Exclusivo: Entrevista a Peter Sarsgaard (o vilão de «Green Lantern – Lanterna Verde»)

(Fotos: Divulgação)

É um dos mais credíveis atores da sua geração. E não dizemos isto por o termos entrevistado. Há uma espessura em cada papel que interpreta que lhes acrescenta dimensão e relevo. Ainda que, no caso do vilão Hector Hammond de «Green Lantern – Lanterna Verde», recentemente estreado, a espessura fosse sobretudo das camadas de silicone na sua enorme cabeça…

Como é que vê este vilão? Compreende-o?

Acho que ter sido infetado por aquele alien foi o melhor que lhe podia ter acontecido na vida… (risos). Finalmente, ele pôde ser alguém. Sentia muita inveja de toda a gente. E, para mim, a inveja é a raiz de todo o mal.

Como se sentiu quando a sua personagem se transformou e ficou com aquela cabeça monstruosa?

Senti-me pegajoso, comichento e com calor; senti-me sozinho no meio de todo aquele silicone. Mas para uma personagem se afirmar tem de ser expressiva. E isso é algo que normalmente não sou quando estou a falar. De certa forma, acabou por moldar a forma como interpretei a personagem. A partir do momento em que ele fica infetado, tem de parecer quase uma personagem animada. Acabou por revelar algo de mim próprio que me agradou. Só que a maquilhagem muito pesada quase deu cabo de mim… Tinha uma massagista sempre comigo.

Quanto tempo demorava a colocar a maquilhagem?

Eu levantava-me às quatro da manhã e acabava às sete. Trabalhava umas horas, perdia mais uma para tirar tudo e depois ia para casa… e no dia seguinte repetia tudo de novo. Isto durante muito tempo. O pior é que não via o meu próprio rosto. Só à noite, quando me ia deitar. Além disso, tinha cortado todo o meu cabelo. Estava completamente rapado. Parecia um alien (risos). Foi uma experiência estranha. E isso acaba sempre por influenciar a personagem.

Acha que interpretar vilões pode ser mais divertido, como se diz?

Neste tipo de filmes, talvez. Eu costumo trabalhar personagens mais na margem cinzenta. Este foi muito divertido porque me permitiu representar como quando era adolescente. Podemos fazer mais show off… (risos). Um vilão é isso: nunca precisa de crescer.

Acha que esse tipo de representação o fez sentir mais perto do teatro, que conhece tão bem?

Não sei… A maior parte do teatro que fiz era muito específico. Já fiz teatro na Broadway, mas gosto mais de representar em teatros pequenos.

Estava, de certa forma, à espera de interpretar uma personagem assim?

Não, mas também não tenho esse tipo de sonho de interpretar um tipo específico de personagem. Talvez à exceção de Iago, que gostaria de fazer um dia. Mas eu tanto interpreto Tchekhov para 250 pessoas como faço isto. Eu sou um ator e estou disponível para ser contratado. Só sei se quero ou não fazer um papel quando me é apresentado. Normalmente, só depois de ler o guião. Agora, esta personagem não é o Cavaleiro Negro que o Heath Ledger interpretou. Este é um filme que pode ser visto por crianças.

O mais importante é a família

Acha que a sua filha (Ramona) já pode ver este filme?

Não, só tem quatro anos. Mas fomos ver o «Winnie the Pooh», que é fantástico. E dura apenas uma hora. Também vimos o «Rango».

Se não estou errado, já atuou com a sua mulher (Maggie Gyllenhaal) no palco.

Sim, duas vezes.

E sempre Tchekhov.

Sim, sempre.

Como foi a experiência?

Foi ótimo. De ambas as vezes interpretámos personagens que querem estar juntas, mas não podiam. Essa é a melhor forma de trabalhar com um casal. Acaba por dar nova inspiração à nossa vida amorosa. E o Tchekhov não é só sobre o texto, é muito mais. Há imenso trabalho para o ator. O facto de a Maggie e eu estarmos na mesma peça contribuiu imenso para essa experiência.

Quando regressavam a casa, traziam bagagem convosco para discutir ou ficava tudo no cabide?

Eu corro, sou corredor.

A sério? Eu também.

Corria de Brooklyn até ao teatro e regressava a correr também. Dessa forma, não tinha de falar sobre a peça. Eram cerca de seis quilómetros de cada vez. Quando corria pensava na peça e, ao chegar, já não sentia essa necessidade, o que era ótimo. Entretanto, ela partilhava a experiência com amigos. O mais importante é não trazer isso para casa. Aliás, tentamos não falar do nosso trabalho.

Até que ponto é fácil ou não lidar com a vossa vida e, ao mesmo tempo, cuidar das crianças?

É difícil. Eu não fiz filmes que queria porque não encaixavam na nossa programação familiar. E num deles, o ator acabou por ser nomeado a um Óscar… (risos). Mas nessa altura a Maggie estava a filmar em Londres e eu tinha acabado de despedir a empregada.

Por acaso não foi no último «Nanny McPhee»? Curioso, entrevistei-a em Londres precisamente a propósito desse filme.

Ah foi? Veja bem: ela como nanny e eu a despedi-la… Mas bebia no trabalho… A minha família é para mim o mais importante. Tenho dinheiro, oportunidades, e outras virão. Por isso, acho que não irei arruinar a minha carreira por dizer “não”. Prefiro trabalhar menos e ter uma carreira mais longa. Normalmente faço um filme por ano, porque a minha mulher também precisa de fazer um. Isso são meses sem nos vermos. Temos de ter tempo para nós.

Leu algum guião recentemente que lhe tenha agradado?

Sim, li um que vou fazer. É um filme com a Kelly Reichardt. Sempre gostei do trabalho dela. Aliás, a minha mulher chegou a dizer-me para lhe escrever uma carta a dizer que gostava de entrar num filme dela. Curiosamente, acabou por me oferecer um papel.

Como se chama?

Chama-se «Night Moves». É sobre três pessoas que querem rebentar com uma barragem. São uma espécie de terroristas ambientais. Não estão a pensar matar ninguém, apenas mudar o mundo. Quando li o guião, fiquei apaixonado e empenhado para que o filme fosse feito.

E porquê?

Eu vi um documentário chamado «If a Tree Falls»…

Eu também vi, grande filme.

…Sim, sobre um grupo de ambientalistas em Portland que tentam salvar uma árvore centenária. A polícia age com tanta brutalidade que esses jovens acabam por decidir fazer mais do que proteger uma árvore. E assim passam à ação. Dessa forma, passo a passo, consigo compreender como a minha personagem chega ao ponto de querer rebentar com uma barragem. Eu nunca o faria, mas consigo compreender como alguém possa querer fazê-lo. Nós temos uma arma apontada ao nosso planeta. Vemos que as manifestações não estão a resultar, pois são combatidas com gás pimenta. É assim que começam os movimentos radicalistas. Eu consigo compreender isso.

Essa personagem foi inspirada em alguém real?

Não é totalmente ficção. E não quer dizer que sejamos membros do ELF (Earth Liberation Front), um grupo que acabou desmantelado e preso. Embora nunca tenham matado ninguém.

Sente que teve de fazer este filme para trazer esta mensagem?

Não acho que os filmes devam ser feitos com esse objetivo, porque as pessoas não gostam de sentir que lhes estão a querer ensinar alguma coisa. A história é o mais importante. Quando li o guião da Kelly não conseguia parar: queria saber se iam ou não colocar a bomba. E a minha consciência mudava a cada instante. Essa indefinição foi o que me arrebatou.

 
 
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