Entrevista a Michael Douglas (‘Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme’)

(Fotos: Divulgação)

“Ganância é bom!”, dizia em 1987 no filme que lhe deu o Óscar de Melhor Ator; agora, 23 anos depois, ouve-se: “Mais, é melhor!” — isto até ao crash de 2008, que justificou a sequela. Gordon Gekko está mais sábio. E mais grisalho. Depois do aplauso na sessão do festival de Cannes, fomos apertar a mão ao verdadeiro Gordon Gekko.

Em vez do sol morno dessa manhã, o vento e o frio visitavam a cabine de madeira no jardim do luxuoso Hotel du Cap, a dominar a imensa propriedade no Cabo de Antibes, a escassos quilómetros de Cannes. A ideia era entrevistar a figura que fora capa da revista Vanity Fair de abril e da GQ americana de maio e tentar identificar as mudanças entre o primeiro e o segundo filme. Apesar das marcas da idade, a imagem de Michael Douglas pouco difere da de Gordon Gekko. Talvez até porque este homem, detido durante oito anos, trabalhe agora a sensatez e a ponderação, em vez da ganância. O ator também pouco mudou. Admite ter menos papéis do que outrora, mas sente as compensações da estabilidade da vida familiar ao lado de Catherine Zeta-Jones e dos seus dois filhos.

De fato de linho no mesmo tom azul dos olhos e camisa rosa, Michael fala daquilo que sabe. Vive cinema desde criança, observando o pai, Kirk. Tornou-se num produtor de mérito próprio e ganhou um Óscar de Melhor Ator, precisamente pelo papel de Gordon Gekko. Percebe-se que regressar ao papel, ainda por cima quando as circunstâncias tornam essa oportunidade quase uma obrigação, era inevitável.

A produção de Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme começou por ser uma iniciativa do próprio Douglas e do produtor Ed Pressman, que apresentaram o projeto a Oliver Stone em 2006. Seria revisto e reescrito em 2008, já na ressaca do crash bolsista. “Era algo que tinha de ser feito”, admitiu o realizador. Era um pouco como esta entrevista: tinha de ser feita.

Com o filme de 1987, tornou-se num ícone entre os tecnocratas de Wall Street. Considerou perigoso voltar a este tema 23 anos depois, sobretudo numa altura de crise?
Tudo é difícil com o Oliver… (risos). Estou a brincar. Não, ele deu-me um dos melhores papéis da minha vida, que resultou num Óscar. Permite-me regressar agora, 23 anos depois. O que não há para gostar, não é? É verdade que na altura estava em alta e agora acabo de sair da cadeia. As coisas são diferentes.

Teve oportunidade de falar com alguém que tivesse estado preso por crimes económicos?
Tive, sim senhor.

E o que retirou dessa experiência que o ajudou a criar a personagem?
A verdade é que quem está na prisão tem muito tempo para pensar. Falei com insider traders médios, condenados a cinco ou seis anos. Na cadeia há tempo para digerir as coisas. Uma delas é escrever um livro. Foi o que fez o Gekko. Serviu de terapia. E não só.

Não concorda que esse tempo na prisão os pode tornar mais amargos em vez de mais serenos?
Há uma combinação de ambos. A minha personagem reage de forma diferente consoante as pessoas. Por exemplo, o Bretton James (Josh Brolin) tem a ver com essas pessoas em particular.

Teve oportunidade de contribuir com sugestões narrativas para o arco da personagem?
Sim, claro. Mas eu faço sempre sugestões de guião. Sou um estruturalista à maneira antiga. Veja bem: venho da televisão, da série Streets of San Francisco. Era uma série com prólogo, quatro atos e epílogo. Produzi 104 horas. Estrutura é comigo. Por isso dou sempre boas sugestões…

O filme tem também excelentes diálogos…
Sim, mas isso não faço. Isso é mérito do argumento.

O penteado do Gekko em 1987 virou moda. Agora surge diferente, mas com estilo. Foi pensado?
Sim. O Gekko é muito personificado, tem o seu look. Toda a gente gostava deste vilão.

