Vencedor do troféu Redentor de Melhor Filme no Festival do Rio de 2025, Pequenas Criaturas só terá a sua estreia comercial no país de origem, o Brasil, no dia 30 de abril. Ainda assim, ao longo dos últimos dez dias, o filme não saiu do radar das primeiras grandes maratonas cinéfilas do ano, tanto no seu território natal como na Europa. Ambientado na década de 1980, o drama realizado por Anne Pinheiro Guimarães integrou a secção Ingmar Bergman do Göteborg Film Festival, encerrado no passado domingo, na Suécia. Destacou-se igualmente na sua passagem pela Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, onde mobilizou a praça central da cidade numa exibição ao ar livre, graças à sua delicada reconstituição histórica, reforçada pela direção de arte de Claudia Andrade.
Cercada de compromissos com telenovelas da TV Globo, a protagonista Carolina Dieckmann raramente se dedica ao cinema. No entanto, sempre que leva o seu talento ao grande ecrã — como em Onde Andará Dulce Veiga?, O Silêncio do Céu ou (Des)Controle —, a atriz enfrenta narrativas autorais com um evidente apetite pela investigação. É um dos principais motores de Pequenas Criaturas, entendido aqui como uma cartografia de desamparos, situada na Brasília da redemocratização, já depois do movimento das Diretas Já! e do fim do regime militar.
Com notável destreza na construção de uma atmosfera intimista, Anne Pinheiro Guimarães compõe um painel de cicatrizes sentimentais no Distrito Federal brasileiro de 1986, a partir da luta de Helena (Dieckmann) para manter os filhos unidos num contexto de solidão extrema, após uma mudança para uma cidade onde não possuía qualquer rede de apoio. O ator Fernando Eiras irrompe na narrativa ao dar corpo a um vizinho… digamos… singular.
Na conversa que se segue, Anne explica ao C7 como estruturou o seu olhar sobre uma época de reconfiguração simbólica na América do Sul, numa produção da Bananeira Filmes.

Brasília é um nome que evoca capital, mas se por um lado é a cabeça (política) do país, é também o seu coração — o órgão que bate mais forte no inventário de afetos quebrados que constrói no filme. Ao cartografar solidões e recomeços, de que forma essa capital, essa Brasília, pode ser vista como uma personagem?
Sim, sem dúvida. Brasília é uma personagem muito importante no filme, praticamente uma protagonista. Acredito que esta história não faria tanto sentido se fosse passada noutro lugar. A geografia e o urbanismo moldam a forma como as pessoas se relacionam e, em Brasília, por ser uma cidade sem passeios, ampla, pensada para os automóveis, os encontros tornam-se muito mais difíceis. É uma cidade muito peculiar, muito diferente de todas as outras, o que causa estranhamento em quem chega e aumenta a sensação de isolamento — ainda mais nos anos 1980, antes da internet. Além disso, o filme decorre em 1986, um momento de limbo do ponto de vista da política nacional, o que espelha o estado de espírito da personagem da Carolina Dieckmann.
Numa cidade famosa por ter um dos céus mais bonitos do mundo, como foi pensada a luz na direção de fotografia?
O céu e a luz de Brasília são únicos e sempre fizeram parte da conceção narrativa da história, funcionando como eixo central da fotografia. Isso está presente tanto nos enquadramentos, com muito espaço negativo, como na escolha do formato 1:2.35, que ajuda a sublinhar a vastidão do céu e o isolamento das personagens. Procurámos sempre trazer a luz de Brasília para dentro do filme, quer nas cenas em que a luz entra rasgando o interior do carro, quer nos espaços interiores.
Até que ponto esse universo de amizades súbitas e parentescos improvisados, à luz de uma mãe combativa, reflete as formas de amar dos anos 1980 — e até que ponto esses modelos de afeto se prolongam até ao presente?
O filme é inteiramente sobre os afetos e sobre a forma como eles se constroem, mesmo numa cidade onde os encontros são difíceis. As personagens são solitárias, cada uma à sua maneira, mas têm sede de ligação e acabam, no final, por formar uma espécie de família de desgarrados emocionais. Nesse sentido, acho que isso continua muito atual. Hoje temos a internet e as redes sociais, mas muitas vezes elas mascaram — ou até exacerbam — a solidão e o isolamento.
Onde — e de que forma — entra o trabalho com Carolina Dieckmann na construção do olhar sobre a maternidade no filme?
Quando vi a Carolina Dieckmann em O Silêncio do Céu, do Marco Dutra, percebi que ela seria perfeita para o papel da Helena, que exigia uma interpretação delicada de emoções contidas. Trabalhar com a Carolina foi um presente, tanto pelo talento como pelo profissionalismo, pela dedicação e pela amizade. No que diz respeito à maternidade, eu e ela temos idades semelhantes, somos mães e passámos por experiências parecidas, o que ajudou muito a aceder às complexidades da personagem.

