Num ano marcado por uma forte concentração de estéticas africanas ligadas à luta antirracista e à imigração, o Festival de Marraquexe acolhe um dos grandes nomes dos debates decoloniais no cinema independente: Isaach de Bankolé. Aos 68 anos, o actor oriundo da Costa do Marfim protagoniza a mais recente longa-metragem da sua recorrente colaboradora, a cineasta francesa Claire Denis. Juntos, fazem de Cri des Gardes (A Cerca) uma súmula das violências históricas herdadas da colonização europeia. Lançado no TIFF e exibido em competição pela Concha de Ouro de San Sebastián, em Setembro, este drama fantasmagórico de forte pulsão política nasce da peça teatral de Bernard-Marie Koltès (1948-1989), Combat de Nègre et de Chiens, escrita em 1979, mas apenas encenada em 1982.
“Fui eu quem apresentou o Bernard à Claire, pouco antes de ele entrar numa espiral de doença e morrer, no final dos anos 1980, quando ela filmou o Chocolat comigo, na República dos Camarões. Percebi que era importante que se conhecessem e usei uma passagem aérea a que tinha direito, pelo acordo com a produção dessa longa-metragem, para o levar até nós”, contou Bankolé ao C7nema em San Sebastián.
Na versão audiovisual concebida por Claire Denis, a dramaturgia de Koltès ganha vida em barracões de um estaleiro de obras numa zona rural da África Ocidental não especificada geograficamente. Numa área de contentores de operários, Horn, o chefe da obra (Matt Dillon), e Cal, um jovem engenheiro (Tom Blyth), partilham o alojamento por detrás da porta dupla das instalações. Léonie, namorada de Horn (Mia McKenna-Bruce), chega de Inglaterra para se reunir com eles na noite em que um homem (interpretado por Isaach) surge junto à vedação. Chama-se Alboury. Como um espectro na escuridão, exige o corpo do irmão, que morreu nesse mesmo dia na construção, sem qualquer direito laboral reconhecido. Ele irá assombrar os dois homens ao longo de toda a noite, até que lhe entreguem o cadáver do familiar, enquanto Léonie assiste ao desastre que se desenrola diante dos seus olhos.

“O filme da Claire Denis funciona como um ensaio intemporal sobre a colonização e as suas sequelas, numa demarcação de espaço dramático em que Alboury não é um anjo da morte, nem uma assassina. Ambiciona apenas reaver o que é seu por direito. Eu falo iorubá, língua que aprendi com os meus pais, e levo essa sonoridade para o filme, como indício de ancestralidades africanas”, explicou Isaach, que já contracenou com 007 nos perigos enfrentados pelo James Bond de Daniel Craig em Casino Royale (2006).
Na grande indústria, passou também por Wakanda, em Black Panther (2018), como um dos súbditos do rei T’Challa, o Pantera Negra. A HBO Max estreou recentemente uma nova série com a sua participação, ao lado de Mark Ruffalo: Task. Já The Brutalist, que concorreu a dez Óscares em Março, contou com a presença de Isaach no papel da amiga mais fiel do arquitecto visionário interpretado por Adrien Brody. Ainda assim, é sobretudo no cinema de autor que a sua imagem permanece — e é, até, cultuada —, em especial pelas colaborações com Jim Jarmusch e Claire Denis, entre o final dos anos 1980 e o início da década de 2010. Night on Earth (1991), Ghost Dog (1999), Coffee and Cigarettes (2003) e The Limits of Control (2009) tornaram-no peça central da trupe de Jarmusch, ao lado de Tom Waits, Tilda Swinton e Bill Murray. Com Denis, houve o crucial White Material (2009) e, agora, Cri des Gardes.
“Não é fácil a vida de quem é artista e não pertence ao mainstream, mas tenho compromissos com a minha origem africana, com a identidade negra e com a diáspora. África é o mundo”, afirma Isaach. “Acredito num cinema que se abre à troca, à colaboração artística.”
O Festival de Marraquexe termina este sábado, com a entrega da Estrela de Ouro e demais distinções, e a projecção de Palestine 36.

