Entrevista a Michelle Williams (Blue Valentine – Só Tu e Eu)

(Fotos: Divulgação)

Após um período de trauma e perda, é tempo de recuperar a alegria. Ao lado da filha Matilda e empenhada na performance arrebatadora que resulta do pungente mosaico romântico Blue Valentine – Só Tu e Eu, o filme capaz de lhe render um Óscar. Este pode ser muito bem o ano de Michelle Williams, onde mostrará a sua entrega total em diversos perfis de mulher de fibra.

Fixemos este rosto loiro e luminoso. Aqui deverão inscrever-se algumas das expressões que seguramente marcarão o ano. Desde logo porque Michelle Ingrid Williams confirma o estatuto de Oscar favourite pela total entrega e dedicação com que abraçou o papel de Cindy, no belíssimo estudo de um casamento à beira do colapso evidenciado em Blue Valentine (Só Tu e Eu, na tradução portuguesa), o melodrama que agora chega às salas sob a forma de inesperado postal de S. Valentim. É, de facto, indesmentível a química no ecrã entre Michelle Williams e Ryan Gosling. Ele, como Dean, um trabalhador empenhado com poucos estudos; ela, a enfermeira que cede ao poder do amor louco. Com um naturalismo sentido, Derek Cianfrance (um nome a reter) filma este relacionamento pleno de verdade, paixão e desgaste.

Terá sido esta uma terapia para Michelle superar a perda do ex-companheiro Heath Ledger, após a overdose acidental de medicamentos que o vitimou em 2008, deixando órfã a pequena Matilda Rose, filha de ambos e já com cinco anos? Uma coisa é certa, as semelhanças entre as personagens e a vida real chegam a ser arrepiantes. Seja como for, este projeto de longa gestação chegou ao seu conhecimento muito antes de conhecer Heath na rodagem do celebrado O Segredo de Brokeback Mountain (2005), onde receberia uma nomeação para Melhor Atriz Secundária. Felizmente, a mesma determinação e vontade de representar, que já haviam motivado o abandono do lar aos 15 anos, em conflito com os pais que desaprovavam a sua vontade artística, ajudavam-na agora uma vez mais.

Como se compreende, uma carga emocional pesada que fez com que, antes da promoção do filme no Festival de Cannes, as diligentes publicistas alertassem os jornalistas para que não tocassem nesse tema sensível. Mesmo assim, deu para perceber nas entrelinhas, durante a nossa conversa, que parte dessa alegria perdida estava, afinal de contas, recuperada. Um otimismo confirmado meses depois, em Veneza, numa outra entrevista a propósito do western atípico e profundamente feminino Meek’s Cutoff, da talentosa Kelly Reichardt, com quem rodara o precioso retrato Wendy & Lucy. Foi aí que descobrimos uma atriz feliz, a viver a ansiedade de pensar como iria encarnar, daí a dias, a pele de Marilyn Monroe, ao reviver o fugaz encontro amoroso com Sir Laurence Olivier, em plena produção do filme O Príncipe e a Corista (1957), cinco anos antes da trágica morte do ícone. E ainda com uma derradeira confirmação a selar este seu bom momento de criação, na comédia romântica Take This Waltz, dirigida pela também atriz Sarah Polley. Sim, para Michelle e Matilda a vida continua. Não é ela que diz: somos todos protagonistas da nossa história?


Finalmente estreia este projeto que sofreu tantas vicissitudes e pelo qual a Michelle esperou vários anos…
Sim, foram seis anos de espera, mas para o Derek (Cianfrance) durou 11 anos… A primeira vez que li o guião deveria ter uns 22, 23 anos. Impressionou-me logo. Desde essa altura, tudo o que lia acabava por relacionar-se com esta história. Talvez por se tratar de uma relação emocional muito pura. Mesmo sem ter vivido uma relação assim, tocou-me de uma forma profunda. E ainda me toca, apesar de ter encontrado uma forma nova de o abordar.

É inegável a química que se estabelece entre a Michelle e o Ryan. Como foi que a conseguiram?
Teve o seu tempo para evoluir, pois filmávamos durante longos períodos. Por vezes oito horas seguidas. O objetivo era criar uma intimidade própria de um casal e gerar as memórias de um lar.

Viveram mesmo juntos, portanto…
Sim, das nove às cinco (risos)… Vivemos numa casa que o Derek comprou. Tínhamos de limpar a casa, deitar fora o lixo… (risos) Tal e qual uma família. Durante esse tempo, também percebemos como iríamos criar as discussões que destruiriam a relação.

É verdade que grande parte do filme foi improvisado?
Eu diria que 50% do que se vê no filme é improvisação. O Derek era perito em colocar-me a mim e ao Ryan em situações em que não saberíamos o que iria suceder.

Algumas cenas são bastante ousadas. Por exemplo, o sexo é bastante explícito. Sentiu alguma hesitação em expor-se assim?
Veja bem, esta é uma história íntima, por isso o sexo faz parte dela. É importante que exista intimidade e realismo nessas cenas, tal qual como existe nas discussões amorosas.

O Derek disse-me que algumas cenas duravam várias horas…
A cena do chuveiro, por exemplo, durou nove horas… Acho que fiquei com uma aversão permanente a duches longos (risos). Habituámo-nos a estar nus. Não apenas fisicamente, mas também emocionalmente. Acho que o resultado foi conseguido.

