Após a estreia em Tribeca e a passagem por Karlovy Vary e pelo MOTELx, Dragonfly chega agora ao Festival do Cairo trazendo consigo uma viagem ao território intimista, onde o quotidiano se transforma lentamente em inquietação psicológica.
Uma mulher idosa (Brenda Blethyn) vive sozinha, mas depois de um acidente vê a sua vizinha (Andrea Riseborough) aproximar-se, oferecendo ajuda e companhia. Mas quem espera um drama social típico do cinema britânico, será surpreendido, porque o realizador Paul Andrew Williams troca as voltas à história e avança para o território do thriller e até terror.
Nesta conversa no Festival do Cairo, o realizador de filmes como London to Brighton (2006), The Cottage (2008) e Song for Marion (2012) fala de fragilidade emocional, tensões silenciosas e dos desafios de fazer (e ver) cinema hoje.

Vou começar por perguntar como surgiu esta ideia. Vivemos tempos em que muitas pessoas são idosas e vivem sozinhas. E sim, há aqui uma questão sobre as instituições que não fazem o seu trabalho.
Escrevi o filme durante a COVID. E foi, primeiro, algo muito prático, como fazer um filme com muito poucas pessoas e em muito poucos locais, para que o conseguíssemos financiar e concretizar fisicamente.
Estas personagens, como a Elsie (Brenda Blethyn), são baseadas um pouco na minha mãe, na minha avó e noutras coisas. E a Colleen (Andrea Riseborough) vem de diferentes pessoas que conheço e de diferentes elementos. Foi assim que nasceu o filme. Comecei a escrever sobre como se dariam e o que aconteceria. E a história foi evoluindo a partir daí.
Mas tens razão, o filme diz naturalmente algo sobre aquilo por que ela passa, sobre o que nos acontece quando estamos sozinhos e sobre o sistema de cuidados. E não é necessariamente contra as cuidadoras, mas contra o sistema.
Isolamento e solidão estão a tornar-se questões maiores, especialmente entre pessoas idosas…
E entre os jovens. Bem, estar sozinho não é solidão.
Podes sentir solidão numa família, num grupo, numa casa cheia. A solidão é sobre expressão, pertença, ser compreendido. E isso pode acontecer em qualquer lado.
Antes havia uma televisão numa casa. Todos viam o mesmo. Agora as empresas anunciam internet em todas as divisões, televisões em todos os quartos.
O que era uma coisa partilhada tornou-se seis coisas separadas. Ninguém vê nada junto. Mesmo em família. Isso cria um isolamento.
E disseste que, na criação da personagem, todos temos uma mãe ou avó a envelhecer. Quanto de ti existe nas personagens.
Estou em todas elas.
Portanto és uma mistura delas. E a ambiguidade também vem dos teus próprios dilemas?
Dizes que a ambiguidade pode vir das minhas dúvidas? Talvez. Acho que todos podemos ser bondosos, cruéis, tudo. E mudamos num instante.
Somos todos complexos, mesmo aqueles que parecem simples. Não acredito em pessoas descomplicadas. Estamos todos um bocado por todo o lado, só que alguns estão mais conscientes disso.
Mas gostas de trazer essa ambiguidade para os filmes.
Sim, acho que assim podemos formar a nossa própria opinião. Não quero que me digam o que pensar. Portanto, podes ver tudo com o teu próprio julgamento e a tua própria perspectiva. Tento deixar o público trabalhar.
Mas começaste a construir algo que parece quase um filme de realismo social no início, e depois evolui para thriller e terror.
É curioso porque muitas pessoas têm opiniões diferentes sobre o rumo do filme, porque acho que ninguém está à espera do final. Há pessoas que ficaram zangadas (risos).
Algumas ficam zangadas. Alguns gostam muito. Algumas percebem mesmo.
E para mim, o que acontece a estas personagens é o que justifica as ações delas no fim. E sim, é horrível. É horrível, mas às vezes a vida é horrível.
O teu filme é mais psicológico do que os anteriores. Os outros tinham mais violência física, mas aqui há violência psicológica porque não sabemos as intenções da própria personagem. Estás a tornar-te outra pessoa como autor?
Acho que depende sempre do filme.
Penso sempre em cada história. E acho que todos somos capazes de violência emocional, certo? A forma como isso se manifesta e quando se manifesta varia. E, neste caso, quando alguém chega ao ponto de “já chega, não aguento mais”.
Mas a questão sobre a Colleen é que ela é realmente bondosa e só precisa de alguém para que possa ser bondosa. Ela tem claramente uma fragilidade emocional, uma mentalidade quase infantil. E quando se magoam, agem como crianças.
Sim, alguns dos meus filmes têm violência, mas este tem mais violência emocional. Mais psicologia.
E o filme tem muitas questões simbólicas. Por exemplo, o título Dragonfly, e o cão, que explora esse lado da Colleen. Como trabalhaste estes elementos? O título surgiu-te logo?
Não, o título era outra coisa: Magpie.
Mas depois saiu um filme chamado Magpie. Então tivemos de mudar. Andámos un tempos a pensar em títulos.
