Na véspera de ser anunciada a premiação de Gramado, só um filme, entre os seis concorrentes aos troféus Kikito, atravessou toda a competição com estatuto de unanimidade, na média do gosto da crítica quando o assunto é originalidade dramatúrgica: Leite Em Pó. A sua excelência é fruto das investigações, a um só tempo existenciais e sociais, de Carlos Segundo, realizador com origem em São Paulo, que cresceu em Uberlândia, em Minas Gerais, mas há nove anos vive (e leciona) em Natal, no Rio Grande do Norte, um estado pouco contemplado com espaço no ecrã em terras brasileiras. O seu cinema veio para mudar essa realidade, sobretudo após o sucesso consecutivo das suas curtas-metragens Sideral, indicada à Palma de Ouro em 2021, e Big Bang, premiada em Locarno em 2022.
Em Leite Em Pó, com sequências de pessoas a cheirar cinzas humanas e outras estranhezas, o 54.º Festival de Gramado encontrou o argumento mais inteligente — numa aversão radical a fórmulas — da sua competição oficial de longas-metragens de ficção. Com ares de Wim Wenders, qual um Paris, Texas potiguar (o gentílico referente ao Rio Grande do Norte), a longa-metragem cresce numa progressão aritmética de mistério. É uma triagem de solidões em interseções. No filme de Segundo, Vinícius de Oliveira vive um homem de 40 anos, criado pela avó e fechado num universo particular dominado pelo rock, que precisa de sair da zona de conforto à força de uma tragédia familiar.
Como surgiu a estrutura narrativa de Leite Em Pó? Rafael Copel é coautor do argumento. Como foi essa parceria na conceção e na escrita?
Esse argumento surge a partir do movimento das próprias curtas-metragens que eu já estava a fazer. O universo feminino sempre fez parte da minha vida. Fui criado distante do meu pai, não conheci os meus avós e a referência masculina era muito distante. Cresci com a minha mãe, as minhas irmãs, as minhas tias, então era um universo muito feminino ao meu redor. Isso sempre me interessou como tema e também como elemento das estruturas narrativas. Quando fui fazer a longa-metragem, queria falar de uma forma muito mais direta sobre o universo masculino, mas atravessado por esses encontros com o feminino, que é também como eu fui forjado. Basicamente, a história surge desse movimento de encontrar a personagem. E é muito interessante porque o meu irmão era polícia. Quando voltei para São Paulo, ele fazia uns trabalhos a vender álbuns de formatura, porque o sogro dele tinha uma loja de fotografia. Aquilo pareceu-me incrível: em casa, ele era polícia e, ao mesmo tempo, vendia álbuns de formatura. Era uma coisa meio surreal. Esse foi o motor da primeira personagem, que depois se transformou neste roqueiro. Quando estou em Natal, isso desdobra-se. Essa estrutura vai sendo alinhavada e, a partir daí, começo a construir, através dos álbuns de formatura, essa gama de encontros que vai culminar na jornada e na transformação da personagem. Existe também um tema que me persegue, que é a força da ausência.
Como se manifesta essa questão?
Coloco esse movimento no início, com a figura da avó: crio um problema a partir da ausência dela e ele precisa de resolver essa equação. Essas são algumas das estruturas simbólicas e narrativas que vão, passo a passo, construindo o filme.
Rodou Leite Em Pó em digital. Há algo curioso no filme: trata de um mundo absolutamente digital, mas está cheio de signos ligados ao universo analógico — fotografias, álbuns, objetos, como o urso de peluche. Qual é o lugar do analógico numa história que transita entre a memória do que se perdeu e o futuro que está a ser construído?
Existem dois eixos no filme que pensámos também na direção de arte e na fotografia: como construir o passado e o contemporâneo. O passado está na casa, nos elementos que existem ali, mesmo com essas fotografias e os álbuns de formatura a transitar. Existem esses dois universos: o tempo depositado na casa e o encontro com o contemporâneo. Eu tentei, a partir desses elementos, conectar a personagem com o passado através da música, do urso, do casaco, da poeira, dos álbuns de formatura. A imagem também se vai desdobrando dentro do próprio filme, porque existe a imagem dele como artista, a imagem do álbum de formatura, a imagem que aparece no outdoor, quando ele se vê. Existem esses jogos de imagem que se rasgam. Acho que era uma tentativa de trazer a materialidade para um universo cada vez mais digital.

Vive em Natal desde 2017 e acabou por se tornar uma voz importante de um núcleo cinematográfico potiguar. Onde entra o professor na equação criativa do seu cinema?
Acho que é fundamental essa natureza de docência. Ser professor ajudou-me na pesquisa, e essa pesquisa é pessoal, estética e narrativa. Ao mesmo tempo, conforme fazemos cinema, muitas vezes não paramos para pensar sobre ele. É intuitivo. Mas, quando se vai ensinar, é preciso estruturar um pensamento. Essa necessidade de estruturar o pensamento acaba por fazer parte da própria maneira de pensar o cinema e ajudou-me a compreender um pouco melhor o que estava a fazer. Então acho que foi fundamental esse encontro.
Dá aulas de quê?
De direção e direção de fotografia, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN.
E está lá desde quando?
Desde 2017. Cheguei e não saí mais.
Os seus filmes feitos desde então podem ser chamados de potiguares?
Potiguares, não exatamente, porque Big Bang foi filmado em Minas. A minha produtora é de Minas Gerais.
É de Uberlândia?
Sou de São Paulo, mas morei muito tempo em Uberlândia (MG). Existe uma relação muito grande com a cidade.
Então existe também esse não território, essa circulação por diferentes lugares, que acaba por dar liberdade ao seu cinema?
Sim. Já morei também em Inglaterra, passei um tempo em França e, recentemente, em Portugal. Todos esses encontros espaciais e geográficos, de certa forma, ajudam-me nesta profissão criativa.
Em Gramado, Leite Em Pó foi recebido como um dos filmes mais originais da competição. É uma obra que parece fugir deliberadamente de qualquer fórmula, construindo uma narrativa em progressão, em que um caminho se abre a outro, sem nunca se fechar numa resposta. Como é evitar as formas mais convencionais de fazer cinema no Brasil hoje?
Acho que me fui forjando como cineasta dessa forma. Não parei para pensar: “Vou fazer um cinema que não é formulaico”. Acho que existe um desejo meu, talvez esteja na minha essência, de trabalhar com um pensamento muito mais em linha de fuga, que não esteja dentro de um trilho que vai de A para B. Tento exercitá-lo no cinema. Foi muito bom trazer o filme para cá e vê-lo acontecer, receber esses retornos. Tenho Fendas, que é uma curta-metragem mais experimental, mas esta é a primeira longa-metragem de ficção dentro dessa perspetiva. Para mim, era importante que esta primeira longa-metragem apresentasse o meu caminho como cineasta. Às vezes, é mais fácil fazer um filme, entre aspas, que está numa linha mais clássica para agradar ao público, imaginando que se vai agradá-lo, e depois acabar preso nisso. Estou muito feliz porque acho que este é o caminho que quero trilhar enquanto cineasta.