Sentiu que usou no filme também alguma da sua sensibilidade e experiência como mãe?
Deixe-me ver… Talvez o entendimento prático do que se passa no dia a dia, com as constantes tarefas e todo o trabalho invisível para construir uma vida estável para uma criança. Mas foi apenas isso, pois a minha vida é um pouco diferente da mostrada no filme.

Como se sente ao completar 30 anos? Será esta um marco na sua vida? Um ponto de viragem?
Não pensei muito nisso. Ouvi dizer que com a idade vamos ficando melhor, não é? (risos) Porque há de ser tudo pior?

Como foi no seu caso? Não sentiu grandes diferenças… Mas gosta de celebrar o seu aniversário?
Gosto de celebrar os aniversários das crianças. Isso muda quando temos filhos.

E no caso da sua filha Matilda, calculo que fazer anos seja para ela uma excitação…
Nem imagina. A excitação dela em fazer anos é tão grande que é impossível compará-la com o meu aniversário.

É muito complicado o equilíbrio de gerir uma carreira e a família?
Complicado é, mas a Matilda está sempre comigo. É ao mesmo tempo um equilíbrio e uma luta.

Já alguma vez teve de pedir algum apoio?
Já dei comigo a questionar outras mães que estão em situações semelhantes. E tentei perceber como conseguem fazer a gestão de estarem concentradas e manterem, ao mesmo tempo, um espaço adequado para os filhos se exprimirem em segurança.

Isso obriga-a a uma gestão complicada do seu trabalho?
O meu objetivo é trabalhar apenas no Verão, para poder dar-lhe a continuidade de um ano escolar. Mas nem sempre consigo. Há períodos em que a balança se inclina a meu favor, mas tento que seja logo compensada com uma prioridade a pender para o lado da minha filha. Uma coisa é certa: é difícil aprender a viver com essas barreiras.

Imagino que consiga fazer algumas pausas no seu trabalho…
Felizmente, não trabalho todo o ano. O que nos permite ter os tais momentos de intensa magia em que estamos sempre juntas.

Lembra-se quando descobriu que estar diante de um público poderia significar uma carreira?
Foi cedo, tinha eu uns treze anos. É, de facto, muito importante esse ponto de vista. Acho mesmo que o teatro é a melhor terapia… Não há nada como encarnar uma personagem que é diferente de nós e poder compreendê-la. Acho que isso é ótimo.

O seu início de carreira foi também uma espécie de viagem, pois saiu cedo de casa. Pode dizer-se que foi à procura de um sonho?
Talvez tenha sido isso. Eu cresci no Oeste e acho que herdei essa mitologia de sair de casa para procurar o meu destino. A ideia de continuar para a frente e avançar é algo com que me relaciono. Mas eu era ainda muito jovem quando tomei essa decisão. Acho que foi mais precipitado do que racional.

Nesse sentido, sente-se próxima da pioneira Emily, que interpreta no western Meek’s Cutoff? Como vê essa mulher algo libertária e não submetida ao machismo do século XIX?
Acho que nessa altura a tendência era para as mulheres seguirem os maridos. No entanto, na pesquisa que fiz percebi que existiram várias mulheres assim, que sobressaíram e se afirmaram por si próprias. Já imaginou como seria a vida das mulheres que tinham de se submeter a uma posição passiva, a observar os homens tomarem decisões por elas e sobre o seu futuro?

Ao encarnar essa personagem sentiu alguma proximidade consigo própria?
Por acaso senti. Mas acho que isso está em todos nós, pois somos todos protagonistas da nossa história. Eu estou constantemente a cometer erros. Procuro tomar a melhor decisão com as informações que tenho, mas muitas vezes percebo que estou errada.

Alguma vez teve dúvidas, antes de começar um filme, se será capaz de o fazer?
Tantas vezes… É uma sensação horrível. Mas também penso como é agradável fazer algo durante um longo período.

Tal como aconteceu na série Dawson’s Creek (1998-2003), um dos seus primeiros trabalhos…
Exatamente. Bom exemplo. Apesar de não ter ainda nessa altura muita experiência. O que quero dizer é que é nestes momentos que nos sentimos mais confiantes com o trabalho que fazemos. Digo isto porque cada vez que começo um novo trabalho, tenho uma crise de insegurança.

É uma pessoa de trato fácil quando tem essas crises de identidade?
Essa é uma boa pergunta. Na verdade questiono-me… (pausa) Em primeiro lugar, tenho de saber lidar primeiro comigo própria. Se não conhecer bem a pessoa com quem vou trabalhar, sou capaz de guardar isso para mim. Mas já dei comigo a pensar em parar de trabalhar. É nessas alturas em que começo a deteriorar-me física e mentalmente. Até que o trabalho chega e tudo volta à normalidade. É como subir uma enorme montanha. Por isso mesmo, estou ansiosa por começar o meu próximo filme.

Vai ser a nova Marilyn, não é?
É isso mesmo. Estou ansiosa para começar.

E o que poderemos saber desse projeto?
Bom, não pode saber nada ainda… (risos)

Entrevista publicada na Revista Máxima 

 


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