A poderosa viagem sensorial de “Dandelion Odyssey”, o novo filme de Momoko Seto

(Fotos: Divulgação)

Filme de encerramento da Semana da Crítica e agora em exibição no Festival do Cairo, Dandelion Odyssey (Planètes) parte de uma premissa tão simples quanto radical: quatro aquênios de dente-de-leão sobrevivem a uma sucessão de explosões nucleares que reduzem a Terra a silêncio e cinza. Lançados para o cosmos, estes pequenos fragmentos de vida vegetal tornam-se refugiados intergalácticos, empurrados para um planeta desconhecido onde cada gesto de sobrevivência é uma tentativa de renascer.

No novo mundo onde aterram, nada lhes é familiar: o clima é hostil, a fauna reage com estranheza e violência e a flora local parece tão viva quanto ameaçadora. O que deveria ser apenas a procura de “um solo adequado à sobrevivência da sua espécie” transforma-se numa verdadeira odisseia existencial: como persistir?

É esta a proposta de Momoko Seto, cineasta nascida em Tóquio que mais tarde se mudou para França para estudar no Le Fresnoy. Realizadora no CNRS — o centro nacional de investigação científica — onde assina documentários, Momoko conduz-nos numa belíssima viagem de animação sem diálogos pelo espaço, revelando uma luta pela sobrevivência tão inesperada quanto sensorial.

Estivemos à conversa com a cineasta, que nos explicou um pouco mais sobre esta pérola de animação absolutamente singular.

Momoko Seto

Este é um filme muito bonito, mas começa com uma guerra nuclear. Esse medo do desaparecimento da Terra esteve presente durante a realização do filme?

Não usaria o termo medo. Diria mais como… evidência. Evidência de que os seres humanos podem — e desaparecem. Claro, estamos na Terra apenas por um período muito curto, certo? E eu queria mostrar isso. Essa é a única declaração política do filme. A única presença humana — para além da nossa ausência — são as três bombas nucleares.
Por isso era importante mostrar que a Terra, a nossa Terra, é destruída pelos humanos. É o que fazemos. Todos sabemos disso. Não é segredo.

Então não é medo — é um facto. E eu mostro isso, talvez não de forma suave. Depois, as sementes escapam. Vão para outro lugar. Já não há humanos — e isso não é necessariamente algo mau. É simplesmente assim. Trata-se de criar distância em relação ao antropocentrismo, porque somos demasiado arrogantes. Então, sim, apagamo-nos.

Muitos realizadores falam da necessidade de ultrapassar o humanismo. Escolheu seguir quatro sementes de dente-de-leão — personagens refugiadas, forçadas a fugir para outro planeta. Como desenvolveu os desafios que enfrentam ao longo da jornada?

Para o argumento, primeiro reuni todas as ideias que tinha. Por exemplo, queria incluir certas criaturas marinhas — como um girino predador que tenta comê-las. Queria também “atores” naturais: uma floresta e outras formas de vida estranhas. Já tinha essas imagens na cabeça.

Depois trabalhei com o argumentista Alain Layrac — escrevemos o argumento juntos — e ele ajudou a estruturar as tensões narrativas: os perigos, o suspense. É uma técnica clássica de narrativa, certo? Manter o suspense, criar emoção. Assim trabalhámos.
Mas as ideias centrais — as criaturas, os cenários — vinham de mim. Essa era a minha visão.

Qual foi o maior desafio que enfrentou durante a escrita ou produção do filme? Foi difícil financiar?

Foi ao mesmo tempo difícil e não difícil. O filme custou 4,5 milhões de euros — muito pouco para uma animação,mas bastante para uma primeira longa-metragem. Tivemos sorte, mas faltaram-nos alguns euros, por isso tivemos de cortar algumas cenas e fazer ajustes orçamentais.

Mas o verdadeiro desafio — artístico — foi emocional: como fazer o público sentir algo por uma personagem que é apenas um pauzinho com penugens? Esse foi o maior desafio. Como criar empatia por algo tão minimal, não humano?

