E fala ainda da sua vida académica, durante um encontro ocorrido mesmo antes de estrear o filme ‘127 horas’. Foi em Berlim, em Fevereiro de 2010.
O James também escreve poesia?
Sim, tenho mesmo de escrever. Tenho uma aula de poesia. Já escrevi vários poemas.
Quer situar o ambiente em que se desenrola o momento em que Allen Ginsberg recita o poema ‘Uivo’?
Eu recrio a primeira leitura do poema ‘Uivo’, na Six Gallery, em San Francisco, acho que em 1956. Apesar de não existir uma gravação dessa leitura (e acho até que a Six Gallery já nem existe), mas há registos de leituras do Ginsberg pouco depois e ao longo de cinco décadas. Eu tentei escutar tudo o que pude. No início as suas leituras começam por ser muito monocórdicas, mas à medida que amadurece torna-se também mais confiante na leitura e também na própria performance. É muito mais dinâmico. No filme optei pelos dois registos, alternando com poemas diferentes em épocas distintas. Nos mais actuais percebemos que gostava de falar da sua vida, mas nos ‘flashbacks’ percebemos que era um Ginsberg confuso.
Antes de abraçar este projecto já tinha algum interesse pela poesia da geração ‘beat’? O que acha do estilo deles?
É um material poético bom para ler em voz alta. É muito próximo ao discurso falado. Tem essa vitalidade. O Ginsberg tornou-se numa figura pública através do poema ‘Uivo’; entretanto tornou-se budista e a sua poesia alterou-se um pouco. Pessoalmente gosto muito deste poema e de outros poemas.
Onde encontra a sua inspiração? Consegue definir a sua própria poesia?
Eu participo em vários programas. Entre ficção e poesia. Sinto-me cada vez mais confortável com o que escrevo. Também já participo em ‘workshops’ de literatura há cinco anos. Por isso sinto-me mais confortável com a minha ficção. Quanto à poesia, ainda estou à procura do meu estilo.
Considera ‘Uivo’ um grito de liberdade?
É um grito contra a repressão. Desde logo, a repressão de ser um homossexual, de ter sido reprimido pelas leis e tratamentos contra homossexuais.
O James Franco continua a estudar na faculdade? Isso ajuda-o a estudar também os papeis que interpreta?
De certa forma, sim. São estudos diferentes, mas quando estou a estudar para um filme procuro coisas diferentes do que para uma aula de literatura.
Ajudou-o também para este filme ‘Uivo’?
Por exemplo, quando estudei o Allen Ginsberg para fazer o ‘Uivo’ tentei compreender o poema e de que forma isso se relacionava com a vida dele. Li a biografia, os poemas e escutei os poemas lidos por ele de forma a conseguir interpretá-los pelo comportamento. Mas se fosse na universidade estaria a estudar a técnica que usou de frases longas. Nesse ponto, sim, acaba por existir uma aproximação. Uma coisa eu aprendi para me preparar para um filme: é que podemos sempre preparar-nos mais. Isso fez-me ser muito dedicado naquilo que faço.
É por isso que continua a estudar?
No início da minha carreira interpretei o James Dean, um papel muito exigente em que as pessoas iriam ser muito críticas. Apesar de não poder impedir isso, acho que não poderão dizer que não me esforcei o suficiente. Isso marcou a forma como me dedico a cada papel. Regressei à escola porque tenho outros interesses para além da representação.
É verdade que teve lições de representação porque era um pouco tímido?
Não. Isso é uma má interpretação. Na verdade, quando era miúdo era muito tímido e era pouco sociável. Ganhei o prémio de melhor sorriso no ano de finalista porque era apenas isso que eu fazia (risos). Eu sorria, não falava…
E quando foi que percebeu que queria ser actor?
Desde muito novo que soube que queria ser actor. Mas como era tímido tinha medo de falhar. Isso só me passou quando venci a inibição e participei em audições na escola e acabei por ganhar o papel principal. Quando me encontrei no palco num mundo imaginário isso deu-me uma permissão psicológica para ser expressivo. Pode não ter sido uma cura para a minha timidez, mas foi certamente um veículo para a minha comunicação.
Relaciona isso com o que sentiu Allen Ginsberg que também encontrou sentimentos para se exprimir?
Sim, foi um pouco semelhante. Ele também ganhou uma forma específica de escrever. Quando disse que queria exprimir os seus sentimentos verdadeiros também estava a assinalar uma nova forma de escrita mais automática. Um pouco como o Jack Kerouac.
Mudando de assunto: o James participou em ‘Homem-Aranha’ antes de ser uma ‘movie star’. É importante para si ser uma estrela de cinema?
Como essa franchise foi muito popular pelo mundo fora, é natural que me tenha exposto a pessoas de outros países. Diverti-me muito a fazer esses filmes, mas não me parece que será por aí que vão louvar as minhas prestações como actor. Bom, não sei…
Acha que pelo menos lhe abriram mais o leque de possibilidades e ofertas?
Não sei, porque os filmes de que mais me orgulho foram ‘Milk’ ou ‘Pineapple Express’/’Alta Pedrada’ (ambos de 2008) e não me parece que o Gus Van Sant venha dizer que me contratou para o ‘Milk’ por me ter visto no ‘Homem-Aranha’… (risos)
E o que o motivou a trabalhar com Seth Rogen e Judd Apatow?
Já tinha feto um ‘show’ com eles intitulado ‘Freaks and Geeks’. Fiquei muito orgulhoso, foi uma óptima experiência. Gosto muito deles, como comediantes são o melhor que temos. Se vier a ter outra oportunidade de trabalhar com eles não hesitarei.

