Shahrbanoo Sadat: as memórias da fuga ao regime Talibã e “No Good Men”

(Fotos: Divulgação)

Logo após a conquista de Cabul por parte dos Talibãs, o aeroporto de Cabul tornou-se a imagem concentrada de um país a desmoronar-se. Depois da retirada dos Estados Unidos e da incapacidade do governo em travar o avanço dos talibãs, milhares de pessoas comprimiam-se junto às pistas numa corrida contra o tempo. Entre elas estava Shahrbanoo Sadat, cineasta revelada internacionalmente com a curta-metragem Vice Versa One, selecionada para a Quinzena dos Realizadores de Cannes em 2011, que conseguiu sair do Afeganistão. Dias depois de chegar a França, antes de transitar para a Alemanha, ela prometeu filmar o que vivera. Promessa cumprida com No Good Men, filme de abertura da Berlinale 2026.

Em vez de acompanhar as operações diplomáticas de evacuação, Sadat recua ao período imediatamente anterior ao colapso, quando o regresso dos talibãs pairava no ar, ainda que muitos falassem apenas em rumores. Os atentados aumentavam na capital afegã  e a realizadora leva a sua história até à principal estação televisiva de Cabul, onde a tensão cresce. É aí que seguimos Naru, a única operadora de câmara da estação, determinada a afirmar-se num meio dominado por homens enquanto tenta manter a custódia do filho. Com um forte travo de comédia romântica, no meio de um drama intenso que acaba por evoluir para um ambiente de cerco, 

Este filme podia ser muitas coisas. Podia ser um thriller, podia ser um drama profundo… mas acaba por ser um filme sobre jornalistas, sobre uma cadeia de televisão, uma comédia romântica. Como equilibrar isso e quando decidiste o tom do filme, mesmo partindo de situações muito dramáticas?

É interessante. Não pensei que pudesse ser um thriller ou outros géneros. Não estava na minha cabeça. Na minha cabeça era um processo e tudo aconteceu por si.

Como eu disse, fazem-me muito esta pergunta na imprensa: “identificas-te como cineasta política?” E eu respondo: não. Porque quando és cineasta política, começas um projecto com uma agenda. Já sabes: “ok, a situação das mulheres é horrível, vou fazer um filme sobre as mulheres.” Não foi esse o meu caso.

Estava interessada na vida quotidiana de uma mulher próxima de mim. Estava interessada no jornalismo no Afeganistão por causa do meu passado. Estava interessada em falar deste período que já não existe e que as pessoas romantizam. Mas eu não conseguia dizer-vos “o meu filme é sobre isto”. Foi um processo longo e demorou-me três anos a perceber que estava a falar sobre o patriarcado.

Demorou-me cerca de 12 versões do guião. Consigo dizer-vos em cinco minutos sobre o que é o filme, mas não consigo dizer numa palavra ou numa frase o que ele é. Gosto disso, porque nas escolas de cinema e com muitos cineastas o modo como funciona é: primeiro tens de ter a logline, depois a sinopse, depois o tratamento, depois o guião. Comigo isso não dá. Não consigo ter sinopse ou tratamento. Escrevo o guião e, quando escrevo a primeira cena, não sei o que estou a escrever; quando escrevo a segunda cena, não sei o que ela é. Estou carregada de coisas que quero dizer, ponho tudo no papel e depois percebo o que quero, o que é que me importa tanto.

Mas é tão importante para mim que a ideia de “esquece, é difícil, não vamos conseguir financiamento” não funciona assim. Tenha financiamento ou não, tenho de fazer, porque não consigo largar. Vem de… eu estava mesmo frustrada na altura, e ainda agora. Sempre tive esta raiva e frustração que queria pôr cá fora.

