João Paulo Cuenca leva ‘144 – Apocalipse Não’ à Mostra de São Paulo: “É uma investigação sobre a própria natureza da fé”

Após a estreia mundial no Festival do Rio, onde foi laureado com o Prémio da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira (ACIE), o filme 144 – Apocalipse Não, escrito, realizado e protagonizado pelo escritor e cineasta João Paulo Cuenca, chega à 50.ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em diálogo direto com o lançamento do filme no festival, o artista inaugura, no dia 24 de outubro, a exposição individual 144 – Fim é o nome do que vem antes do começo, na galeria NND|AZECO São Paulo, reunindo cerca de 70 exercícios de expressão artística livre.

O ponto de partida da longa-metragem surgiu após uma publicação satírica no Twitter (atual X) dirigida ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus. O episódio desencadeou uma ofensiva judicial coordenada com 144 ações por danos morais movidas por pastores espalhados por diversas comarcas do país, acompanhada por milhares de ameaças de morte. A frase do autor, inspirada numa célebre paráfrase do Iluminismo francês sobre a separação entre Igreja e Estado, serviu de gatilho num momento crítico de crise sanitária e política.

Em resposta ao cerceamento e ao labirinto jurídico, Cuenca — romancista por trás de livros de sucesso como O Dia Mastroianni e Corpo Presente — empreendeu uma viagem de mais de 10 mil quilómetros pelas cinco regiões do Brasil, em busca de escuta. Em vez de se focar apenas no litígio, a sua nova incursão pelas veredas cinematográficas percorre templos evangélicos, cultos domésticos, procissões, rodeios, festas populares, comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco, camiões de pregação em Altamira e clubes de tiro nas fronteiras do agronegócio.

Ao longo de um percurso colorido e musical, este ensaio de tintas documentais dá voz a uma pluralidade de personagens: desde fiéis que partilham poesias, milagres e relatos de superação pessoal até pescadores afetados pelo assoreamento dos rios ou pela invasão do oceano nas suas casas. Paralelamente, regista-se o périplo de Cuenca ao tentar encarar os autores dos processos nas suas cidades de origem, numa tentativa de diálogo. Essa intenção acaba por se desdobrar numa investigação pessoal do autor sobre a própria natureza da fé nos dias de hoje. Antes, na longa-metragem A Morte de J. P. Cuenca, de 2015, perseguia resquícios da sua identidade num país pré-Golpe.

O escritor João Paulo Cuenca

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, numa disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, Cuenca relembra a influência que o Coppola de Apocalypse Now teve na sua forma de pensar a dramaturgia, nesta conversa com o C7nema. O segundo turno está marcado para 25 de outubro. O seu 144 passa neste sábado, 24 de outubro, às 21h40, no Espaço Petrobras 1. Uma nova sessão está agendada para 27 de outubro, às 19h30, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca – Sala 3.

De que maneira o Apocalypse Now de Coppola, com The Doors a tocar nas rotações de uma hélice de ventilador, serve como alegoria, para além do título, à sua dramaturgia de investigação?

Acredito que ambos os filmes tenham algo de apoteótico e musical em seus respectivos apocalipses, majestáticos, até. Mas no 144, as hélices, que no Copolla são de ventilador ou helicóptero, em câmera lenta, aqui giram no mar avançando em Atafona, na represa engolindo florestas em Altamira, na foz assoreada do Rio São Francisco. Ou nas engrenagens de um robô de LED numa festa de debutantes gospel. Em certo ponto, o 144 traz também uma estrutura de viagem rio acima. Mas, se no filme do Coppola o rio leva a um homem-sombra, que se coloca no lugar de um deus e acaba morto num ritual de sacrifício, no meu o road movie leva a uma compreensão que ultrapassa o narrador: uma investigação sobre a própria natureza da fé, a minha e a do outro. Meu narrador também narra a viagem, como o Willard de Martin Sheen do Apocalypse Now, mas por outro lado entra numa pira mais metafísica, mais parecida com a de Kurtz (Marlon Brando), um cara que se vê no meio de um lugar, de uma fé, que não compreende totalmente, mas quer mergulhar nela. Como um wrongman místico, num noir sobrenatural. Claro que nossos mergulhos e fins, como personagens, são bastante diferentes. Mas gosto da ideia de travessia para dentro e para fora ao mesmo tempo.

