Explorando de forma consistente a experiência queer, o trauma transgeracional e as estruturas de opressão na República Dominicana, Victoria Linares Villegas tem vindo a afirmar-se como uma voz inquieta do cinema contemporâneo. Depois de dois documentários com marcas híbridas — Lo que se hereda (2022) e Ramona (2023) —, a jovem cineasta dá agora o salto para a ficção com No Salgas (2026), onde prossegue a investigação da temática queer através do horror. O filme teve a sua estreia mundial no Festival de Berlim, na secção Generation.
Num filme em que o terror funciona como espelho da repressão, acompanhamos Liz, uma estudante universitária que esconde a sua homossexualidade e tenta sobreviver ao luto pela morte brutal da namorada. Num fim-de-semana de tensão com as amigas, o desejo reprimido, a culpa e a violência social misturam-se com uma força invisível que ameaça consumir o grupo. Estivemos à conversa com a cineasta em Berlim para descobrir mais sobre o seu percurso e este novo trabalho.

Começou mais próxima do documentário e agora passa totalmente para a ficção. O que a levou a dar esse salto?
Este filme era suposto ser a minha estreia na ficção narrativa, mas por várias circunstâncias — e também por causa do seu lado queer — foi muito difícil conseguir financiamento. Então comecei a trabalhar em filmes de orçamento mais baixo.
Acabei por explorar formatos híbridos, misturando documentário e ficção. Tinha feito duas curtas antes — uma de ficção, outra documental — e essas experiências cruzaram-se com os meus documentários anteriores e com este filme. No fundo, mais do que o género, o que permanece no meu trabalho são os temas. A ficção é apenas outra forma de expressar aquilo que quero abordar.
O cinema de género ajuda a falar de homofobia?
Sim. O género, neste caso o horror, torna menos cliché falar de homofobia. No terror não questionamos se algo é absurdo ou fantasioso. Aceitamos. E o horror é profundamente político. É uma forma mais envolvente de discutir algo horrível. Este filme foi o veículo perfeito.
Qual foi o ponto de partida para No Salgas?
Estava a beber umas cervejas com o Carlos Alberto Marranzini Rodríguez, o co-argumentista, e ele descreveu uma imagem: quatro mulheres a conduzir numa auto-estrada à noite, todas ensanguentadas. Não sabíamos o que lhes tinha acontecido, mas sabíamos que era algo terrível.
Essa imagem ficou comigo durante dias. Mesmo não estando no filme final, foi a fundação. Começámos a escrever algo que inicialmente era mais um retrato da juventude. Depois comecei a trazer experiências pessoais sobre assumir a minha identidade na República Dominicana.
Estávamos em 2016. Já havia filmes como It Follows (2014), Raw (2016) e Revenge (2017), que combinavam género com temas sociais. Percebi que esta era a forma mais envolvente de falar da experiência de assumir-se.
Falou em clichés queer. Como os tentou evitar?
Tentámos evitar clichés em geral, não apenas queer. Também evitámos clichés do terror. Só há um jump scare no filme. Não queríamos espectáculo gratuito, mas sim explorar o conflito e as consequências dele.
Na República Dominicana quase não há representação queer. Para nós, era um território novo. O filme foi muito bem recebido fora do país, mas não tanto dentro dele. Senti uma ligação profunda com a história, porque, de certa forma, aquela personagem era eu. Tentei que a experiência de assumir-se não fosse tratada da mesma forma que noutros filmes.
Sente que faz parte de um movimento queer dentro do género?
Tenho referências muito clássicas, mas senti-me muito tocada por Jane Schoenbrun, especialmente em I Saw the TV Glow (2024) e We’re All Going to the World’s Fair (2021). São formas muito diferentes de retratar a identidade queer, mas sinto uma ligação.
O meu filme também tem uma dimensão nostálgica ligada à cena alternativa da República Dominicana. Sinto-me próxima tanto do cinema queer como do horror, embora não saiba quantos exemplos de horror queer existem realmente.
E quais foram as suas referências no género?
A nossa produtora chama-se Argento’s Dove — uma referência a Dario Argento. Ele foi uma grande influência, tal como Brian De Palma, John Carpenter e Mario Bava.
No início, o filme parecia muito com Halloween (1978), com uma entidade de luvas pretas e planos em ponto de vista. Retirámos esses elementos. Quis internalizar essas referências e criar algo novo a partir delas.
Qual foi o maior desafio?
O financiamento e as sequências de ação. Vinha do documentário, sem qualquer experiência com cenas de ação. Trabalhar com duplos e uma equipa maior foi intimidante.
Filmámos em 21 dias. Em 2023 filmámos a primeira parte em 10 dias. Depois tivemos de parar, procurar mais financiamento e regressar em 2024 para concluir o filme. Foi duro.
Curiosamente, as cenas de ação acabaram por se tornar algumas das minhas preferidas.
Vai continuar a filmar na República Dominicana?
Sim. No ano passado filmei o meu projeto mais ambicioso até agora, com uma equipa muito maior e muitos figurantes.
É um filme profundamente pessoal. A minha família é muito ligada à política. Tive um tio que era ministro e foi assassinado. Foi um dos momentos mais difíceis da nossa história familiar.
O novo filme parte desse contexto: a morte do pai da protagonista, uma figura politicamente conhecida. É uma história centrada numa relação mãe-filha, marcada pelo luto e pela burocracia que envolve um crime político. Explora o que acontece quando essa figura paterna desaparece e as duas mulheres ficam apenas uma com a outra.
Se No Salgas já trabalhava o luto, este novo projeto coloca-o no centro absoluto da narrativa.


