Bahar (interpretada por Mehrnoosh Satari), uma realizadora iraniana, decide colocar os atores masculinos do filme que está a rodar perante algumas das restrições habitualmente impostas às mulheres, obrigando-os a usar véus e a experimentar, ainda que simbolicamente, códigos de vestuário e comportamento que nunca lhes foram dirigidos. A partir deste dispositivo provocante, a cineasta iraniana Ghasideh Golmakani, na sua primeira longa-metragem, constrói uma comédia negra sobre representação e poder, mostrando como determinadas imposições foram de tal forma normalizadas que sobrevivem até dentro de um cinema que se apresenta como crítico das estruturas da sociedade iraniana.
Estreado no Festival de Toronto, Head to Head surge assim na continuidade de uma cineasta que, em curtas como Online Shopping (2017), Limbo (2017) e Spring in Autumn (2021), já tinha abordado diferentes formas de violência e controlo social da mulher. Mas este é também um filme sobre o próprio cinema, dialogando conscientemente com a tradição metacinematográfica iraniana e transformando o plateau num espaço onde as relações de poder são constantemente questionadas e invertidas.
Numa conversa com o C7nema, via Zoom, a partir de Toronto, Golmakani fala-nos da origem do projeto, da censura e da autocensura no Irão, da dificuldade de quebrar ciclos de poder, de uma produção totalmente autofinanciada e concretizada graças à solidariedade da equipa. E nela sai claramente a vontade de usar o humor para desmontar as estruturas profundamente enraizadas no seu país.

Existe um momento, quase no final, em que a realizadora do filme dentro do filme grita muito. Sente que este filme é também um grito seu? Quanto de si existe na personagem de Bahar?
Foi um grande desafio encontrar a atriz certa para o filme. Vi muitas atrizes e nunca ficava convencida. A certa altura, começaram a dizer-me: “Representa tu própria, porque aquela personagem és tu. Não precisas de procurar outra atriz.” E eu respondia: “Não, não posso fazer isso, porque é a minha primeira longa-metragem e tenho de me concentrar na realização.” Além disso, também estava a produzir o filme. Mas, na realidade, a personagem é muito, muito próxima das minhas convicções e também da maneira como sou no plateau. Sou muito séria. Alguém chegou a perguntar-me: “Como é que uma mulher pode ser tão séria?” E eu respondi: “Pode, porque eu sou.” Portanto, sim.
Falando da ideia do filme: colocar homens a usar véus e a interpretar papéis femininos. Já tinha abordado algumas destas questões nas suas curtas-metragens, mas aqui coloca-as no centro do filme e obriga os homens a experimentar, ainda que apenas um pouco, aquilo que as mulheres sentem no seu dia a dia. Como surgiu esta ideia e como se transformou num argumento e depois num filme?
Tive a ideia enquanto escrevia o meu doutoramento. Fiz um doutoramento centrado nas realizadoras iranianas antes e depois da Revolução. E percebi que, nos nossos filmes, as mulheres são constantemente objetificadas. Somos tratadas como objetos, com véu ou sem véu. Antes da Revolução, apareciam com grandes decotes e minissaias; agora aparecem com isto [o véu]. Ao mesmo tempo, via momentos extremamente misóginos, com homens a rirem-se das mulheres e todas essas coisas. E perguntava-me: “Como é que eles se atrevem a fazer isto? Como viveriam se fossem nós?”
Comecei então a pensar como seria colocá-los, nem que fosse só um pouco, na situação pela qual nós passamos. A primeira imagem que me ocorreu foi precisamente colocar-lhes um véu. Porque é uma coisa muito óbvia, muito clara. E não apenas para os atores, mas também para o público. É uma espécie de convite aos atores homens e, de forma mais geral, aos homens que trabalham no cinema, para se colocarem um pouco no lugar das mulheres antes de gozarem com elas.
E há também o próprio ato de filmar. Existe uma longa tradição no cinema iraniano de transformar o ato de filmar em narrativa. Jafar Panahi, Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf… são alguns exemplos. Para além de precisar dessa estrutura para desenvolver a história, estava também a dialogar conscientemente com essa tradição do cinema iraniano?
