‘A Princesa e o Sapo’: Entrevista a Andreas Deja

(Fotos: Divulgação)

Roger Rabbit, Jafar, Scar, Hércules, Lilo, entre muitas outras personagens marcantes, nasceram do lápis de Andreas Deja, o polaco que segue o sonho da Disney há 25 anos. Em Mama Odie, um misto de bruxa desdentada e fada madrinha, criou outra figura que se junta à galeria mais distinta do estúdio. Sempre acompanhado de um caderno de esboços e um lápis, garante que jamais abandonará a animação tradicional e confirma estar a preparar o regresso de Roger Rabbit — mas só depois de nos dar uma nova versão de Tigger em Winnie the Pooh.

O Andreas criou uma nova personagem fascinante. A Mama Odie entra diretamente para a galeria da Disney. O que mais o fascinou nela?
– Foi uma personagem que me cativou de imediato e que me permitiu fazer algo que nunca tinha experimentado. Quando o Ron e o John nos apresentaram as personagens, fiquei logo fascinado pela Mama Odie. Sobretudo por ser velha, conviver com cobras e, ao mesmo tempo, ser uma espécie de fada madrinha, algo que eu nunca tinha feito. Já tinha criado vilões, heróis, raparigas havaianas, mas percebi de imediato que a Odie poderia trazer uma excentricidade interessante. Desde cedo manifestei o meu interesse em dar-lhe vida.

Entre as diversas personagens que criou, notam-se mais vilões do que heróis. Agradam-lhe mais os vilões do ponto de vista criativo?
– Não necessariamente. É verdade que não me importaria de voltar a fazer um vilão, já passou algum tempo desde o último. Mas o que gosto na Disney é precisamente a variedade. Foi bom criar vilões, mas nunca quis ficar com a etiqueta de ser “o tipo que sabe fazer vilões”. Ofereceram-me os vilões de Hércules e O Corcunda de Notre Dame, mas como havia muitos projetos a decorrer, achei melhor recusar para não me repetir. Em Hércules, até pedi para desenhar o protagonista, apesar de não ser a personagem mais divertida, porque queria experimentar algo diferente. Gosto dessa variedade. Mas, agora que fala nisso, sim, seria interessante voltar a fazer um vilão…

No seu entender, existe alguma característica comum às suas personagens, que defina o seu estilo?
– Não sei. Normalmente sigo aquilo que a história pede e deixo-me guiar pela voz e pelo guião. Depois acrescento a minha sensibilidade. Em termos de design, tento sempre encontrar algo que não se pareça com personagens anteriores. No caso da Mama Odie, a comparação mais próxima seria a bruxa Madame Min de A Espada Era a Lei. O conceito pode ser semelhante, mas visualmente são muito diferentes.

Fez algum tipo de pesquisa para dar mais espessura à Mama Odie?
– Sim. Mais uma vez, a voz foi fundamental. Tivemos também esboços dos visual development artists, que iniciam o processo de criação de personagens. Aproveitei elementos desses esboços, mas inspirei-me numa atriz real: a britânica Margaret Rutherford, que interpretou Miss Marple nos filmes da MGM nos anos 60. Quando eu era criança, na Alemanha, vi essa série e adorava-a. Ela já era idosa e tinha o rosto cheio de rugas…

…Mas ainda com dentes.
– (risos) Sim, ainda com dentes. Mas tinha uma forma de falar muito peculiar, que nunca mais encontrei. Fiz alguns esboços por diversão e acabou por resultar.

Ainda se lembra do filme que o fez sonhar com a animação como carreira?
O Livro da Selva. Foi o primeiro filme da Disney que vi, tinha eu onze anos. Foi uma experiência incrível que me deixou obcecado e a pensar como seria possível fazer algo assim. Preocupou os meus pais.

Já desenhava muito quando era miúdo?
– Sim, desde sempre. Criava constantemente personagens animadas. Mas nunca tinha visto um grande filme da Disney até então. O Livro da Selva continua a ser o meu preferido, embora haja obras-primas talvez mais grandiosas, como Pinóquio. O interessante é que todos os animais representavam personalidades humanas, o que dava tempo para desenvolver cada uma delas.

Numa altura em que a Pixar aposta na animação digital em 3D, sente que a animação tradicional continua a ser o seu caminho?
– Sem dúvida. Já experimentei animação digital, fiz alguns testes, mas percebi cedo que não era isso que queria. A técnica é demasiado rígida, enquanto o lápis não tem limites. Um modelo digital é construído de determinada forma e não pode ultrapassar os seus limites. Para mim isso é inaceitável. Quero poder quebrar regras e fazer “batota” sempre que preciso. É verdade que a tecnologia melhora constantemente, mas eu sou animador tradicional. Quero ser sincero comigo próprio e fazer aquilo de que gosto.

Roger Rabbit foi uma das suas primeiras personagens. Acha que poderá regressar?
– É curioso perguntar, porque já está a ser desenvolvida uma nova história.

Como foi encarar, na altura, o desafio de fundir animação manual com imagem real?
– Não foi nada fácil. Sobretudo porque queríamos ser perfeitos. Isso exigiu muitas horas extra, mas valeu a pena.

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