11 de setembro de 1973: enquanto o golpe militar que irá colocar Augusto Pinochet no poder toma conta do Chile, o capitão Jorge Silva recebe uma ordem que marca a sua vida. Ele tem de transformar a Academia da Força Aérea num centro de detenção e tortura. Em Hangar Rojo (Red Hangar), na competição Perspectives da Berlinale, Juan Pablo Sallato, filmando a preto e branco na sua primeira longa-metragem, visita esse momento, não à procura de heróis, nem tão pouco de vilões caricaturais.
O que lhe interessa, como descobrimos nesta entrevista executada na Berlinale, é caminhar por um finíssimo território moral cinzento onde a obediência pode matar tanto quanto a desobediência. É que a chegada do coronel Jahn, um rival com poder absoluto, força Silva a confrontar a sua consciência enquanto os hangares se enchem de prisioneiros.
Baseado em factos reais e construído num passo de thriller, que contraria o biopic clássico, Hangar Rojo expõe os mecanismos do aparelho militar durante as ditaduras latino-americanas e questiona o preço humano das decisões.
Existe a questão da autoridade, mas simultaneamente sobre a obediência de quem “só cumpre ordens. O que é mais lhe deu impulso, o mostrar o lado da obediência, neste caso de alguém inserido no exército, ou o lado autoritário do regime e da própria instituição?
Acho que o coração do filme é precisamente essa pergunta. O conflito com a sua instituição. Os militares obedecem a ordens, o general diz que tens de fazer aquilo, tens de o fazer. E depois existe a tua consciência, a própria ética, porque o Jorge Silva é um tipo com pensamento crítico. Talvez essa seja a sua diferença em relação a alguns dos seus companheiros.
Acho que isso é uma parte do filme, e é uma pergunta que queremos colocar no ecrã. Não sei se tenho a resposta, mas é essa a pergunta que queremos pôr em jogo. Não é uma resposta fácil, porque se tens 18 anos, és soldado, vens do sul do Chile para Santiago, para a capital, e o teu coronel diz “faz”, talvez não faças, talvez digas “ok, não faço”, mas morres ali. Essa é a questão. Quão difícil é essa decisão para aquela pessoa naquele momento, no presente, não com o jornal de segunda-feira, como se diz na Argentina, numa analogia do futebol.
Queria colocar o público nesse momento, para sentir o que ele faria. Se eu fosse aquele tipo, ia ser o herói? Talvez não. Ia ter medo. É uma pergunta humana, válida.
Como descreveria o Jorge Silva? Era importante mostrar um ponto de vista de dentro do exército e a comunidade a partir de dentro?
Sim, a proposta era fazer sentir de forma subjectiva. Que o público sentisse no seu ombro o que estava a acontecer naquele momento preciso em que começa o drama no Chile, e que depois dura muitos anos. Mas isto é quando a violência ainda não estava institucionalizada, estava a começar. A ordem chega pela primeira vez àquele lugar. Ali seguiam-se ordens, não se davam.
A decisão foi ter a câmara aqui, no presente, no momento que estás a viver. Isso transmite a urgência da decisão. Não há tempo para pensar, é como um facto.
Os golpistas falavam de eleições livres no ano seguinte, falavam de marxismo contra democracia. Talvez algumas pessoas do exército tivessem a ilusão de que estavam a fazer algo de bom para a nação. Nós sabemos o que aconteceu com Pinochet, mas naquele momento, talvez existisse uma espécie de ilusão. Pode falar sobre a mente das pessoas do exército, da personagem principal e das pessoas à volta?
Tentámos pôr no filme uma situação que achamos real, ainda que seja ficção, sobre o que estava dentro de uma base militar. Há pessoas diferentes. Por exemplo, aquela personagem que diz “ok, é marxismo contra democracia, daqui a um ano vamos ter eleições”, representa a Democracia Cristã, um partido. Eles acreditavam nisso. Diziam: fantástico, eles vêm, depois vão-se embora e devolvem o poder para fazer outra eleição. Claro que isso não aconteceu. Isso representa a ingenuidade. Ou talvez não, nunca saberemos. Mas são humanos.Existem os brutalistas, os psicopatas, os normais, os fracos, o tipo que tem medo, o que não olha. Há muitos tipos de pessoas.
Convidamos o público a perguntar-se: quem sou eu? Nem todas as 200 pessoas que vão ver o filme são heróis. Claro que não. É por isso que as coisas acontecem no mundo. É humano. Para mim, o cinema tem de colocar perguntas, não dar respostas. Essa é a nossa intenção.
O filme parece fazer parte de uma corrente latino-americana que matiza a história dos anos 70 na América Latina. Quando se faz um biopic existem riscos: até onde se pode ter liberdade? Tiveram acesso a arquivos?
Este filme está inspirado num livro de Fernando Villagrán, que foi uma das pessoas salvas pelo Jorge Silva. Hannah Arendt, na investigação sobre Eichmann, falava disso. No meio de centenas de histórias de barbárie, havia a de um general nazi que ajudou pessoas e acabou fuzilado. Ela disse que era importante contar esse tipo de histórias, procurar algum tipo de humanidade na barbárie para voltarmos a acreditar em nós. Senão fechamos a porta por fora.
50 anos depois, acho que é preciso contar essas histórias também. Não são as únicas possíveis, mas é importante contá-las. No Chile não se tinha abordado o tema desde dentro dos militares. Houve documentários e livros, mas esta é a primeira longa-metragem.
Porque optou por filmar a preto e branco?
No livro, Fernando Villagrán escreveu que quando foi o golpe militar saiu ao Palácio de La Moneda e tudo lhe pareceu a preto e branco. Parti daí. Venho das artes plásticas, estudei arte, a pintura influencia-me, depois o documentário, o claro-escuro das decisões, a graça e a gravidade na humanidade, tudo isso é preto e branco. Pareceu-nos uma boa analogia visual.
É difícil porque somos humanos. Não sei se o cinema é a arma para isso, mas podemos tentar. É a história que queremos contar e a pergunta que queremos colocar.
Quão importante foi fazer este filme agora? Quer de alguma forma falar do agora através do passado?
Pensámos sempre nisso. Quando soubemos que estaríamos em Berlim, falámos e dissemos que este era o lugar certo para apresentar o filme. Não só pelo festival, mas pela cidade. Aqui o passado confronta-se constantemente. É isso que queremos fazer com o cinema: confrontar o presente. Este é o drama que aconteceu. Vamos continuar a pensar sobre isso. Pôr perguntas no ar para continuar a pensar e tentar não cometer os mesmos erros.


