Produzido com um orçamento baixíssimo, sob o endosso do prémio Cine en Construcción do Festival de San Sebastián, em Espanha, Proibido Proibir completa 20 anos e assinala duas décadas de excelência com uma exibição em televisão generalista, na TV Brasil, este domingo (às 21h, hora de Brasília). Sempre que é projetado, este filme, que catapultou a carreira cinematográfica de Caio Blat para outro patamar, reescreve um período crucial da História — e do cinema — do seu país.
A narrativa eletrizante da produção realizada por Jorge Durán impôs-se como uma radiografia certeira das inquietações políticas do primeiro mandato de Lula na presidência, vividas na periferia do Rio de Janeiro. Visto ou revisto hoje, o argumento fala de um Rio periférico, da Zona Norte e da Ilha do Governador, com uma configuração social hostil, assolada por investidas da ala mais corrupta da polícia sobre comunidades pobres, registando uma época em que ainda não se falava de milícias com o tom de alerta que essa palavra carrega hoje.
O seu regresso neste fim de semana coincide com um momento de forte ebulição profissional de Blat, que divide o protagonismo com Maria Flor e Alexandre Rodrigues, ambos em estado de graça em cena.

um médico em formação mobiliza “Proibido Proibir”
Neste momento, o ator está em temporada no Teatro Carlos Gomes, um dos mais tradicionais palcos do Rio de Janeiro, com uma encenação de Os Irmãos Karamázov, a partir de Dostoiévski. A fotografia acima, captada por Rafael Bougleux, é do seu desempenho no espetáculo, do qual é codiretor, numa encenação a quatro mãos com Marina Vianna. Tem ainda uma nova novela em streaming, na HBO Max, intitulada Beleza Fatal. Participou também em mais duas longas-metragens, sobre as quais fala na entrevista abaixo, com a Rússia na cabeça.
Ao assinar a codireção com Marina Vianna, o ator paulista canalizou as suas inquietações sobre o Brasil dos anos 2020 para personagens de uma pátria czarista.
“Esse ‘desrespeito’ nosso, esse gesto de rasgar Os Irmãos Karamázov e criar a nossa própria versão, de forma muito coletiva, foi essencial. Marina Vianna, que é uma professora incrível e uma encenadora extraordinária, foi fundamental, e nós construímos uma parceria muito bonita. A criatividade da Luísa Arraes, uma das idealizadoras da peça, foi decisiva. Ela é uma atriz brilhante, mas também propõe muito na encenação e interfere diretamente na produção. E também a Maria Duarte, que é mais do que produtora, é idealizadora, trouxe esse desafio de incluir a língua gestual na encenação, ampliando o acesso de todos ao espetáculo. Sem ela, o projeto não teria saído do papel”, explica Blat, com entusiasmo, ao ler as perguntas do C7nema relativas à permanência de Proibido Proibir no radar do público brasileiro.
Na altura do seu lançamento, Cidade de Deus (2002) fez explodir a vaga do favela movie como vertente estética pelo mundo fora, mas o realizador de Proibido Proibir, um chileno radicado no Brasil, iniciou o projeto por volta de 2004, há exatamente 20 anos, à procura de outra ótica, mais poética. Trazia no currículo um historial de guiões aclamados — entre eles Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia —, mas não realizava nada desde 1986, quando tomou de assalto as salas do país com A Cor do Seu Destino.
As memórias afetivas do seu tempo de faculdade, como estudante de Teatro em Santiago, a sua cidade natal, serviram de bússola para que Durán retratasse as cicatrizes cariocas a partir de uma perspetiva universitária, assumindo o Fundão, via UFRJ, como epicentro dramatúrgico. Em vez de um western na favela, preferiu narrar uma história de amor, num triângulo afetivo que trouxesse entre os seus interditos a brutalidade do crime. Desafiou mais uma convenção numa época em que o cinema carioca se confinava à Zona Sul ou, no máximo, ao polo audiovisual de Jacarepaguá e a alguns recantos da Barra: filmou na Zona Norte, sob as bênçãos da Padroeira da Penha.