Visualmente, vem de um percurso nas artes visuais. O que gostaria de trazer para o cinema?

Quero ajudar a evoluir a linguagem do cinema. Para mim, o cinema é a ferramenta perfeita para mudar o nosso olhar, alterar o nosso ponto de vista. Permite-nos tornar-nos outra coisa.

A minha ideia era tornar-me numa semente — propor ao espectador: seja uma semente. Com o movimento de uma semente, com a sua leveza, com a sua fragilidade.
Quando movimenta uma câmara de drone como se fosse uma semente, ou quando usa uma objetiva macro para se aproximar da natureza — tão perto que vê os pequenos pêlos numa folha — deixa de ser humano. Passa a fazer parte de outra escala, de outro ritmo.
E o som também entra nisso. Que vibração ouve de uma semente? Não é a mesma que a nossa. Então o design sonoro também é uma interpretação — uma extensão dessa transformação. Juntos, imagem e som criam uma experiência total.

O cinema dá-nos a oportunidade — ainda que por uma hora, uma hora e quinze minutos — de sermos algo diferente do humano. E é isso que quero trazer: uma nova visão da natureza, do não-humano, capaz de provocar novas emoções e um novo modo de ver o mundo.

Quanto à animação: por que escolheu especificamente o 3D?

Queria que as sementes parecessem fotorrealistas. A animação tradicional não consegue esse nível de detalhe.

Com o 3D, conseguimos modelar as sementes com precisão, com texturas que parecem reais, quase táteis. Foi por isso que escolhi o 3D — era a única forma de alcançar esse realismo.

Vai continuar a usar 3D, ou pretende explorar outras formas?

Gostaria de usar cada vez menos 3D no futuro e mais imagens reais. Talvez surjam novas tecnologias que me permitam filmar sementes verdadeiras em movimento — reais, a moverem-se naturalmente. Isso seria ideal.

E quanto à inteligência artificial? Vê-a como ferramenta ou ameaça?

A IA pode ajudar a aliviar algumas partes tediosas do processo — como remover fundos azuis ou fazer trabalhos técnicos repetitivos. Pode tornar essas tarefas mais rápidas e eficientes.  Mas não acredito que a IA possa inventar algo verdadeiramente novo. 

Por definição, a IA trabalha a partir de dados existentes. Quando se quer fazer algo vanguardista, já não é uma ferramenta — arrisca-se a tornar-se genérico. Aprende, evolui, mas reproduz.

O que me interessa é realizar a minha fantasia — não a de outra pessoa, não uma média coletiva. Quero criar algo original.

Já tem um novo projeto em mente?

Sim, gostaria muito de continuar a trabalhar, a explorar as plantas — especialmente os seus comportamentos, as suas formas de ser.

A sexualidade das plantas, por exemplo, é incrível. É vanguardista. Têm formas múltiplas, fluidas, de amar, de se ligarem. Acho que temos muito a aprender com elas — sobre liberdade, sobre novos modelos de existência.

Investiga profundamente estes mundos? Por exemplo, estudou os dentes-de-leão a fundo?

Sim, absolutamente. Vou muitas vezes à biblioteca, à procura de livros sobre dentes-de-leão. Pensamos todos que os conhecemos porque são tão comuns. Mas, por exemplo: os dentes-de-leão dormem. E dormem cedo — às 17h, começam a fechar as flores e a inclinar-se ligeiramente, como se estivessem a deitar-se, até ao dia seguinte.

Esse tipo de comportamento — já parece ficção para mim. É poético. É vivo.

Tem um plano de carreira, ou é mais intuitivo?

Não quero ser o tipo de pessoa que quase detesto — alguém demasiado voltado para a carreira, sempre a saltar para a próxima oportunidade.

Acho que o que há de belo na criação não é chegar ao topo da pirâmide, mas fazer algo novo. É isso que me atrai. É a coisa mais importante.

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