Natural de Almería, Espanha, Ian de la Rosa tem construído o seu percurso entre o cinema e a televisão, chegando a Ivan & Hadoum, vencedor do Teddy da Berlinale, com uma longa-metragem que cruza amor, território e identidade. Filmado integralmente em Almería, um local frequentemente usado pelo cinema para representar outras paisagens, mas raramente filmado como ele próprio, o filme acompanha a relação entre dois jovens cujas vidas são atravessadas por questões de migração, trabalho agrícola, pertença cultural e identidade sexual.
Ainda que no seu tom ecoe o drama social, Ivan & Hadoum afirma-se acima de tudo como uma história de amor construída a partir de planos longos e de uma forte ligação entre intérpretes e território.
Em conversa com o C7nema na Berlinale, Ian de la Rosa falou sobre a representação de Almería, o processo de trabalho com intérpretes não profissionais, o equilíbrio entre política e intimidade e a convicção de que o amor nunca é uma batalha perdida num mundo polarizado.
Migração, trabalho agrícola, identidade. O filme carrega em si temáticas bastante completas e interconectadas. Como equilibraste todos esses temas quando trabalhavas no guião de Ivan & Hadoum?
Foi difícil. Durante o processo de escrita do guião, tínhamos claro que queríamos manter o foco na história de amor. Isso era o mais importante. Todas as outras camadas que mencionas tinham de estar por baixo. Evidentemente, eram o universo que conformava e os obstáculos que interferem na relação de amor dos dois.
Agora, depois de escrever, filmar e começar a partilhar o filme com o público, percebo que também houve da minha parte uma motivação: retratar Almería da forma como eu a vejo.
Era uma intenção forte mostrar algo que sinto faltar muitas vezes no cinema quando se trata de Almería. E isto pode levar a algo mais universal: esta convivência entre culturas acontece em muitos lugares do mundo. A terra é dos seres humanos, não pertence a nenhum país. As fronteiras são uma invenção que causa muito dano. O ser humano habita o planeta inteiro e tem direito a qualquer território.

E como trabalhaste a história de amor?
Foi complicado manter o foco no amor. Era fácil desviar-me para o tom sindical, laboral e outras questões. Mas queria manter a história de amor no centro.
Quando escrevia, não sabia quem iria interpretar os papéis. Encontrar a Hadoum parecia-me complicado, mas foi a primeira que encontrei, pela internet. Procurei “cantora hispano-marroquina andaluza” e apareceu ela. Vi as fotos e senti que a tinha encontrado.
O Silver Chicon encontrámo-lo através de amigos.
Trabalhei o guião ao máximo, mas eles nunca tiveram o guião nas mãos. Aprenderam tudo durante dois meses de ensaios. Nenhuma personagem sabia o que acontecia em cenas onde não estava. Só o Silver sabia tudo.
Na verdade, os protagonistas não sabiam o final até à última noite antes de filmar. Lemos apenas essa parte e filmámos no dia seguinte.
Estudaste e investigaste o tipo de trabalho retratado? Como foi esse processo?
Foi um processo de anos. Cresci ali, portanto não era chegar a um mundo desconhecido. Nunca trabalhei num armazém nem numa estufa, mas como investigação estive dois dias a trabalhar numa para perceber como era.
Li tudo o que pude ao longo dos anos, conheci pessoas e tenho ainda os meus pais, que são trabalhadores sociais na zona. Isso deu-me um conhecimento muito profundo das realidades sociais e culturais do território. Tinha muita informação acumulada ao longo da vida sobre realidades que raramente são visibilizadas.
Almería é conhecida no cinema como o local que representou muitos outros espaços, ficando particularmente famosa pelos spaghetti westerns aí filmados. Porém, raramente Almería se representa a si própria e aqui isso acontece.
Sim. Isso parece-me algo muito “trans”. Muitas produções vão filmar a Almería porque é incrível para filmar, mas sempre passando por outros lugares, Síria, México, o Oeste americano. Almería raramente se representa a si própria.
Isso liga-se à identidade trans, que também tem dificuldade em encontrar espelho no cinema. O cinema tem o poder de gerar espelho. A terra é “trans” porque carece de representação própria e porque está entre a Europa e África, funcionando como polo cultural. Parecia-me um prisma mais do que interessante.
Como foi o diálogo com a fotografia e a montagem?
Tive muita sorte. A diretora de fotografia Beatriz Sastre e o montador Yannick Leroy apaixonaram-se pelo guião. Queria planos longos, deixar a cena acontecer. Quanto menos cortes, melhor. Dá mais espaço à interpretação e cria maior sensação de pertença para o público.
Na montagem, houve um momento em que o próprio filme começou a dizer o que queria.
Qual foi o maior desafio que enfrentaste?
Houve muitos. Filmámos em cinco semanas, 25 dias. Ritmo intenso. Não há tempo para bloquear. Também foi um desafio trabalhar com dois intérpretes que nunca tinham interpretado antes. Tivemos dois meses de ensaios com uma coach.
Queres continuar a trabalhar estes temas no cinema?
Quero fazer cinema que plante perguntas. Como aprofundar os sentimentos humanos. Como estarmos mais próximos uns dos outros.
Quero continuar a representar corpos, identidades e histórias que não vejo no cinema. Explorar mais planos longos e trabalhar profundamente com intérpretes.
Gostaria que os meus filmes servissem de refúgio. Uma defesa férrea do amor.
Tens um novo projeto?
Sim. Estou a preparar o próximo filme. Não posso dizer mais nada.
Num mundo polarizado, fazer cinema sobre o amor é uma batalha perdida?
Nunca. Tivemos duas projeções aqui em Berlim. A reação foi incrível. As pessoas aplaudiram de pé.
É impossível ser uma batalha perdida quando vês a emoção nos olhos das pessoas. Querem estar apaixonadas. Querem ternura.
Querem que pensemos que é uma batalha perdida. Não é. Se um dia quiserem ouvir, temos de estar lá. Não me vou embora a dizer que o mundo está perdido. Tenho o privilégio de poder fazer isto. Vou fazê-lo até morrer.


