Integrante do elenco de Vie Privée (2025), onde interpreta o objecto de fetiche investigativo da psiquiatra encarnada por Jodie Foster, a belga Virginie Efira regressou ao Festival de Marraquexe — onde foi jurada em 2024 — agora para participar nas Conversas, a secção mais popular deste evento norte-africano, em que estrelas do mundo inteiro falam das suas carreiras e das suas vidas em longas entrevistas. Efira dialogou com o público marroquino e com convidados de vários países na manhã de domingo, ao lado da actriz ítalo-francesa Chiara Mastroianni.
Para além desse compromisso e da promoção do aclamado thriller cómico protagonizado por Jodie Foster e filmado por Rebecca Zlotowski, Efira aproveitou a viagem marroquina para falar de Soudain (2025), longa-metragem do vencedor do Óscar Ryûsuke Hamaguchi, realizador de Drive My Car (2021). A atriz aprendeu japonês para trabalhar nesta produção, centrada em dois académicos que trocam cartas sobre o acaso e o risco. Quando um deles adoece, a correspondência académica evolui para discussões íntimas sobre a mortalidade, e nasce uma ligação mais profunda.
O C7nema conversou com Efira durante a maratona cinéfila de Marraquexe e percorreu com ela as suas escolhas artísticas.

Como foi trabalhar com Ryûsuke Hamaguchi?
Ele é um dos melhores formalistas actualmente no Cinema, com muito a dizer sobre a sociedade pelo prisma da intimidade. Transforma coisas simples num debate inteligente. Tudo começa com um processo repetitivo de leitura no qual as emoções não estão à superfície. As idas e vindas no texto do guião vão revelando camadas.
Como é explorares o Cinema através de outra cultura, pelos olhos de artistas estrangeiros como Hamaguchi e como o iraniano Asghar Farhadi, com quem acabou de filmar Histoires Parallèles?
A meu ver, Hamaguchi fez um filme francês. Soudain (2025) é francês e japonês misturado. O filme com Asghar Farhadi é como um sonho. Sempre que se fala de artistas europeus a filmarem no exterior, pensa-se logo nos Estados Unidos. Não é o meu caso. Claro que há grandes filmes na América, mas, quando trabalhas com Farhadi, com Hamaguchi, estás diante de um Cinema livre.
Que lições recebeste dos grandes mestres — entre eles o holandês Paul Verhoeven — com quem trabalhaste nos últimos cinco anos? E onde entra Rebecca Zlotowski nesse percurso?
Hamaguchi trabalha nas franjas do que está a acontecer, num processo em que um filme não é apenas “acção” e “corta”. O filme dele começa antes, na idealização do projecto. Com ele, sentes o colectivo. Não estás só na tua pequena parte. Com Paul Verhoeven, outro imenso cineasta, aprendes a desfazer-te do ego, a perceber que o filme não é sobre o actor. É maior do que tu. Nos grandes realizadores vejo o conjunto… a equipa. Farhadi, por exemplo, pensa os planos muito antes. Dá menos liberdade ao actor… muito menos. Tens de encontrar o teu lugar dentro de um plano perfeitamente desenhado. Perguntaste pela Rebecca… Ela pertence à esfera da compreensão íntima. Quando há intimidade, admiração, afeição, não há necessidade de falar muito no set. Há continuidade na troca. Com Justine Triet foi assim. No início do meu trabalho com ela, formou-se uma ligação rara, na qual preciso de entender mais o filme como um todo do que a personagem.
Como foi filmar com Paul Verhoeven cenas explícitas?
Em Benedetta (2021) tivemos uma cena de sexo que levou dois dias a ser filmada. Os técnicos nunca tinham visto alguém agradecer ao realizador por isso. Não gosto de cenas de sexo quando são apenas ilustrações. Verhoeven tem tudo em storyboards. Não te trai. É um homem bom, vês isso nos olhos. E continua com olhos jovens, ainda um adolescente.
Existe um método Efira de interpretação?
Não. Às vezes, dependendo do filme, há trabalhos específicos. Com Rebecca, por exemplo, existe quase uma psicanálise da personagem. Com a maioria dos cineastas, a questão mais urgente é sentir. É importante conservar o mistério e o segredo da personagem. Aprendi isso com Paul Verhoeven. No set, ele diz sempre “talvez seja assim, talvez não”. Em Benedetta (2021), filmava e dizia: “talvez ela seja culpada, talvez seja inocente”. Eu tinha o meu próprio filme na cabeça. Com ele, tudo é liberdade total.
O que te leva a aceitar projectos mais autorais, pautados pela diversidade?
Fazia televisão popular, comédia, outro caminho. Achava que talvez nunca cruzasse com artistas como ele e Rebecca Zlotowski. No caso dela, sabia que tínhamos algo a dizer juntas. Quando digo sim ou não a um projecto, é isso que pesa: tenho algo a dizer junto de determinada cineasta que me convoca? Com a Rebecca, temos muito a dizer.