Sim, sem dúvida. Também vemos no meu filme algumas referências a outros filmes e estou, de certa forma, a apontar para outros cineastas da indústria iraniana. Portanto, isso está na raiz do filme. Mas há também outra razão para ter escolhido este contexto: é uma realidade que conheço muito bem. Não gosto de fazer filmes sobre assuntos que não conheço, porque sinto que se tornam superficiais. Mas uma rodagem, estar num plateau, aquilo que acontece durante uma filmagem, é algo que conheço perfeitamente. Por isso, posso brincar com esse mundo, posso fazer humor a partir dele e desenvolver coisas em seu torno.
E, a determinada altura, saímos do plateau e entramos numa carrinha, que é também uma imagem que associamos muito ao cinema iraniano.
Exatamente. Exatamente. É uma continuidade.
Queria perguntar-lhe também sobre a censura. Temos no filme uma censura que vem do Estado, através da polícia e da forma como as mulheres são observadas e controladas. Mas, ao mesmo tempo, existe a autocensura. A autocensura que alguns cineastas podem exercer porque têm medo de criar problemas para si próprios. Como vê o equilibrio dessas duas formas de censura?
Como é que equilibrei isso? Não sei. Acho que surgiu de forma bastante natural, para ser sincera, porque somos educados assim. Nascemos dentro desse sistema e aprendemos estas coisas desde muito cedo. Por exemplo, há aquelas cenas em que existe um véu e não podemos mostrar uma mulher a mudar de véu porque isso significaria vermos o cabelo dela. Já fizemos isso tantas vezes no cinema que, para nós, se tornou óbvio. É como se já estivesse no nosso sangue. Por isso, para ser sincera, não foi muito complicado.
E em relação ao poder? O filme fala do poder dos homens sobre as mulheres, através de todas estas restrições e regras impostas. Mas, ao mesmo tempo, temos uma realizadora que exerce o seu próprio poder sobre os atores.
Para mim, isso tem a ver com a forma como, às vezes, criticamos alguma coisa e, simultaneamente, acabamos por reproduzi-la. É como as crianças que são espancadas pelos pais. Claro que odeiam ser espancadas, mas, mais tarde, podem acabar por procurar parceiros que também as maltratam, porque foi assim que cresceram. No final do filme, queria dizer que, a determinada altura, este jogo de poder tem de acabar. Alguém tem de quebrar este círculo tóxico. É por isso que a protagonista faz aquilo que faz no final.

Estamos habituados a ver muitos filmes iranianos nos festivais internacionais. Mas esses filmes continuam a ser exibidos no Irão? Tem alguma expectativa de que o seu filme possa ser visto lá?
Ultimamente, muitos destes filmes acabam por aparecer online. Tornam-se virais no YouTube ou, a determinada altura, aparecem em canais de Telegram. Não sabemos exatamente como. Acho que provavelmente vai acontecer o mesmo com o meu filme.
Mas nunca são exibidos de uma forma oficial, numa sala de cinema?
Não, não. É impossível. Não oficialmente. Mas, passados alguns meses, os filmes acabam sempre por aparecer. Não sei exatamente como, mas aparecem.
Filmou o filme no Irão?
Sim.
Foi fácil fazê-lo? Porque há toda a questão das autorizações e de outras limitações.
Fazer filmes nunca é fácil, seja onde for. No Irão é complicado por causa das autorizações e de todas essas questões. Mas, ao mesmo tempo, também pode ser muito fácil porque as pessoas ajudam imenso. Trabalham mais de dez horas por dia. Trazem os próprios carros. Quando percebem que não temos dinheiro, não pedem muito. Na verdade, diria que o meu filme foi feito de uma forma relativamente fácil porque toda a gente ajudou. Acho que nunca teria conseguido fazê-lo na Europa porque não tenho lá tantas ligações e não existe necessariamente este tipo de solidariedade, esta disponibilidade para trabalhar gratuitamente, por exemplo. Eu não tive qualquer financiamento para o filme. Foi completamente autofinanciado. E, na verdade, acabou por ser relativamente rápido e fácil.
A sério? Mas houve algum desafio particular durante a produção?
Financeiro, sem dúvida. Porque precisamos de dinheiro. Eu não tive financiamento nenhum. Zero. Foi completamente autofinanciado. E praticamente tudo nos foi emprestado. Por exemplo, a vivenda foi-nos emprestada por um vizinho. A câmara foi emprestada por outra pessoa. Toda a gente nos dava coisas. Os atores apareciam nos próprios carros. Portanto, o maior desafio foi financeiro, mais do que qualquer outra coisa.
