Aproximadamente há uma semana atrás (no dia 8 de Setembro), e logo após a sua estreia no Festival de Veneza (no dia 6), chegou às salas portuguesas «Cisne», o novo filme de Teresa Villaverde («A Idade Maior», «Os Mutantes»,«Transe»).
Seleccionado para a secção Horizontes da Biennale, em «Cisne» seguimos Vera (Beatriz Batarda), uma cantora de pouco mais de 30 anos apaixonada por um músico que só consegue amar à distância. Pablo (Miguel Nunes), um rapaz solitário, foi quem ela escolheu para motorista e companhia nas suas intermináveis noites de insónia. Certo dia, Alce (Sérgio Fernandes), um miúdo pobre conhecido de Pablo, mata acidentalmente uma pessoa. Vera envolve-se então com a criança e ao ajudá-la, ajuda-se a si própria.
Com Beatriz Batarda, Miguel Nunes, Israel Pimenta, Sérgio Fernandes, Rita Loureiro, Marcello Urgeghe, Tânia Paiva e Carlos Guímaro no elenco e com uma banda-sonora com nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi e John Cage, «Cisne» marca o regresso ao grande ecrã de um dos maiores nomes do cinema português.
O c7nema teve a oportunidade de falar com Teresa Villaverde, que nos contou um pouco mais sobre a sua carreira e sobre o seu novo filme. Aqui ficam as suas palavras:
Vinte anos depois de «A Idade Maior» o que mudou na Teresa Villaverde enquanto cineasta e autora e no próprio cinema português?
Mudou tanta coisa, nem sei por onde começar. Quando recebi o primeiro apoio para o meu primeiro filme, tinha 22 anos. Naquela altura era estranho um realizador/a tão novo, tanto em Portugal como fora. Hoje é mais normal e felizmente porque é uma idade em que as pessoas são particularmente criativas e ainda sem auto-censura. Foi, para mim, um privilégio. Naquela altura, início dos anos 90, havia uma grande curiosidade pelos novos cineastas que surgiam. Essa curiosidade começou fora de Portugal, mas depois estendeu-se ao país também.
Neste momento está tudo mais difícil. Temos feito tudo para levar o público ao Cisne, e estamos muito aquém ainda do nosso desejo. O desinteresse pelas salas de cinema é geral, os DVDs, a internet, têm roubado muita gente às salas. Mas temos que continuar a tentar porque não há nada que se compare à beleza do mistério da sala escura.
De onde surgiu a ideia para «Cisne»? Qual a génese do projecto?
Eu penso que uma pessoa que trabalhe como eu, com o cinema cara a cara com a poesia, não pode saber exactamente qual a primeira imagem ou a primeira vontade. Eu escrevinho muito, muitas notas, até perceber que estou a escrever um filme. Escrevo muitas frases soltas antes de saber quem está a falar, e de repente sei quem fala e sei de quem estou a falar. É assim.
Como foi financiada a obra? Li que teve de criar a sua própria produtora? Como correu a experiência?
Este filme teve só dinheiro português, é o primeiro que faço assim. Claro que era por isso pouco dinheiro. Tivemos o apoio do ICA, da Fundação Gulbenkian e da Câmara Municipal de Lisboa.
Por ser pouco dinheiro, pareceu-me importante poder controlar cêntimo a cêntimo onde era gasto, e foi por isso que quis produzir eu.
Foi possível e correu bem porque em Portugal há técnicos excelentes, que são excelentes em qualquer parte do mundo. Tive uma equipa dessas, todos excelentes e muito solidários. Enquanto filmei, fui só realizadora. Foi uma experiência muito boa.
E os actores. É a primeira vez que trabalha com a Beatriz Batarda. Como foi essa experiência? É para repetir?
Cada filme que fazemos nos pede coisas diferentes. Este filme pediu-me a Beatriz e foi um encontro muito feliz. Penso que o nosso entendimento, neste filme, foi quase perfeito. Penso que seria muito estranho se não voltássemos a trabalhar juntas, vejo isso como um cenário sem sentido.
Beatriz Batarda no filme «Cisne»
O foco central dos seus filmes são quase sempre mulheres. Existe alguma razão específica para isso? São as mulheres e as suas histórias mais interessantes de filmar?
Penso que é assim por eu ser mulher também. Talvez um dia venha a escrever tendo um homem como centro, mas ainda não aconteceu. Acho que percebo muito melhor as mulheres do que percebo os homens. Mas é uma lacuna minha.
Um dos seus maiores desejos é encenar uma peça de teatro. Porém, faz-lhe alguma confusão não estar colada aos actores? É uma realizadora «sempre em cima dos actores» ou dá-lhes bastante espaço de manobra para improvisarem?
Penso que se pode ganhar muito em dar-lhes espaço, mas não sei dar espaço sem estar colada. Acho que faço as duas coisas em simultâneo. No momento em que a câmara trabalha, é bom se tivermos um só coração. Quando acontece é muito bom. Bom para o trabalho e bom para a vida.
Já é uma repetente em Veneza. Como foi a recepção ao filme e mais uma presença no Festival?
Foi bom estar em Veneza mais uma vez, ainda estou a receber ecos e penso que o filme vai viajar bem. Estou muito contente com o filme, mas tenho na noção de que o meu cinema se afasta do que hoje é mainstream, mas as correntes mudam e nós temos que nos manter fiéis àquilo em que acreditamos.
Sei da dificuldade dos tempos, mas os tempos seriam mais difíceis se não houvesse a arte e os artistas. Em tempos de crise de tudo, é mesmo importante ser-se artista sério. Tento ser isso.
O ICA escolheu «José e Pilar» para concorrer à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Viu o filme? Gostou? O que achou dessa nomeação e que hipóteses acha que temos?
Não sei que filmes estavam na condição de ser escolhidos, e seguramente não os vi todos. Vi o filme do Miguel Gonçalves Mendes e gostei. Penso que o José Saramago e a Pilar del Rio são duas pessoas com muito a dizer e o filme do Miguel mostra bem isso.
Penso que para se ter uma hipótese ainda que remota, o filme tem que ter estreado nem que seja uma semana nos EUA, penso que é o caso do “José e Pilar”, e caso não seja, acho que não terão nenhuma dificuldade em fazer isso.
Desejo sorte e muito trabalho de bastidores.
O Governo diz que está a preparar uma nova legislação para o cinema em Portugal. Apoia a medida que diz que se deve olhar para o número de espectadores quando se atribui subsídios no cinema?
Vejo isso como uma medida muito perigosa. Volto a dizer, em tempos de crise, crise de tudo, financeira, de desnorte das pessoas, a arte é uma pedra fundamental. A arte remete-nos para o nosso centro. O estado tem é que apoiar mais a promoção dos filmes para que todos tenhamos mais público. Não é preciso dinheiro para isso, o estado tem muitas formas de ajudar.
Para além da ideia de se estrear no teatro, tem ainda algum projecto em mente ou de sonho que queira realizar?
Oh, mil coisas…

