas.

Como se preparou para este filme. Contactou com corredores a sério?

Sim, com o Darren Prescott. É um duplo que fez todos os filme da série ‘Bourne’. Passei uns tempos a treinar com ele, com um Camaro e um Mustang num parque abandonado de uma igreja. Pegávamos nos carros e só os largávamos quando estivessem a deitar fumo ou fogo… Depois vinha um reboque que os levava. E eu ia para casa. Foi essa a preparação. “Pretty cool”.

Disse que fazia quase todos os stunts. Isso significa que já é um condutor com experiência?

Digamos que é mau hábito… É perigoso. Dá muito gozo, mas não é fácil. Tentei encontrar áreas na zona da baixa de Los Angeles à noite que estivessem vazias para eu fazer as minhas manobras.

De facto LA é a cidade ideal para esses “night drives”…

O que mais gosto de fazer em LA é conduzir à noite. Fazia isso muito com o Nicky (Winding Refn). Conduzir à noite, ouvir música e ver filmes. Fizemos isso durante todo o processo de filmagem. O filme que cresceu dentro deste processo.

É verdade que lhe deram a possibilidade de escolher o realizador para o filme? E porquê o Nicolas Winding Refn?

Porque ele é o melhor. E acho que ele lhe poderia dizer isso também. 

Qual dos filmes dele mais o impressionou?

Vi o Valhalla Rising num cinema arthouse. E foi uma das minhas melhores experiências a ver um filme. Com uma primeira parte muito intensa e poética e a meio o protagonista corta um inimigo ao meio. Acho que toda a gente ficou de olhos arregalados. É uma obra de arte. Ele tem uma sensibilidade muito forte dos filmes série B. 

Viram filmes dos anos 80, porque se percebem aqui algumas influências…

Sim, lembro-me de comentarmos como seria bom que «Pretty in Pink» («A Garota do Vestido Cor-de-Rosa», de Howard Deutch, 1986) fosse violento…

(risos)…

Se o «16 Candles» («16 Primaveras», de John Hughes, 1984) tivesse uma cabeça esmagada seria o filme perfeito… 

 
Ryan Gosling e Nicolas Winding Refn

Não há também uma sensibilidade dos anos 70?

Gosto muitos dos filmes de carros dos anos 70, mas era mais a sensibilidade dos anos 80, dos filmes do John Hughes que procurávamos. A música também.

O que acha sobre a violência do filme? Acho que vai criar um pequeno fenómeno de culto em redor do filme…

Foi engraçado ver as pessoas a aplaudir durante a sessão aqui em Cannes. Foi uma reacção interessante, porque a violência não é muito real. O Nicolas acredita que a violência é uma forma de arte. É muito extrema.

De onde acha que vem esta violência da personagem?

A ideia é encarar a personagem como fazendo parte de um conto de fadas. Um pouco como se estivesse determinado a proteger esta mulher (Carey Mulligan), na pele  do duplo que se sente como um lobisomem. É na violenta cena do elevador em que oficialmente se transforma. Mas ele é também o produto de alguém que viu muitos filmes e começava a acreditar que a sua vida poderia ser um filme. 

Alguma vez a Carey (Mulligan) teve medo de andar de carro consigo?

A Carey? Ela não tem medo de nada. 

Conduzir e representar não deve ser fácil. Como se preparava?

O Nicolas mostrava-me fotos dos filhos dele antes de fazermos esses stunts, não fosse deixá-los órfãs…

(risos)… E quando conduz sente ainda a presença dessa personagem?

Sim, porque agora sei fazer todas estas manobras. E não as posso fazer. É frustrante.

Está preparado para ser considerado um herói de acção?

Não tenho sido sempre?…

(risos) Sim, o «Notebook»… Por falar nisso, acha que é este filme a razão pela qual se afasta dos filmes de grande orçamento?

Eu fiz esse filme. Não fiz? Não há volta a dar. Mas não posso continuar a fazer a mesma coisa. Já me ofereceram muitos papeis de super-herói, mas para mim, este é o meu filme de super-herói. Quando vi o Rocky, pela primeira vez, achei que eu era essa personagem. Aqui é o caso do duplo que se assume como um super-herói. Há tantos filmes de super-heróis que não podemos deixar de nos sentir influenciados por eles.

