Allan Deberton voa: “Sem política pública, um filme como Feito Pipa não acontece”

(Fotos: Divulgação)

Feito Pipa (2024) nasceu no seio de uma comitiva de 12 filmes e uma série com o Brasil no seu ADN que tiveram a 76.ª Berlinale como montra, no coração de uma Alemanha hoje atravessada por múltiplas contradições. Temas como paternidade, identidade queer e demência, observados sob um prisma infantojuvenil, levaram a longa-metragem do cearense Allan Deberton a estrear-se na Generation, a secção do Festival de Berlim dedicada às inquietações da infância e da adolescência. Saiu de lá, no sábado passado, com o Urso de Cristal, distinção atribuída pelo júri da secção.

Sustentado pelo percurso anterior de Pacarrete (2019), distinguido em várias mostras competitivas, Allan reuniu meios — e contou com o apoio de um nome de grande projecção como Lázaro Ramos — para filmar a história de Gugu, um rapaz de 11 anos. Yuri Gomes interpreta a personagem. No argumento, é um talentoso jogador de futebol, órfão de mãe, que vive com a avó carinhosa, Dilma (Teca Pereira). Quando ela começa a dar sinais de demência, possivelmente associados à doença de Alzheimer, Gugu vê-se obrigado a ir viver com o pai, Batista (papel de Lázaro Ramos), um homem pouco tolerante.

Lázaro Ramos com o miúdo Yuri Gomes em “Feito Pipa”, filme
vencedor do Urso de Cristal – Crédito: Jamille Queiroz

A entrevista que se segue traça o percurso da produção cearense que formou Allan Deberton, actualmente envolvido num novo projeto.

De onde é oriundo no Ceará, onde estabeleceu o seu núcleo de produção e que cenário criativo encontra lá?

Nasci em Russas, no interior do Ceará, onde filmei a minha primeira curta-metragem, Doce de Coco, e também a minha primeira longa-metragem, Pacarrete (2019). Formei-me em Cinema na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, numa altura em que ainda não existia um curso superior de Cinema no meu estado. Felizmente, hoje o Ceará conta com várias formações na área, incluindo cursos de qualidade como os do Porto Iracema e da Vila das Artes. Vivo em Fortaleza há vários anos, onde está sediada a minha produtora. Existe ali um meio criativo muito dinâmico, com profissionais extremamente talentosos, uma geração inquieta e um forte sentido de coletividade. E o interior do Ceará, com as suas paisagens, memórias e modos de vida, continua a ser uma fonte profunda de imaginação para mim.

De que forma as políticas de apoio no Ceará foram determinantes para Feito Pipa?

Foram determinantes de forma concreta e estrutural. Sem políticas públicas de apoio, um filme como Feito Pipa (2024) simplesmente não existiria. O Cinema exige tempo, investigação, desenvolvimento e equipas qualificadas, o que não se sustenta sem investimento. No Ceará, há uma compreensão relevante de que a cultura é também formação, economia e identidade. O apoio não apenas viabiliza filmes; cria continuidade. E é essa continuidade que permite o amadurecimento da linguagem e o fortalecimento do sector. No nosso caso, contámos ainda com outras fontes de financiamento, incluindo patrocínios através de mecanismos de apoio direto e indireto, por via de concursos artísticos. São políticas que devem manter regularidade, garantindo previsibilidade.

De que modo as narrativas de orientação queer contribuem para desenhar um novo Brasil?

Ajudam a revelar um Brasil mais honesto — um país que já existe, mas que durante muito tempo foi empurrado para fora do enquadramento. Quando estas narrativas conquistam espaço, produzem um impacto político e emocional muito forte. Não falam apenas para pessoas queer; falam sobre convivência e sobre o direito de existir e de ser respeitado.

De que forma a presença de um nome como Lázaro Ramos altera o estatuto de um filme como Feito Pipa no mercado?

Lázaro altera o estatuto de um filme em várias dimensões. Em primeiro lugar, pela sua grandeza artística. É um actor de enorme talento, inteligência e presença. Em segundo, pela credibilidade que construiu ao longo de muitos anos. Quando lhe fiz o convite e lhe expliquei a personagem, ele aceitou, e eu sabia que poderia contar com o melhor dele para trazer a profundidade e complexidade que pretendíamos. Ao longo de todo o processo, foi um verdadeiro aliado: disponível, generoso com toda a equipa e muito concentrado no trabalho.

Tem já uma nova longa-metragem em desenvolvimento, com Vinícius Oliveira e Hermila Guedes no elenco. Como se chama e em que fase se encontra?

A Adoção deverá estrear em 2027 e conta uma história inspirada em sentimentos reais, muitos deles ligados a uma experiência pessoal com o tema. O projeto encontra-se atualmente em desenvolvimento.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/gh7x

Últimas