No seu terceiro filme, À voix basse (In a Whisper), depois de À peine j’ouvre les yeux (2015) e Une histoire d’amour et de désir (2021), Leyla Bouzid vai mais além do drama familiar e desenha um ensaio sobre memória, silêncio e vergonha. À superfície, o filme acompanha o regresso de Lilia (Eya Bouteraa) à sua cidade natal, na Tunísia, para o funeral do tio, encontrado morto em circunstâncias obscuras. Porém, rapidamente percebemos que a verdadeira investigação não é sobre como ele morreu, mas como viveu e aquilo que a família escolheu nunca dizer.
Com grande maturidade, Bouzid filma o luto como ritual e teatro social, onde a casa da família se transforma num espaço de contenção que reúne três gerações de mulheres que orbitam por um segredo que ninguém nomeia: a homossexualidade do tio falecido, tratada como vergonha. Entre tradições religiosas, leis opressivas e afetos reprimidos, À voix basse desloca-se da lógica do whodunnit para questionar como sobreviver àquilo que herdámos.
Numa conversa com Leyla Bouzid em Berlim, ela falou-nos um pouco mais da sua obra, que concorre ao Urso de Ouro na Berlinale.
Gostaria de começar pelo tema do matriarcado, que domina o filme. Como se construiu este enredo assente em três gerações de mulheres e qual foi a sua abordagem a elas?
Penso que o ponto de partida foi a casa, e com essa casa vinha esta avó. E essa avó estava ligada à casa, é muito inspirada na minha própria avó.
Na Tunísia, pelo menos, as casas são maioritariamente lideradas por mulheres. Então quis mostrar esta equipa inteira de mulheres e todas as diferentes dinâmicas, energias, mais a Lilia, que regressa para o funeral. Além disso, queria filmar uma avó poderosa que lidera um matriarcado e que decide as coisas, como casar o filho e tomar decisões. Queria também construir uma personagem que tememos, sentimos que tem mão de ferro, mas que também amamos, porque é uma avó. Foi assim que comecei, e depois construí toda a família a partir daí.
As personagens são muito inspiradas em mulheres que conheço.
Escreveu o argumento sozinha?
Sim, escrevi tudo.

Quando escrevia o argumento, o que surgiu primeiro: a morte do tio ou as três gerações?
Surgiram juntas. Começou com uma mulher que cresce sem compreender quem era o tio, a relação especial entre ele e a avó. Depois tornou-se algo situado no presente.
A avó e o tio estavam lá desde o início, com uma sobrinha que observa sem perceber completamente.
E esta ideia de que as mulheres guardam segredos mas acabam por se abrir, enquanto o lado masculino não revela os seus segredos, corresponde à sua experiência?
Da minha experiência, sim. No matriarcado talvez as mulheres sejam muito fortes, mas ao mesmo tempo são muito sensíveis e movem-se muito pelas emoções. Isso faz com que consigam mudar de um lugar para outro. Elas evoluem no filme. As mulheres adaptam-se muito.
Nessas três gerações de mulheres, umas viveram num regime diferente e depois há alguém que cresceu, está agora em Paris e regressa, libertando um choque cultural. Como construiu essa árvore de conflitos entre gerações?
A Lilia cresceu na Tunísia e foi para França estudar quando se tornou adulta, e agora regressa de vez em quando. Construiu a sua própria vida em França, muito diferente da sua vida na Tunísia, e separa as duas. Para mim era muito interessante trabalhar no argumento esta duplicidade cultural, esta dupla norma, e como se é uma pessoa em Paris — mesmo que não a vejamos lá, percebemos que é diferente, talvez muito controladora do seu destino — e na Tunísia está muito mais próxima da família, num registo mais emocional, que controla menos.
A ideia do filme é começar com esta viagem e que essa viagem a obrigue a ser uma só pessoa e não duas, a ligar ambas as partes. Penso que, na vida dela, naquele momento em que o filme começa, a relação com a Alice está a bater contra uma parede porque não conseguem avançar. Não conseguem construir mais do que já construíram porque esta separação em duas camadas já não é possível.
Muitas pessoas que vivem entre duas culturas podem reconhecer-se nisso.
Como construiu a personagem da Alice, que a confronta e a obriga a ligar esses dois mundos?
A relação entre elas chegou a um ponto sem retorno. A Alice sente isso. Trabalhei muito o passado do casal com as atrizes. A Lilia prometia levá-la à Tunísia e cancelava sempre. Talvez tenha chegado a um ponto em que prometeu não cancelar mais.