Você pode não ser um super-herói, mas a verdade é que se mantém em forma. Quanto tempo é que dedica a manter-se em forma?

Faço ballet. 

(risos) A sério?

Sim. Apenas ballet. E alguma ginástica. 

Esse tipo de exercício também funciona como estabilidade emocional ou concentração?

Acho que a representação é como uma dança. Eu comecei como bailarino, por isso, para mim, funciona a todos os níveis. 

Gosta de interpretar personagens controversas, como em «The Believer»?

É uma personagem incrível. Deveria até ser uma peça de teatro, para vários actores vestirem a personagem. E foi a personagem que me deu uma carreira. Tudo foi muito diferente depois.

Posso perguntar-lhe o significado das suas tatuagens?

Esta é a minha mãe e a minha irmã. E é um desenho sobre uma história que a minha mãe me contava. Sobre um lobisomem que deixava um coração e sangue… E um fantasma que visitava o seu próprio esqueleto. 

Ryan Gosling 

Que história era essa? Um pouco assustadora, não?

É baseada em The Giving Tree, do Shel Silverstein.

O que o atraiu a associar-se ao multimilionário projecto «Logan’s Run»?

O Nicolas fez «Bronson» por um milhão de dólares e este filme por dez milhões. Agora estou ansioso por ver o que ele consegue fazer com 100 milhões… (risos)

Qual acha que é a especialidade do Nicolas que o faz ser único?

Vê-lo trabalhar é como observar um jogador de basebal que se prepara para fazer um home run antes mesmo de dar a tacada. Não sabemos se ele vai fazer mesmo um home run, mas é para isso que se prepara. Mesmo que falhe é incrível seguir esse projecto. Muitos realizadores gastam milhões sem metade desse fascínio.

Até onde acha que ele irá?

Não sei, mas já li o próximo projecto dele e fiquei espantado.

Como se chama?

Only God Forgives.

Está a ver Drive transformado numa franchise?

Sim, nós queremos fazer um segundo filme. Já sinto falta da personagem.

E sabe como está a andar a nova versão de Pusher?

Ele vai fazer mais Pusher?

O Nicolas disse que sim…

Cool.

Gostaria de entrar?

Entraria em qualquer filme dele.

Como foi trabalhar com o George Clooney?

É óptimo. O dia de trabalho termina à hora do almoço. E não faz mais do que 2 ou três repetições. Sabe exactamente o que quer. E fez a sua final cut três semanas antes de terminarmos. 

Foi fácil dizer que não ao projecto Lone Ranger?

Pois foi, eu queria interpretá-lo como uma personagem gay, mas eles não concordaram… É verdade.

Como está a decorrer a sua carreira musical?

Estamos a trabalhar num segundo álbum. O projecto foi criado como um filme. Mas como era muito cara, decidimos transformá-la num disco, o que não necessita de investimento. Transformámos as ideias em música; mas como não sabíamos tocar instrumentos, tivemos de aprender. Depois, para fazer uma digressão tivemos de nos transformar numa banda. Entretanto tivemos uma nova ideia para um filme, mas é, de novo, demasiado dispendiosa. Por isso fizemos um novo disco. Mas ainda não está definido.

Ryan em «The Place Beyond the Pines» 

Há alguma personagem que tenha interesse em representar?

Estou ansioso por «The Place Beyond the Pines», de Derek Cianfrance. É que eu sempre quis roubar um banco. Mas tenho medo de ir preso. O meu plano era roubar um banco numa moto, para poder entrar com um capacete, fazer o assalto e escapar em seguida. Depois teria um camião de u-Hal, de mudanças, para esconder a moto, enquanto a polícia procurava uma moto. Esse era o meu plano, que relatei ao Derek. Foi aí que ele me disse que tinha um projecto sobre um roubo com uma moto. Foi assim que me juntei ao filme dele.

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