Porque vemos filmes do Afeganistão e… esses filmes são completamente irrelevantes. São sempre filmes de heróis, de como estrangeiros salvam isto, de como americanos salvam pessoas. Eles desumanizam as personagens afegãs. Mesmo que vivas num país triste ou em guerra, não estás triste 24 horas por dia. Continuas a viver o teu dia-a-dia, continuas a amar, continuas a beijar, continuas a ter sexo, continuas a falar com amigos, a ter conversas intensas com amigas, com o teu círculo. Ok, também há explosões, fecham ruas, tens de ir por outras ruas, recebes uma chamada a dizer que um amigo perdeu o irmão porque estava no sítio errado à hora errada. Para mim isto é normal.

O que falta é a perspectiva de dentro. E eu espero que um dia o Afeganistão tenha cinema, para podermos contar este tipo de história ainda mais.

O filme sugere que as pessoas que viviam em Cabul foram deliberadamente enganadas quanto ao perigo da aproximação dos talibãs. Foi mesmo assim?

Cena de “No Good Men” – Crédito: Virginie Surdej

Se falares com muitos afegãos, inconscientemente — e também conscientemente, acho — eles romantizam a era da democracia. Especialmente os homens afegãos fazem muito isso. Romantizam, dizem que era tudo rosas e flores e agora os talibãs são o maior problema do Afeganistão.

Mas as mulheres pensam de forma diferente. Para as mulheres, mesmo na era da democracia, existiam muitos limites e restrições, porque o núcleo da sociedade era profundamente patriarcal, e agora com os talibãs isso foi “upgraded”. Para as mulheres, a situação piorou agora, mas a base sempre existiu.

Muitos homens afegãos não percebem que só por serem homens naquela sociedade já são privilegiados. Não entendem isso. Por isso, quando as mulheres falam das suas experiências, sentem-se atacados e acham que têm de gozar com as feministas afegãs porque, em vez de se concentrarem nos talibãs, falam de patriarcado, o que na opinião deles é completamente irrelevante. Existe um fosso aí.

Na era da democracia, sim, havia mais oportunidades, mas tínhamos um governo corrupto, um bando de mentirosos e ladrões. Uma parte grande da situação do Afeganistão foi, sim, a comunidade internacional, que foi muito irresponsável e abusou do Afeganistão nos últimos 20 anos. É demasiado complexo para desenvolver aqui, mas critico a comunidade internacional e, claro, também os políticos afegãos. Eles eram muito corruptos. Compravam propriedades no Dubai e tiravam as famílias do país, foram completamente irresponsáveis. Eram autoridades típicas a ir à televisão mentir na cara das pessoas e dizer “ah, está tudo bem, a América nunca vai sair do Afeganistão e isto vai durar para sempre”.

E agora é torturante para mim ver os mesmos homens, agora “afegãos no exílio”, a falar contra os talibãs. Penso: “meu Deus, estás a gozar comigo?” Há muita complexidade em qualquer situação, e também no Afeganistão, mas as pessoas gostam de simplificar e apresentar tudo como preto e branco.

Quanto da personagem que interpretas é baseada na tua experiência em televisão?

A minha experiência em TV? Bem, eu não era camerawoman. Era produtora de um programa de culinária, que era tão estúpido como o programa que vemos no filme, mas noutro nível. Tinha um chefe muito sexista e ele achava que culinária e mulheres combinam. Então, só por eu ser mulher, meteu-me nesse programa. Eu até odiava cozinhar. Era uma tortura gravar seis ou sete episódios por semana, mas estava presa ali.

O Anwar trabalhava nas notícias como produtor. Nunca trabalhámos juntos na vida real. Mas, para mim, ser parte dos media afegãos, ver como os jornalistas trabalham, conhecer o Anwar e outros colegas, ter esse olhar de perto sobre como faziam o trabalho no Afeganistão — isso deu-me muitos detalhes.

Também fiz pesquisa em 2021, três ou quatro meses antes do regresso dos talibãs: voltei à televisão e segui jornalistas durante quatro ou cinco semanas. Seguia seis ou sete jornalistas por dia. Foi mesmo intenso. Muitos detalhes vêm desse mundo que conhecia.

