Numa das cenas de Only Rebels Survive, o novo filme de Danielle Arbid, um homem que vive no mesmo prédio, em Beirute, que a viúva Suzanne (Hiam Abbass) afirma que a relação dela com Ousmane (Amine Benrachid), um migrante sudanês bastante mais novo, é algo que dá esperança a um mundo à beira do colapso. Essa pequena (grande) frase, que contraria toda a negatividade das pessoas à volta de Suzanne, sintetiza o espírito do filme, que abre a secção Panorama da Berlinale 2026, hoje, 12 de fevereiro.
Num certame que inaugura oficialmente com um filme oriundo de outro país em descalabro, o Afeganistão, No Good Men, Berlim envia uma mensagem clara e bem longe da alienação do tapete vermelho. Nenhum dos filmes que mostra se assume como dramalhão, ou até próximo do realismo social, mas antes circulam pelo território do romance, numa visão de esperança e resistência ao preconceito, racismo e intolerância religiosa.

“Ele é muçulmano, é negro. Ela é cristã. Há discriminação porque ele é negro, porque é muçulmano, porque ela é mais velha, porque é mulher e não pode fazer certas coisas depois de casada. Os dois são aterrorizados pela sociedade”, explicou Danielle Arbid ao C7nema, numa entrevista na Berlinale, acrescentando que “ela é palestiniana, ele é sudanês. São dois povos que hoje sofrem enormemente”. “Quem são as pessoas que mais sofrem neste planeta? Os palestinianos e os sudaneses… agora podem acrescentar os americanos”, acrescentou em tom sarcástico, numa referência aos EUA sob o comando de Donald Trump.
Sobre o elenco escolhido, Danielle recorda que Hiam Abbass é palestiniana e luta para existir enquanto povo, enquanto Amine atravessou a Líbia para chegar à Europa. “Este é um filme humilde, feito com pouco dinheiro. Tinha projetos maiores, franceses, talvez os faça mais tarde. Mas este é um dos meus trabalhos mais importantes. É simples, terno.”
Abbass acrescentou: “Vimos de culturas diferentes do mundo ocidental. Muitas vezes aquilo que vivemos parece impossível porque não está nos códigos da sociedade ocidental. Mas é sobre seres humanos. É sobre resistência diária. Não se calcula o amor. Vive-se com emoção. É sobre como sobreviver ao amor nesta situação.”
Apesar de a ação decorrer em Beirute, devido ao conflito israelo-palestiniano foi impossível filmar no Líbano, algo que a cineasta explica logo no início da obra. Curiosamente, há cinco anos a realizadora ponderou desenvolver esta história em França, imaginando Catherine Deneuve apaixonada por um sírio. “Mas pensei: quem se importaria? Hoje percebo que o filme fala mais do Ocidente do que do Médio Oriente. O racismo hoje é flagrante. Já ninguém esconde. Mostram-no com orgulho. Depois de Gaza, depois do regresso de Trump… tudo ficou exposto (…) O meu filme é sobre duas almas solitárias que se encontraram e viveram o amor nas condições que os rodeavam diariamente até chegarem onde chegaram. Não existe um método para amar. Normalmente não deveriam estar juntos. Mas os poetas descrevem o amor à sua maneira. O amor é uma forma de resistência. Este filme é um gesto de resistência. Foi feito quando o Líbano estava a ser bombardeado pelos israelitas. É resistir à queda. Eles resistem. O filme fala disso.”
A Berlinale termina a 23 de fevereiro.