Como trabalha os diálogos? Escreve tudo de forma muito precisa no argumento ou conversa com os atores e deixa que tragam alguma coisa deles próprios para as cenas?
Estabeleço sempre uma estrutura. Quer dizer, escrevo o argumento completo, incluindo os diálogos. Mas depois ensaiamos muito com os atores e também lhes dou bastante liberdade para improvisarem. Quando vejo que dizem qualquer coisa que funciona melhor, que soa muito mais divertida ou que melhora a cena, digo: “Vamos ficar com aquilo que acabaste de fazer.” Estou muito aberta a alterações quando elas ajudam o filme. Mas ensaiamos realmente muito antes de chegar ao plateau. Por isso, quando começamos a filmar, já sabemos mais ou menos aquilo que queremos fazer.
E foi fácil encontrar atores dispostos a fazer este filme?
Sim, foi fácil. Estavam muito interessados em participar num filme diferente de outros filmes iranianos. A maior parte dos filmes iranianos são dramas sociais, muito tristes e coisas desse género. Não temos muitas comédias negras. Portanto, para eles era simultaneamente desafiante e interessante.
Fiquei muito contente. O próprio processo de casting foi muito divertido. Quando os homens apareciam, a primeira coisa que fazia era dar-lhes um lenço e dizer: “Põe isto.” Era muito interessante observar como lidavam com aquilo e como reagiam. Na verdade, o próprio casting podia dar um filme.
Talvez possa fazer uma curta-metragem sobre isso.
Sim, talvez. Um making of.
Que importância tem para si estrear o filme no Festival de Toronto? E qual foi a sua reação à forma como o público recebeu o filme?
Estreámos o filme ontem e foi realmente ótimo. O público riu-se muito. Fiquei muito feliz porque, com a comédia, é sempre uma coisa muito delicada. Nunca sabemos se o humor vai resultar, se vai chegar ao público. Muitas pessoas vieram falar comigo depois da sessão e deram-me os parabéns. Portanto, fiquei muito feliz. Alguém me perguntou: “O que espera que levemos connosco quando sairmos da sala? Que impressão gostaria que ficasse?” E eu respondi que fiz este filme como um convite às pessoas.
Hoje em dia não temos muito tempo para ler, mas julgamo-nos constantemente uns aos outros. Julgamos as outras pessoas, a religião delas, a nacionalidade, seja o que for. Gostaria que as pessoas tentassem colocar-se no lugar da outra pessoa durante apenas dez segundos antes de a julgarem. Talvez assim ficássemos um pouco mais calmos. E talvez, dessa forma, conseguíssemos chegar a um mundo um pouco mais harmonioso. Porque, neste momento, tudo está realmente muito caótico e triste.
Como vê atualmente a indústria cinematográfica iraniana e os filmes que chegam do Irão aos festivais internacionais? O seu filme também contém algumas críticas ao cinema iraniano contemporâneo. Até que ponto é também uma crítica a esses cineastas, muitos deles independentes, que hoje chegam aos festivais a partir do Irão?
Bem, são meus colegas. Não quero criticá-los demasiado. [risos] Mas acho que somos demasiado duros connosco próprios. Acho que os iranianos são pessoas muito divertidas. Quero dizer, existem muitos problemas no nosso país, mas também temos muitas coisas bonitas. E seria bom partilhá-las. Como disse, atualmente a vida é muito difícil em todo o lado, independentemente do lugar onde vivemos. Acho que seria interessante fazermos mais filmes divertidos, filmes que ajudassem as pessoas a relaxar um pouco, em vez de lhes acrescentarmos ainda mais stress. Esse seria o meu desejo. Gostaria que os meus colegas iranianos tentassem talvez mostrar um lado um pouco mais divertido do Irão.
Já tem um novo projeto? Está a trabalhar noutra comédia negra?
Sim. Tenho um projeto divertido que se passa em Hamburgo, sobre um casal iraniano-alemão. É sobre um choque de culturas, mas volta a ser uma comédia negra. Ea protagonista volta a ser uma mulher.