Seu corpo é personagem de seus dois filmes. Um filme de desaparição e um filme de afirmação. Mas todo e qualquer corpo fílmico que carrega um pretérito como o teu – um dos mais importantes escritores da língua portuguesa no século XX – arrasta consigo uma persona. Que persona é essa que você investiga em cena? Ela é consciente?

Essa persona é autoconsciente, mas eu gosto que seja uma consciência que se desenvolva ao longo do processo de criação do filme. Quer dizer, ela não está pronta. Eu nunca sei bem como a coisa acaba. Não sabia como meu primeiro filme acabaria quando comecei e, nesse meu novo trabalho, é a mesma coisa. Os livros também costumam ser assim. Alguma coisa se descobre no processo, há uma transmutação e o filme registra isso. E descobrir com o próprio corpo, usando-o na tela, é um privilégio que precisamos aproveitar enquanto estamos vivos. Porque há coisas que só se descobrem mesmo no corpo. Falando mais detalhadamente das longas, se a Morte me parece registrar a calcinação do eu no processo alquímico do nigredo, a queima do que restava de identidade, o 144 é a dissolução dessa cinza na fé do outro. Assim, ele tem algo dos outros processos mágicos de albedo, citrinitas e rubedo: dissolver, discernir o que é importante, unir os opostos, se enxergar no outro. Tem um encontro aqui entre o que eu era, o que o Brasil me provocou a olhar, o que eu estou me tornando, a sua fé, a fé deles, a minha, a nossa.

De que forma a escrita dos teus livros levou-te ao cinema? De que forma o cinema te leva à escrita de novos livros?

Depois do cinema, toda literatura será influenciada pelo cinema, não tem jeito. Ainda que o cinema, como forma, seja um bebê recém-nascido perto da literatura, ele vai influenciar inclusive os livros que foram escritos antes da sua criação. É uma retroalimentação violenta. Um pouco como um liquidificador, que eu gosto de manter aberto enquanto ligado.

A geração a que você pertence vai “cinquentar” logo, logo. De que forma esses exercícios de maturidade que marcam tua expressão fílmica dialogam com o teu processo físico de avançar nos anos, de envelhecer? O enfant terrible Cuenca está preparado para virar o velho Cuenca?

Eu espero que sim. Quer dizer, vou trabalhar duro para que meu terceiro longa demore menos tempo para sair. E, para isso, eu preciso fazer concessões, inclusive a mim mesmo. Ser generoso com os outros e comigo. Entender que isso é a mesma coisa talvez seja um jeito de envelhecer.

Onde Portugal se instaura no tempo atual, no teu passivo formativo, no teu porvir?

Esse filme não existiria sem o Luís Urbano e a O Som e a Fúria. O Felipe Bragança, nosso produtor associado, fez a ponte entre o projeto e o Luís, mas eu já conhecia bem os filmes dele. Sempre vi ali um cinema muito vivo, criativo, refrescante, um embate musical entre tradição, forma e ruptura. Então é um sonho ter esse filme nessa casa, e também com as ideias criativas do Sandro Aguilar junto no projeto. Um sonho, mesmo. E não consigo imaginar outra produtora que tivesse comprado esse projeto do zero, um filme rodado em segredo, na guerrilha, cujo processo de filmagem, escritura e finalização se desse em quatro longos anos, arriscando recursos. Produtores de cinema assim já não se veem muitos.

Como você avalia o estado atual da literatura no Brasil e onde se encaixa nela?

Muito diversificada, embora com o mesmo problema de sempre: faltam leitores. E não penso onde me encaixo nela, do contrário não escrevo. E, se escrevo, não publico. Mas, sim, há um novo livro a caminho e deve sair na metade do ano que vem. Nele eu uso as armas da ficção literária para destrinchar o peixe da fé num outro registro, entrando na cabeça de personagens que nunca imaginei habitar. Estou animadíssimo com o livro, é muito diferente de tudo o que eu já escrevi, ao mesmo tempo em que estou ali o tempo inteiro.

O ofício da crónica e o ofício documental (se) conversam onde?

No registro de algo que se dá “ao rés do chão”, como diria o (teórico) Antônio Cândido, e que não tem registro fora da crônica e do documentário. Vida, pura vida, improviso e potência. Acredito que o futuro do cinema deva caminhar para o hibridismo entre ficção e documental, e também acho que a literatura do Brasil deveria recuperar o fôlego que seus cronistas históricos tinham em ganhar as ruas. É muita literatura e cinema de apartamento, ninguém aguenta mais.

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