Quando Proibido Proibir foi exibido nos Estados Unidos — com direito a prémio para Blat no Festival de Cinema Brasileiro de Miami —, a crítica norte-americana classificou-o como “um drama excitante e imprevisível, com um argumento que não força situações”. “É cool e irreverente”, escreveu a Variety ao analisar a ciranda amorosa que une o aluno de Medicina Paulo (Blat, sublime), a estudante de Arquitetura Letícia (Maria Flor) e o finalista de Ciências Sociais Leon (Alexandre Rodrigues, o Buscapé de Cidade de Deus). O Jules et Jim suburbano entre eles colide com a luta de Leon para proteger uma adolescente jurada de morte pela polícia depois de testemunhar um ato de corrupção. A direção de fotografia é assinada por Luis Abramo.
Na conversa que se segue, Blat deambula entre a paisagem russa do século XIX, o Rio periférico de 2006 e o seu próprio porvir.
Semanalmente, em solo brasileiro, a TV Brasil tem repetido o filme de culto de Jorge Durán, Proibido Proibir, que está a completar 20 anos. Haverá nova exibição este domingo. Esse filme chegou num momento de ebulição na sua carreira. Qual foi o maior legado dessa obra?
Era um filme sobre universitários. Eu usava aquela barba, tinha acabado de chegar de Cuba, havia essa figura meio Che Guevara, meio revolucionária, essa ideia de amor livre. Foi um dos primeiros filmes em que fui protagonista e teve um peso enorme na minha carreira. Foi também um dos últimos filmados em película, em 35 mm, o que torna tudo ainda mais especial para mim. Proibido Proibir foi importante nos festivais e levou-me a várias mostras pelo mundo, não necessariamente as maiores, mas festivais relevantes. O filme explodiu em França, onde ficou um ano em cartaz. Ganhou vários prémios e levou-me a San Sebastián. Foi um dos momentos em que descobri a força do cinema brasileiro e a longevidade que um filme pode ter. Está ali o registo de nós, jovens, a sonhar fazer cinema, a sonhar mudar o Brasil, a sonhar transformar as relações e a forma de amar. Esse registo permanece.
De que forma a Rússia revisitadas por si no teatro, em Os Irmãos Karamázov, espelha as inquietações da América Latina que hoje se impõem?
A Rússia dos Karamázov era uma Rússia pré-revolucionária, em que começavam a formar-se grupos anarquistas e socialistas, um país empobrecido à beira de uma revolução. O Brasil dos últimos anos, desde 2013, também é um país fraturado, com manifestações constantes e disputas políticas intensas. Há muitos paralelos. Existe também a questão de uma religião muito poderosa, que influenciava profundamente as pessoas. Isso dialoga com o Brasil, um país muito religioso, onde uma fé cresce, se envolve na política e atravessa várias esferas da vida social. Há falas da peça sobre a Rússia que cabem perfeitamente quando pensamos no Brasil de hoje. A Rússia vivia sob um regime de servidão, com pessoas praticamente escravizadas. O Brasil é um país fundado na escravatura. Há uma fala do Fiódor que considero sempre muito forte, porque nunca sei exatamente de que país ele está a falar.
Quais são os seus próximos passos no teatro, na televisão e no cinema em 2026?
Começo 2026 a dirigir uma nova peça, uma adaptação de Kafka, Um Artista da Fome. É um dos últimos textos que ele escreveu. Kafka já estava a morrer de tuberculose quando escreveu alguns contos bastante obscuros sobre a condição do artista. Vou realizar um sonho importante, que é trabalhar com o meu primo Ricardo Blat, um dos maiores atores de teatro do país. O texto é adaptado por Rogério Blat, também meu primo. Estreamos em março, em São Paulo, no Sesc Bom Retiro. Os Irmãos Karamázov continua em cartaz pelo Brasil e acabei de concluir dois filmes.
Um deles é Justino. Qual é a sua importância para si?
É um retrato profundo de um aspeto do Brasil: a religiosidade. Fala do universo evangélico. Trabalhar com José Eduardo Belmonte é sempre especial. Christian Malheiros está comovente. Eu faço a antagonista. Filmámos em Salvador e em Lisboa. Estreia em 2026. E também fiz um filme com Maria Ribeiro.
Que projeto é esse?
É a história de um casal, dez anos depois da separação. Um filme de relações, dentro dessa tradição de Domingos Oliveira, Woody Allen e da Nouvelle Vague. Chama-se Depois e é realizado por Renata Paschoal. Assim, começo 2026 com dois lançamentos muito importantes para mim.

