Reconhecido pela sensibilidade com que aborda histórias autobiográficas e pela leveza com que trata temas difíceis, o realizador austríaco Adrian Goiginger — de Die beste aller Welten (2017) e Der Fuchs (2022) — apresentou na Berlinale, na secção Panorama, Four Minus Three, filme baseado no livro de Barbara Pachl-Eberhart, que relata a tragédia da autora em março de 2008, quando perdeu o marido e os dois filhos num acidente numa passagem de nível.

Para o cineasta, desde o início, a sua grande preocupação foi evitar o sentimentalismo excessivo sem retirar o peso da tragédia, recorrendo a filmes como The Broken Circle Breakdown (2012), Close (2022) ou Manchester by the Sea (2016) para se inspirar, pois, apesar da dor, todos eles encontram espaço para a luz a partir das sombras. Conta-nos Adrian que a solução acabou por surgir apenas durante a montagem, com a decisão de misturar cenas mais negras com outras mais leves. “Não queria que a tristeza se tornasse avassaladora”, diz-nos.
Admitindo que leu o livro para compreender o material de base, mas que escolheu o seu próprio caminho artístico na adaptação, Adrian relembra a presença constante da verdadeira Barbara ao longo de todo o processo de filmagens, o que trouxe um sentido acrescido de responsabilidade: “Era muito importante que ela se sentisse respeitada e feliz com aquilo que estávamos a fazer com a sua vida.”
No papel de Barbara encontramos Valerie Pachner, alguém que o realizador descreve, sem hesitar, como uma superestrela, recordando o impacto que a atriz lhe causou em A Hidden Life (2019), de Terrence Malick. “Em cada take, ela dava 100%. Não houve tentativas mornas. Era intensidade absoluta desde o primeiro momento.”
O universo dos palhaços foi outra descoberta inesperada. Adrian confessa que, antes do filme, nem sequer gostava deles. Foi durante a investigação que descobriu uma dimensão filosófica e até política da arte clownesca. Na Rússia, por exemplo, há palhaços que vivem quase na clandestinidade por criticarem o regime. “Pagam com a liberdade”, afirma, acrescentando que esse estudo ajudou a afastar alguns clichés visuais, privilegiando menos maquilhagem exagerada e mais humanidade.

Algumas cenas mais intensas exigiram um ambiente quase ritual, como a do colapso emocional de Barbara. Filmada com equipa mínima, o realizador informou previamente os atores de que fariam apenas dois ou três takes. “Foram três”, recorda, sublinhando que o impacto da cena se prolongou muito depois de se ouvir o “corta”: “A Valerie precisava de dez minutos para parar de chorar. Não foi agradável de ver.”
Ainda assim, Adrian admite que o momento mais marcante foi a reação da verdadeira Barbara à estreia. Em privado, ela partilhou que o marido — também palhaço — tinha finalmente alcançado “o grande palco que sempre quis”, ainda que postumamente. Em público, visivelmente emocionada, afirmou que o filme lhe trouxe memórias felizes e a sensação de que a família estava presente. “Isso foi mais recompensador do que qualquer prémio”, explica o realizador, que prepara já novos projetos, incluindo outra história baseada em factos reais.
Para já, concentra-se na viagem internacional de Four Minus Three e na forma como o público continuará a rir e a chorar com ele.
O Festival de Berlim termina a 22 de fevereiro.