Mesmo sem comparar com o jornalismo, basta pensar no cinema: qualquer área é dominada por homens. Como mulher, se queres fazer alguma coisa e tens opinião, és sempre limitada de certa maneira. O sistema está avariado. Não é só os media, não é só o cinema: é todo o sistema que te trata como se não fosses um ser humano.

Mesmo eu, como mulher que vivia no centro de Cabul e tinha uma certa liberdade, só por viver nessa bolha era considerada uma das mulheres mais sortudas e privilegiadas do Afeganistão. E digo isto porque no momento em que sais do centro, como mulher, perdes uma grande parte — ou toda — a tua independência. De repente és propriedade de um homem.

Em Cabul, mesmo eu, que viajava pelo mundo todo e tinha o passaporte cheio de carimbos, quando fui renovar o passaporte pediram-me para levar o meu marido, ou o meu pai, ou o meu irmão. Percebem como as coisas eram? Eu era sortuda por ser freelancer e trabalhar por conta própria depois da televisão, mas no momento em que encontravas a lei, o sistema e as autoridades, diziam-te que eras meia-humana.

Na rua também, com colegas homens, era assim. Muitos homens na sociedade afegã — e também muitas mulheres, porque também são educadas pela sociedade patriarcal — não sabem quando uma mulher está zangada ou frustrada, nem de onde vem essa raiva. Acham irrelevante. Se és uma mulher consciente e que vê o quadro maior, é como uma facada nas costas.

Shahrbanoo Sadat e Anwar Hashimi

Uma das coisas mais interessantes no filme é a relação entre as duas personagens principais e o espaço público onde podem estar juntas…

Havia a rua mais comprida de Cabul e eu aposto a minha vida e a minha honra que todos os casais em Cabul conduziram um dia nessa rua, porque era a rua mais comprida onde podias “fazer coisas” no carro, incluindo eu e o meu namorado. Percebem o que quero dizer? O único lugar onde podias ter um bocadinho de privacidade era o carro.

O Afeganistão é um tipo de sociedade onde a individualidade não existe. Não é sobre mim, é sobre tomar conta dos outros. E não és responsável só pela tua família direta, mas também pela família alargada.

Falo mais de mulheres porque sou mulher, mas ser homem também é difícil numa sociedade assim. Tens 18 anos, casam-te com a tua prima; aos 30 és pai de seis filhos; aos 40 conheces uma mulher e sentes amor pela primeira vez. E pensas: “eu nunca vivi isto.” Mas, ao mesmo tempo, sentes culpa porque és casado e tens responsabilidades.

Estes temas nunca foram discutidos na sociedade afegã porque é uma sociedade muito pretensiosa. As pessoas mentem. Não falam. Construímos uma imagem para fora e o interior é diferente. E depois carregas essa culpa. É mesmo louco para mim.

Por isso queria mostrar esse momento a um nível humano, sem julgar. Ambos são casados, ambos têm filhos, estão presos de alguma forma nas suas vidas. Mas, a um nível humano, o que acontece quando conheces alguém e sentes algo por essa pessoa, mas a tua situação não permite?

Tanto em The Orphanage (2019) como em No Good Men acabas no momento em que os talibãs invadem. Sentes que a história está condenada a repetir-se?

Sim. Quando estava a fazer The Orphanage, falava dessa era no início dos anos 90. O governo pró-soviético colapsou, os mujahideen tomaram Cabul, começou a guerra civil durante cinco anos e depois os talibãs chegaram em 1996.

Quando o 15 de Agosto de 2021 aconteceu, tive de queimar certificados e destruir prémios de festivais, porque não sabíamos se iam revistar as casas. Tinha uma guitarra, tivemos de a partir. Foi mesmo como um momento de The Orphanage.

Nesse dia vivi exatamente isso: não sabes o que está a acontecer, nem o que vem a seguir. Não sabes. E não podes fazer nada, porque cada passo pode acabar com a tua vida. Essa incerteza é algo que eu gostava de ter conhecido antes de fazer The Orphanage. Talvez se veja no filme, mas não vinha de mim.

