Geneviève Dulude-de Celles e a sua viagem entre arte e memória em “Nina Roza”

(Fotos: Divulgação)

Se existem temas que a canadiana Geneviève Dulude-de Celles, sediada em Montreal, tem perseguido ao longo do seu percurso no cinema são os da identidade e da pertença. A curta-metragem La coupe (2014) venceu o prémio de Melhor Curta Internacional em Sundance, colocando-a de imediato no radar internacional. Seguiram-se os documentários Bienvenue à F.L. (2015) e Les jours (2023), com a sua estreia na ficção, Une colonie (2018), exibida na secção Generation da Berlinale, onde conquistou Urso de Cristal de Melhor Filme.

Geneviève Dulude-de Celles

Essa obra confirmou-a como uma voz consistente no retrato da adolescência feminina e, agora, a cineasta volta a deixar marca no festival — desta vez com o Urso de Prata de Melhor Argumento — graças a Nina Roza (2026), filme onde cruza migração, mundo da arte e infância prodigiosa.

O filme acompanha Mihail, que deixou a Bulgária nos anos 1990. Longe da terra natal, ele construiu carreira como especialista em arte contemporânea, mas é agora chamado a regressar ao seu país de origem para autenticar as pinturas de Nina, uma menina de oito anos, residente numa aldeia búlgara, cujas obras se tornaram virais.

“Gosto de histórias com várias camadas”, disse a realizadora ao C7nema durante o Festival de Berlim, sublinhando que era essencial mostrar uma personagem migrante para lá do rótulo da migração, explorando também a dimensão quase fantasmática da sensação de que fica para trás uma versão alternativa de nós próprios. “O Mihail está fora há 28 anos, tem um excelente emprego, está bem estabelecido no seu meio profissional. Achei interessante desafiar essa parte da identidade: um consultor de arte habituado a trabalhar com artistas consagradas, que têm um discurso sobre o seu trabalho, e de repente confronta-se com uma criança pintora e tem de falar por ela.”

A missão profissional cruza-se assim com um confronto pessoal. Mihail é visto como estrangeiro na própria terra, enquanto lida com memórias, ressentimentos familiares e a distância cultural da filha, Roza, que permanece no Canadá.

Li sobre casos de crianças prodígio nas últimas décadas. É preciso um consultor para autenticar que é mesmo a criança a artista, que não há uma adulta a interferir. Esses consultores tornam-se quase detetives. Achei interessante ter um consultor de arte nessa posição”, explica Geneviève, que aprofunda sobre a sua relação com questões migratórias e de identidade: “Quando era jovem vivia numa zona rural do Quebeque e os meus pais eram vistos como outsiders porque vinham da cidade. Mesmo sendo branca e falando a mesma língua, era vista como diferente. Isso cria um sentimento estranho de não pertença. Mais tarde, nos meus vinte e poucos anos, vivi seis meses na Europa de Leste e trabalhei com romenas que iam emigrar para o Canadá. Fiquei mais sensível à jornada delas, aos sacrifícios e à esperança. No Canadá tenho muitas amigas migrantes de primeira e segunda geração. Uma amiga próxima, cujo pai é uruguaio, nunca voltou ao seu país. Deixou lá a mãe e a irmã. Achei intrigante. Às vezes a negação ajuda a sobreviver a feridas. Pensei no que aconteceria se fosse obrigada a regressar. Foi assim que a história começou”.

Nina Roza

No caso de Nina, tudo se desencadeia com um vídeo viral. “A galerista vê talento, quer ajudar, quer garantir uma boa escola de arte, ajudar a mãe a emigrar para Itália. Uma coisa leva à outra. No meio disso, Nina só quer pintar para si.”

Quanto à estética de Nina Roza, Dulude-de Celles afirma que quis afastar-se do hiper-realismo dos seus trabalhos anteriores, o que a levou a outro estilo. “A jornada de Mihail está cheia de memória, emoção, melancolia. Não é apenas realidade dura, é uma visão subjetiva. Pensei muito em Fellini, em Bertolucci, em simbolismo forte.” As localizações na Bulgária foram escolhidas nesse sentido. “O edifício industrial onde acontece a sessão fotográfica mistura vestígios do comunismo com tradições búlgaras. A arquitetura fala da história do país.”

Quanto ao futuro, a argumentista e realizadora confirma que tem um novo projeto em desenvolvimento, mas que será coescrito e codirigido: “Terá elementos de género e será filmado nas Caraíbas, sendo uma colaboração onde haverá também uma questão de identidade.”

Link curto do artigo: https://c7nema.net/pwgx

Últimas