Dust: identidade, poder e ruína na bolha tecnológica dos anos 1990

(Fotos: Divulgação)

Final dos anos 90. Dois fundadores de uma empresa tecnológica belga — Luc e Geert, interpretados por Arieh Worthalter e Jan Hammenecker — prometem um software inovador capaz de transformar áudio em texto. Apesar de a ideia ser excecional, ainda não existe hardware capaz de a concretizar. Ainda assim, mantêm o interesse no produto através de múltiplas apresentações e do inflacionamento das ações por meio de um esquema financeiro ilegal.

Numa casa de banho, um jornalista informa-os de que o seu “sucesso” será exposto em menos de 24 horas. O filme acompanha o último fim de semana antes de o esquema ser revelado publicamente e coloca uma questão tão simples quanto complexa: quando o dinheiro, o prestígio e a narrativa de sucesso desaparecem, resta apenas o carácter. E se o carácter também for uma ficção?

Angelo Tijssens

Segunda longa-metragem de Anke Blondé, depois da comédia dramática The Best of Dorian B. (2019), Dust concorre ao Urso de Ouro na Berlinale. “É muito, muito livremente inspirado num caso real de fraude na Bélgica, nos anos 90, envolvendo homens que alegadamente inventaram tecnologia de reconhecimento de voz. Mas afastámo-nos rapidamente desse caso, porque a ficção revelou-se mais interessante do que a simples coleção de mentiras”, disse ao C7nema o argumentista Angelo Tijssens, colaborador frequente de Lukas Dhont em Girl (2018) e Close (2022). “O nosso foco nunca foi ‘como é que aconteceu?’, mas sim ‘porque é que o fizeram?’. Não apenas a estrutura física — aquele edifício de betão e vidro no meio do nada —, mas a estrutura da identidade que construíram: homens fortes, bem-sucedidos, de fato e gravata. Se retirarmos tudo isso, o que sobra?”

O título Dust tem um duplo sentido: em inglês, “poeira” — o que resta quando tudo desaparece; no dialeto da Flandres Ocidental, significa “sede” — desejo, necessidade. Na palavra coexistem começo e fim: ânsia e ruína, acrescenta Blondé. “Visualmente, quisemos enfatizar a bolha: vidro, chuva, nevoeiro, lama. Um tenta manter-se limpo; o outro mergulha na sujidade. A paisagem da Flandres Ocidental — marcada pela história e pela guerra — funciona como metáfora. A lama contém memória. (…) O design de produção evitou clichés dos anos 90. Mostra acumulação, não catálogo. As casas são feitas de camadas de tempo, não de elementos em voga.”

Anke Blondé

Quanto à opção de situar toda a ação em apenas um fim de semana, Blondé explica que o objetivo era aproximar-nos das personagens. “Criámos quase um efeito de loop temporal, mas a verdadeira tensão não é cronológica — é emocional. Eles vivem numa bolha, num vácuo. Quando saem dela, algo acontece. Precisam de confrontar a própria consciência.”

Já Tijssens acrescenta: “Quisemos explorar essa masculinidade associada a dinheiro, poder e sucesso — valores tradicionalmente ligados à identidade masculina — e questioná-los. A bolha tecnológica da época ecoa a atual bolha da inteligência artificial. Mas o filme não é sobre a bolha; é sobre os homens e as últimas horas antes da queda.”

O Festival de Berlim prossegue até dia 22 de fevereiro.

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