Quando ocorre a morte e surge a ida à Tunísia, esta mulher já não aceita mais adiamentos. Decide ir. E quando descobre que a mãe da Lilia aceitou a homossexualidade do tio, percebe que as coisas não são tão más como a namorada dizia. Toma uma decisão para fazer avançar a própria história e talvez ajudar a Lilia. Mas não sabemos se é uma boa ou má decisão e isso terá consequências.
A personagem da mãe, interpretada pela Hiam Abbass, evolui muito. Pode falar sobre essa evolução?
Gosto de personagens complexas que se transformam ao longo da história, mesmo em seis dias. É uma mulher forte, médica, chefe. A Lilia pensava que ela era homofóbica, mas não é assim tão simples.
O choque também surge porque a filha lhe mentiu durante anos. O pai sabia e ela não. Sente um falhanço pessoal, como se tivesse falhado na relação com a filha.
Mas continua a ser mãe. Quando percebe que a filha pode ser presa, defende-a. E defende-a também contra os homens. É isso que gosto nesta comunidade de mulheres: lutam entre si, mas são uma equipa.
Qual foi o efeito deste filme em si, enquanto realizadora?
Foi um filme muito estimulante de fazer. Primeiro, estava na casa da minha avó.
Na casa real?
Sim, é a casa da minha avó.
Quis filmá-la porque vai ser demolida. A minha avó faleceu em 2017 e a família queria vender a casa. Nesse bairro, as casas estão todas a ser demolidas para construir prédios. Então disse-lhes: antes de venderem, deixem-me fazer um filme. Fizemos um acordo: faço o filme e depois podem vender.
Queria capturar a alma da casa. Foi muito intenso porque havia fotografias nas paredes, a mãe da minha avó — que nunca conheci — todos os meus antepassados nas paredes. Havia muitos fantasmas para mim ao fazer este filme. Mas também foi muito alegre, porque todas estas mulheres estavam muito envolvidas, havia muita energia na casa.
Optou pelo chiaroscuro por causa desses fantasmas do passado?
Quando era criança, a casa era assim. Muito calor e sol lá fora, mas quando se entra é um pouco escura, porque nos países quentes fecham-se as janelas para manter o fresco. A minha memória da casa é esse chiaroscuro.
Na adolescência fiz muitas fotografias lá e estava sempre assim. Com o diretor de fotografia decidimos que essa seria a atmosfera. Trabalhámos com contraluzes, chiaroscuro, e também numa progressão: no início muito escuro e, pouco a pouco, vai abrindo, e no fim o sol entra na casa.
Há um momento em que no filme se diz que a homossexualidade feminina não é levada a sério.
Não é humor, é a realidade. Eles não levam a sério. Têm uma forma estranha de “provar” a homossexualidade masculina com um teste anal que muitas ONG consideram tortura. Com as mulheres não conseguem provar tão facilmente e não levam a sério porque pensam que, mesmo sendo lésbica, pode casar com um homem e ter filhos.
Na Tunísia, os homossexuais presos são quase todos homens. Não porque não haja mulheres, mas porque não conseguem provar e não levam a questão a sério. Há também uma espécie de desprezo.
Tendo em conta o tabu no mundo árabe em relação à homossexualidade, foi difícil encontrar atrizes e atores que aceitassem os papéis?
Adoro atores e adoro trabalhar com eles. Para este filme tive de garantir que todos estavam envolvidos com o tema.
Por exemplo, quem faz de avó estava profundamente empenhada. Dizia que este filme era sobre tolerância, que precisamos disso agora na Tunísia. Precisamos de aceitar a liberdade pessoal, a vida privada que as pessoas querem ter. Cada um queria defender o filme. Talvez estejamos prontos, talvez seja tempo de contar este tipo de história também a partir do mundo árabe, deixar de tratar tudo como tabu e contar estas histórias porque, se não existem no Cinema, não existem. Não estão representadas. E se não estão representadas, não existem.
Mas, na fase de casting, houve atores que não quiseram participar por causa do tema ou porque tinham histórias pessoais muito próximas do filme e não queriam levá-las para o ecrã.
Aceitaria que um festival num país árabe editasse algumas cenas para exibir o filme?
Depende do que fosse cortado. Se for muito pouco, talvez funcione, mas há muitos momentos de beijos. Normalmente, quando pedem cortes pedem muito, e isso pode destruir o filme. Trabalho muito as nuances, o ritmo próprio. Se destruírem isso, mais vale não verem. As pessoas vão vê-lo online na mesma.


