Portugal terá oportunidade de ver, às 21h45 desta quarta-feira, no Cinema São Jorge, na programação do Doclisboa, o que levou o júri do Festival do Rio a conceder o Troféu Redentor de Melhor Longa-Metragem de Não Ficção de 2026 a Elza, de Eryk Rocha. É também dia de o público português entender a catarse que a Itália viveu com esta produção na sua passagem pelo Festival de Roma. O apelo à igualdade que permeia o canto de Elza Soares (1930-2022) traduz a inquietude da sua nação, a poucos dias da votação do segundo turno das eleições presidenciais. Eryk deixa a Europa no sábado, a tempo de votar (no L, como adianta ao C7nema).
Agraciado com uma menção honrosa do Prémio Olhar Brasil, do Correio da Manhã, Elza desvia o seu curso do formato de biografia convencional. Nesta narrativa, o realizador de Cinema Novo (vencedor do L’Oeil d’Or de Cannes, em 2016) recorre a imagens de arquivo para transformar a cantora num corpo coletivo, capaz de reunir diferentes tempos da História da sua pátria. Nesta segunda-feira, é a vez de a Mostra de São Paulo testar a sua capacidade de comover públicos, numa sessão no Espaço Petrobras 1. Em solo paulistano, haverá mais uma sessão, no próximo dia 28, às 16h45, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca. A 25 de fevereiro, o filme entra definitivamente em cartaz nos ecrãs brasileiros.
Nesta entrevista ao C7nema, Eryk fala sobre esse processo de espelhamento, a invenção musical de Elza e a necessidade de alerta perante aquilo que identifica como formas extremas de neoliberalismo.
Num domingo de eleição, às vésperas de uma nova definição política para o Brasil, como a voz de Elza Soares ressoa no presente?
A voz da Elza é uma convocação à democracia, à igualdade social e à justiça. Ela sempre projetou a imagem de um Brasil mais justo, mais igualitário, mais humano e amoroso. O filme nasce nesse momento histórico porque as palavras que Elza canta continuam a tocar em questões cruciais do nosso país. A cada vez que existe o risco de retrocesso, de golpe ou de atraso, a Elza canaliza a voz de muita gente, de uma multidão que nem sempre tem espaço para se expressar.
Você descreve a Elza do filme como um corpo político, mas também como um corpo coletivo. Como esse dispositivo de espelhamento se constrói no teu discurso fílmico?
A Elza é “um corpo Brasil”, um espelhamento das muitas Elzas que existem espalhadas pelo meu país. O documentário a coletiviza no filme, e ela se deixa coletivizar. Isso é um dos traços fundamentais do projeto. Ela representa mulheres, pessoas negras, pessoas LGBTQIPA+, juventudes periféricas e tantas outras experiências que atravessam a sociedade brasileira. É esse movimento que gera uma catarse, uma emoção compartilhada por quem assiste, como eu pude ver em Roma e nas projeções no Rio. Não estamos apenas olhando para uma artista extraordinária: estamos reconhecendo nela uma coletividade.
A montagem estabelece uma conversa com a história do cinema brasileiro, em particular com o filme de culto de 1957 Rio, Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, que é uma espécie de narrativa pré-moderna, pré-Cinema Novo. Como você encontrou nessa memória cinematográfica uma maneira de filmar Elza?
Eu queria trazer uma camada de arquivos que dialogasse com a cinematografia brasileira e latino-americana. Esse espelhamento acontece por meio de atores e atrizes negros, de outras histórias que se encontram com a trajetória da Elza, como Ruth de Souza e Zezé Motta, além de Grande Otelo.
Na circulação internacional, o filme encontra espectadores que nem sequer conheciam Elza Soares. O que essa receção revela sobre a potência de Elza fora do seu país?
Foi muito emocionante perceber que as pessoas compreenderam o coração do filme. Em Roma, havia espectadores que nunca tinham ouvido falar da Elza e que saíram chorando, querendo conhecê-la e ouvir sua música. Isso me tocou muito. O talento dela não pode ser explicado apenas pelo sofrimento que viveu. Ela atravessou adversidades, mas sua genialidade está na capacidade de inventar uma nova linguagem para a música brasileira. O que tento fazer no filme é dar espaço cênico para que essa potência artística e musical possa fluir. Ela é uma grande inventora.
A palavra “luta” atravessa o documentário. Com a eleição brasileira e os sinais de retrocesso que você identifica também na Europa, essa palavra ganha outro peso?
É um filme sobre a luta e sobre o tempo. Existe uma reação a um novo fascismo, a formas extremas de neoliberalismo e aos retrocessos estruturais que atingem as populações. Mas a Elza não é apenas a expressão de uma experiência de sofrimento. É uma artista que transforma tudo isso em invenção, em linguagem, em música. Fiz o filme para o Brasil, para mim e para a Elza. Se as pessoas saírem fortalecidas para continuar lutando e sonhando, para imaginar um futuro diferente, o filme terá cumprido seu papel.