Quais são as suas memórias do 15 de Agosto de 2021?

Fui ao banco para levantar dinheiro e o banco estava sem dinheiro. Ficava a duas ruas do meu apartamento. Vi uma multidão, umas 500 pessoas. Disse “desculpem, preciso de ir ao banco” e responderam “sim, nós também”. Ficámos ali até os seguranças dizerem que não havia dinheiro e para irmos para casa. Na fila, toda a gente estava ao telefone. Uns diziam que tinham visto talibãs na cidade; outros diziam que era rumor.

As pessoas queriam tirar dinheiro caso acontecesse alguma coisa. Depois fomos para a rua principal e vimos um carro dos talibãs. As pessoas começaram a correr. Eu sou realizadora e fiquei parada a observar. Foi surreal. Trabalhei em televisão e seguia o cinema de propaganda deles há dez anos. Quando visitava os meus pais, que viviam nas montanhas do centro do Afeganistão, atravessava zonas controladas pelos talibãs. Via soldados aqui e ali, mas nunca os tinha visto no centro de Cabul. Nunca imaginei.

Fui para casa e percebi que tudo tinha acabado. As minhas irmãs e os meus pais vieram e juntámo-nos todos. Não saí durante dois ou três dias. A zona onde vivia era vibrante, cheia de cafés e restaurantes. De repente estava vazia. Queria sair, mas não sabia o que vestir.

Tinha uma burca em casa, mas não queria usá-la antes de ser obrigada. Depois de três dias, vi uma mulher na rua e ganhei coragem.

Fomos para o aeroporto. A minha produtora e outras pessoas do cinema tentavam pôr o meu nome em listas para sair. Estava com a minha família e toda a gente queria ajudar-me a mim, mas não à minha família. Eu dizia: posso sair mais tarde, mas a minha família é importante. Quem é que se importa com os meus pais, agricultores das montanhas? Eu era o bilhete para os tirar de lá.

Depois de oito ou nove dias, estivemos 72 horas no aeroporto. Passámos o checkpoint, fomos para França durante três semanas e depois viemos para a Alemanha.

Foi sempre claro para ti que ias sair, ou consideraste ficar?

O 15 de Agosto foi um longo processo. Desde 2012 que se falava da saída das tropas americanas. Era uma conversa constante.

Em 2014, um ano horrível para mim, saiu um grande número de tropas. Tinha acabado de sair da televisão e queria fazer a minha primeira longa-metragem. Uma produtora alemã viajou comigo ao Afeganistão.

Para mim era casa; para ela era um país inseguro, em guerra. Não queria arriscar com uma equipa europeia. Houve eleições que correram mal. Ao mesmo tempo, muita gente saiu do país, incluindo a classe média de Cabul. Fiquei presa lá. Durante um ano quase não saía porque havia ataques suicidas em supermercados, restaurantes, motas. Disparavam contra jornalistas e funcionários públicos. Não era seguro. E todos os meus amigos tinham ido embora.

Não tinha dinheiro, não conseguia filmar, e a produtora não queria voltar. Psicologicamente foi uma tortura.

Desde então, a pergunta era sempre a mesma: sair ou ficar? Com passaporte afegão, ninguém quer dar visto. Eu confundia as pessoas porque viajava e voltava. Achavam que eu ficava porque ganhava muito dinheiro. Não era verdade. Sempre fui pobre.

O meu cinema é sobre a vida quotidiana. Mesmo sem filmar no Afeganistão, vivia lá, digeria o que acontecia e escrevia. Fazia casting no Afeganistão e levava as pessoas para filmar noutros países, como o Tajiquistão.

Em 2021 fiz 30 anos e comprei um apartamento com todo o dinheiro que tinha ganho com o The Orphanage e a escrita do No Good Men. Queria pôr fim à pergunta: saio ou fico? Fico. Esta é a vida que escolhi.

Oito meses depois, o país colapsou e tive de deixar o meu apartamento.

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