E lembro-me de que as libélulas têm vidas muito curtas. E, mesmo assim, nesse tempo curto, têm algo incrível — voam, movem-se, são belíssimas. É como viver a melhor vida. E depois desaparecem. E, de certa forma, vejo isto assim: por um momento, elas têm uma ligação muito bonita. E depois…
Quanto ao cão, um cão ama alguém incondicionalmente, certo? Se és um cão, amas a pessoa que cuida de ti. E não pedes nada além de amor de volta. E comida e passeios. Portanto, ela era uma grande companheira para a Colleen. E ao mesmo tempo refletia como julgamos a Colleen, como julgamos quem tem cães, os nossos preconceitos.
Eu gosto de cães, por isso ele não me assusta. Mas se não gostares, não vais gostar dela. Mas, na realidade, a Dixie era amorosa.

O filme é muito atmosférico. Como construíste essa tensão? Foi no processo de escrita ou durante a rodagem?
O guião só teve uma versão. E depois, quando estás a filmar, sabes onde estão os momentos em que, se fosses espectador, dirias: “o que é que ela vai fazer?” ou “o que é que se passa?”.
Trabalhas assim: tentando ver como o público veria, e onde surgiria a tensão. Mas também só é tenso por causa do nosso julgamento.
Porque procuramos sempre provas que confirmem os nossos preconceitos. Por exemplo, ela recebe um postal, pede a caneta — e isso já é suficiente para acharmos que vai roubar. Temos a certeza. E ela não rouba.
Quando escreveste o guião, já tinhas as atrizes em mente?
Não. Nunca.
Porque se faço isso e depois elas não podem, não avanças. Neste nível, conseguir atrizes é muito difícil.
E tivemos sorte: a Brenda entrou duas semanas antes de começarmos. Mas a Andrea esteve ligada ao projeto durante muito tempo. É uma atriz brilhante. E a Andrea é brilhante.
Como foi a conversa convosco sobre o que querias do filme e o que ela podia trazer?
Falámos um pouco sobre a história e a personagem.
Mas não sobre aquela personagem em específico. Falámos sobre coisas gerais. E ela tinha uma ideia muito clara de como a personagem chegava onde chega. E eu disse: perfeito.
E a forma como a personagem ganha forma na cabeça dela — isso é dela. Ela foi extraordinária. Acho que o guião dizia muito.
Qual foi a coisa mais desafiante para ti neste filme? Escrever, financiar?
O financiamento foi terrível. Muito difícil.
Está a ficar mais difícil encontrar financiamento nos dias que correm?
Sim.
Sentes que há mais competição? E que agora, para além das salas, há o streaming?
É difícil. As pessoas precisam… analisam o guião. “É óptimo.” Óptimo. Depois: atrizes, datas, localizações, vendas… Tudo tem de estar alinhado. Se um elemento falha… pronto.
E quando tens tudo, se um elemento cai, lá tens de repor outra coisa.
Tens projectos que ficaram na gaveta por causa disso?
Sim, muitos. Projetos que pensei que iam avançar. Projectos que, dez dias antes de filmar, desapareceram.
Quando escreves um filme hoje, pensas no cinema ou já pensas no streaming?
Penso num filme. Apenas isso. Claro que quero que vá ao Cinema. Mas realisticamente falando, mais gente vê um filme em casa.
Se queres chegar ao público, mais gente vê televisão. Mas no streaming há tanto conteúdo que é impossível ver tudo. Não há tempo. Tens de escolher. E isso é esmagador: demasiada escolha.
Enquanto o Cinema é mais selectivo. E o bom do Cinema é essa experiência colectiva de que algumas pessoas falam. Isso é maravilhoso.
Gostas dessa experiência colectiva?
Eu? Pessoalmente? Não, porque odeio pessoas a falar. (risos)
Então vais ter problemas aqui se fores ver um filme no Cairo: toda a gente está com o smartphone na mão.
Bem, na sessão vou dizer: “por favor, pessoal, vim de longe. São só 90 minutos. Nada vai acontecer que exija o vosso telemóvel. Concentrem-se.”
Com a tua carreira, como escolhes projectos hoje?
Depende. Televisão, se me quiserem. E depende do guião. Quem produz. Quem escreve.
És movido mais pela intuição ou tens um plano?
Depende. Se estou liso, a intuição fica para trás. Tenho de pagar a hipoteca e cuidar dos meus filhos, chega uma altura em que penso: que se lixe, faço o que for.
Precisas de dinheiro, não é? E isso é o mais difícil: é preciso ganhar dinheiro. Se fosse rico, se ganhasse a lotaria, fazia o que quisesse. Pagava eu os projetos.
Tens novos projectos?
Tenho alguns. Estou a tentar fazer um filme para o ano, e algumas séries. Escrevo para tentar…
Hoje em dia as pessoas querem algo como num Sudoku: as respostas na mesma página. Antes tinhas de ir ao fim do jornal. Agora querem tudo explicado na história.
Não querem pensar. Querem: “ah, claro”. “Sim.” Informação toda à frente.
Assim não há investimento, nem trabalho. Não usas o cérebro para reconstruir nada.
Eu prefiro que o espectador use o cérebro.