Só que agora não tem nada…
Sim. Quando regressámos percebemos que ele não tinha nada. Não tinha dinheiro, perdeu a filha. Está na posição oposta de quando começou.

Acha que ainda há margem para Gekko ser visto como ícone?
Vão vê-lo agora a outra luz. Pelo menos no final. Eu próprio me perguntava como ele reagiria. Mas, no fim, acho que faz a decisão correta.

Como explica que muitos ainda o vejam como uma espécie de Deus?
Não consigo explicar, a não ser que nessa altura muitos estivessem na escola de gestão. Possivelmente, hoje são os que controlam a Goldman Sachs e todas as companhias que se afundaram. Parece que ninguém aprendeu nada. A ganância não acabou.

Como produtor, acha que Hollywood se tornou um pouco como Wall Street — menos regras e moral?
Há uma separação maior. Com todo o respeito, a Fox teve coragem em fazer este filme. Não sei se muitos estúdios o fariam. É um filme adulto. Hoje, os filmes de estúdio começam nos 60 milhões (sem publicidade). Depois temos os independentes, com 12-15 milhões. E há um enorme vazio no meio.

A receita dos filmes que fez nos 80 e 90, como Instinto Fatal, já não faz sentido?
Não. Acho que a TV por cabo toma conta desse segmento.

Fale-nos da sua atividade caritativa e pelo desarmamento nuclear.
Sou Mensageiro da Paz das Nações Unidas. Somos seis ou sete: Daniel Barenboim, George Clooney, Paulo Coelho, Jane Goodall, Midori Goto, Yo-Yo Ma, Charlize Theron… Cada um tem a sua área. Eu, o desarmamento nuclear. Fui nomeado em 1998. Trabalho para que os EUA cumpram as responsabilidades na ONU. Há acordos com a Rússia que precisam de ratificação. Trabalho também com Israel, Paquistão e Índia, para a não proliferação. Os fora-da-lei são a Coreia do Norte e o Irão. São tempos difíceis e processos lentos.

Oliver Stone é conhecido por testar atores. Essa dinâmica mudou de um filme para o outro?
Nem por isso (risos). Ele também fica nervoso. O primeiro Wall Street foi muito importante. Mas nessa altura já tinha feito Platoon, que ganhou Melhor Filme e Realizador; já tinha feito Expresso da Meia-Noite. Estava mais à frente quando me chamou. Mas é difícil. Tem mentalidade de Vietname, trincheira. Mas há respeito. Agora está mais calmo. Acho que o compreendo melhor. Trabalha todos os aspetos do filme. E apesar de tudo, não havia noite em que não fôssemos beber um copo. Só que no dia seguinte reescrevia diálogos. É um tipo atormentado. Não sei como consegue fazer tudo.

Chegou a investir no mercado bolsista?
Claro. Investi nos mercados tecnológicos em 98, 99. Pelo menos até à crise de 2008, que foi traumática. Hoje entrego os meus investimentos a especialistas e preocupo-me mais com a minha mulher e os meus filhos.

Por falar nisso, em Deauville, em 1998, conheceu Catherine Zeta-Jones. Lembra-se?
Sim, lembro-me. Foi em Deauville que conheci a Catherine. Uma agradável surpresa. Tomámos um copo, jantámos…

Até que ponto esse encontro mudou a sua vida?
Foi em 1998 e agora estamos em 2010. Mais de dez anos, não é? Não tem sido mau. A Catherine é uma ótima esposa e os meus filhos também. Foi uma década boa.

Aos 65 anos, sente menos ofertas de papéis?
Obrigado por me recordar a idade… (risos). Claro, há menos papéis. Nos estúdios, a não ser como vilão. Nos independentes, com a crise, também é difícil.

É verdade que vai fazer Liberace?
Sim, rodamos em 2011. Steve Soderbergh vai realizar. Eu, Matt Damon, Jerry Weintraub a produzir. O guião é de Richard LaGravenese. Vai ser um filme charmoso e cheio de vida.


Publicado na revista GQ

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