Já passaram 18 anos desde que Lance Hammer se estreou com sucesso com Ballast (2008), nomeado a seis Independent Spirit Awards. Desde então, não foi propriamente uma travessia no deserto, pois manteve-se ativo como professor universitário, mas Queen at the Sea (2026), cuja preparação começou em 2015, enfrentou vários percalços de produção, o que explica a sua estreia tardia na Berlinale, este ano, na Competição pelo Urso de Ouro.

O tema é tudo menos confortável. Leslie (Anna Calder-Marshall) e Martin (Tom Courtenay) são casados. Ela sofre de demência e já não tem capacidade para tomar decisões com plena consciência. Quando Amanda (Juliette Binoche), filha de Leslie, interrompe novamente um ato sexual entre o casal, ela reage de acordo com aquilo que considera moralmente correto. Tendo sido alertado por ela e pelo médico de Leslie para a deterioração do seu estado cognitivo, Martin é confrontado com a acusação de manter uma relação sexual não consentida. Amanda chama a polícia e o caso desencadeia uma investigação que arrasta o espectador para um campo minado de dilemas éticos.
“Comecei a reparar em muitas histórias sobre demência — notícias, relatos de amigos do meu pai, que tem a idade de Tom Courtenay. Li casos sobre o dilema moral do consentimento quando um dos parceiros sofre de demência. Fiquei desconfortável porque não tinha uma posição clara. Senti vergonha dessa incerteza. E pensei: talvez seja precisamente por isso que devia fazer um filme sobre isto”, explicou Hammer ao C7nema, em Berlim.
O realizador admite que, provavelmente, não teria escrito o argumento depois de o movimento #MeToo ter colocado o consentimento no centro do debate público. Ainda assim, esse novo contexto obrigou-o a reavaliar o texto: “A Juliette Binoche, que também é produtora, foi crucial nessas conversas, tal como amigas próximas. Tive de garantir que compreendia exatamente o que estava a dizer.”

O filme enfrenta ainda outro tabu: o sexo na velhice. Por isso, começa precisamente com a cena íntima entre os dois idosos. “O sexo entre pessoas idosas é um tabu. Não deveria ser. Quando vemos jovens a fazer sexo, é celebrado. Quando vemos corpos envelhecidos, sentimos desconforto. Porquê? Porque confronta a nossa própria mortalidade. Não quis provocar nem excitar. Quis mostrar um ato banal, simples. Sabia que seria perturbador — e isso interessava-me (…) A filha faz o que acha correto ao chamar a polícia. Para evitar um mal maior, tem de causar um mal menor. Não conhecia totalmente as consequências. Ao investigar, percebi como as instituições, mesmo compostas por pessoas compassivas, podem esmagar indivíduos quando aplicam regras absolutas.”
Recorrendo a uma estética que o cineasta designa de reducionista, onde elimina tudo o que não é essencial, Queen at the Sea conta com a direção de fotografia de Adolfo Veloso, com quem Hammer partilhava uma visão idêntica desde o início. “Na casa, optámos por planos fixos. Com os adolescentes, recorremos pontualmente à câmara na mão, sem tremores gratuitos, porque as cenas o exigiam. O Adolfo é quase um documentarista, segue o momento com compaixão. Confiámos muito um no outro.”
O Festival de Berlim termina a 22 de fevereiro.


