Marca de excelência por detrás de uma identidade estética que hoje influencia jovens cineastas no Brasil, a produtora Filmes de Plástico, de Minas Gerais, tem conquistado um espaço singular nas vitrinas das narrativas autorais da Europa e dos EUA, com passagens bem-sucedidas por Sundance (onde esteve Marte Um (2022)), Locarno (que aplaudiu Temporada (2018)) e a Quinzena de Cannes (plataforma de lançamento para Quintal (2015)).
O novo trabalho do colectivo formado por Gabriel Martins, Maurilio Martins, Thiago Macêdo Correia e André Novais Oliveira prepara-se agora para integrar a secção Panorama da Berlinale: Se Eu Fosse Vivo… Vivia (2024). A realização é assinada por André, que levou o pai, Norberto Novais Oliveira, para protagonizar. A família está quase sempre presente nas suas longas-metragens. Este, contudo, destaca-se aos olhos da crítica por uma viragem na sua dramaturgia, onde surge um discreto flerte com a ficção científica, sem abandonar as belezas e as contradições do estado de Minas Gerais, no perímetro da cidade de Contagem, no eixo de Belo Horizonte.
“A Contagem e a BH nos nossos filmes vêm muito da vontade de falar de lugares que não são muito retratados, mas que pessoas da idade das personagens frequentam”, disse André ao C7nema, antes de a produção ser anunciada por Berlim, recorrendo à sua ligação à História — área em que se licenciou — para pensar o amanhã, numa trama que conta com a presença da escritora Conceição Evaristo, autora de Canção Para Ninar Menino Grande (2018), no elenco. “Pensar no presente é sempre pensar no futuro e no passado. A Conceição surgiu entre nós a partir de um levantamento de nomes; mesmo sem ter a agenda livre, encontrámos forma de filmar. Impressiona a concentração dela.”
Ao lado de André na capital alemã, Thiago Macêdo sublinhava a ligação entre a diva das Letras e Norberto em cena. “Eles tiveram um entendimento forte, em parte por causa do lugar de onde vieram.”

Em Se Eu Fosse Vivo… Vivia (2024), a plateia é levada ao Brasil da década de 1970. Contagem ainda é uma cidade em crescimento e serve de lar a um jovem casal apaixonado. Gilberto pede perdão a Jacira pouco antes de um encontro inesperado mudar o rumo das suas vidas. Cinquenta anos depois, os dois — agora interpretados por Norberto Novais Oliveira e Conceição Evaristo — continuam juntos. São um casal carismático e afável, na casa dos setenta anos. Levam uma vida feliz, apesar dos problemas de saúde próprios da idade, partilhando quase todas as actividades diárias lado a lado. Quando Jacira é subitamente hospitalizada, Gilberto passa a viver acontecimentos perturbadores, numa espiral através do tempo e do espaço (literalmente), que o conduz ao desconhecido.
“Este argumento foi desenvolvido logo após a morte da minha mãe, em 2018, mas tenho tendência a não pensar que a ligação com as narrativas de género venha por antecipação. Ela surge mais com o que encontramos depois de o filme estar pronto. No caso de Temporada (2018), aí sim, havia a consciência de que seria um drama. Mas no caso de Se Eu Fosse Vivo… Vivia, não pensei em ficção científica. Pensava mais em filmar um drama quotidiano. A ficção científica entra mais como um sintoma do absurdo, que começa a escalar numa gradação cada vez maior. É um filme que se torna cada vez mais estranho”, explica André.
O seu Temporada (2018) surpreendeu a crítica em Locarno e trouxe da Suíça os melhores augúrios para a Filmes de Plástico, electrizada pela presença da actriz Grace Passô na personagem central. Ela também está na Berlinale, na secção Perspectives, com Nosso Segredo (2024).
“A Grace falava muito comigo sobre lapidar interpretações no meu diálogo, onde eu mexo um caco para cá e outro para lá”, explica André. “A questão é que eu acredito num mantra que repito no set: ‘Falem como vocês falam normalmente nas vossas vidas’. Eu dirigia a minha mãe (Maria José Novais Oliveira, a Dona Zezé) e ela decorava o texto, mas dizia-o à sua maneira, de forma natural. Existe uma marca mineira nas minhas falas, mas quando penso nelas lembro-me da música dos Racionais MC’s. Ali há gíria, há sotaque, mas o mundo entende tudo, nem que seja pelo contexto.”
Norberto observa com admiração o percurso seguido pelo filho no cinema. “Hoje toda a gente já conhece o jeito dele: mostrar o nosso dia-a-dia como ele é.”
A Berlinale decorre até 22 de Fevereiro.


