Olivier Père vê na lusofonia parte do futuro do Canal ARTE

Desde a sua criação, no fim dos anos 2000, o Festival do Cinema Francês do Brasil, organizado por Emmanuelle e Christian Boudier, sempre traz ao país, no meio de uma delegação de atrizes, atores e realizadores, alguma figura de perfil político e intelectual para analisar os rumos que a Europa toma a partir de ventos que sopram de Paris, Nice, Toulouse e Marselha. Esta última cidade é o lugar onde nasceu Olivier Père, que passou pela Mostra de São Paulo e visita o Rio para falar, na maratona francófona, sobre os rumos do ARTE. No passado, o termo “canal de TV” bastava para definir esse império mediático de vocação formativa. Hoje, na era do streaming, essa ideia já não chega.

No âmbito da lusofonia, a ligação de Père ao Brasil e a Portugal envolve a figura do realizador Miguel Gomes. O grupo de comunicação franco-alemão acompanhou praticamente todos os seus filmes desde Tabu, apoiou As Mil e Uma Noites e Grand Tour e participa agora na coprodução da nova longa-metragem do cineasta, Selvajaria, filmada no Brasil e atualmente em montagem, com ecos do romance-reportagem Os Sertões, de Euclides da Cunha. É um percurso que ajuda a compreender a vocação internacional do ARTE France Cinéma.

Père teve uma experiência recente com o artesão autoral nipónico Ryūsuke Hamaguchi em França, na produção de Soudain, que está no Festival do Cinema Francês com o título O Sentido da Vida. Esta conversa com o C7nema envolve o lugar da criação cinematográfica para lá das fronteiras nacionais.

Na relação do ARTE com a língua portuguesa, o que o atrai no cinema de Miguel Gomes e como nasceu essa relação de continuidade?

Desenvolvemos uma relação muito fiel com vários realizadores portugueses. No caso de Miguel Gomes, a ARTE France e a ARTE Alemanha acompanharam quase todos os seus filmes desde Tabu, passando por As Mil e Uma Noites e Grand Tour. Temos agora a oportunidade de participar no seu novo projecto, Selvajaria, rodado no Brasil e coproduzido por França, Alemanha, Brasil e Portugal. O filme está em montagem e deverá ser descoberto no próximo ano. É um exemplo muito interessante da dimensão internacional do nosso trabalho. A ARTE tem vocação para dialogar com o mundo inteiro. No cinema, isso significa apoiar realizadores de diferentes países através dos produtores franceses e, por vezes, alemães, que também têm grande interesse pela criação internacional.

O que encontrou em Soudain de mais especial em relação à escrita autoral de Hamaguchi?

É um filme excepcional, que prolonga temas recorrentes na obra de Hamaguchi, como o encontro, o acaso e a linguagem. Foi apresentado na competição de Cannes e teve uma recepção muito positiva nos países onde já estreou.

O ARTE é um canal europeu, mas a sua política de coprodução abrange a Ásia, África, Médio Oriente e América do Sul. Que importância atribui a essa circulação internacional de filmes e de autores?

O ARTE é uma estação europeia, mas, pela sua própria natureza, tem vocação para se interessar pelo mundo inteiro e dialogar com ele. Coproduzimos filmes de diferentes países através de produtores franceses e alemães que têm uma grande curiosidade pelo cinema internacional. Dessa forma, podemos trabalhar com realizadores da Ásia, de África, do Médio Oriente e, evidentemente, da América do Sul. O que mais nos interessa é a circulação da cultura, da arte e da criação. Essa circulação é mundial e existe uma troca muito forte entre os diferentes continentes, entre os países do Norte e do Sul. O ARTE procura ser um parceiro importante nesse tipo de colaboração.

Que lugar pode a língua portuguesa ocupar no universo editorial da ARTE? O português do Brasil e o de Portugal, com as suas identidades culturais próprias, podem ter uma presença mais expressiva na programação e nas parcerias da estação?

Como já se faz notar com a relação com Miguel Gomes, temos muitas colaborações com os dois países, no passado, no presente e, acredito, também no futuro. No Brasil, tivemos a oportunidade de apoiar filmes importantes de Kleber Mendonça Filho, como Bacurau e O Agente Secreto, e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Estamos também envolvidos em novos projectos brasileiros, como o próximo filme de Maya Da-Rin, Chanson de nuit, e a primeira longa-metragem de animação de Wesley Rodrigues, O Reino dos Pássaros.

A ARTE também prepara a sua oferta para públicos que já não consomem televisão da forma tradicional. Como pode uma estação cultural preservar a sua exigência editorial e, ao mesmo tempo, adaptar-se aos hábitos das novas gerações?

É por isso que já não pensamos na ARTE apenas como um canal de televisão. O nosso objectivo é distribuir os programas de forma muito mais ampla: não apenas num ecrã de televisão, mas também nas plataformas digitais, nas redes sociais e no YouTube, onde temos um canal próprio. Sabemos que é mais difícil atrair os jovens para a televisão tradicional. Por isso, precisamos de estar presentes noutros suportes de imagem e, por vezes, adaptar os programas aos formatos dessas plataformas. É uma maneira de chegar a novos públicos. No cinema, adquirimos também direitos para disponibilizar filmes legalmente no YouTube.

Olhando para 2027, que filmes e realizadores poderão marcar a presença da ARTE nos grandes festivais internacionais?

Estamos à espera dos novos filmes de Albert Serra e Bertrand Bonello, entre outros grandes

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