Entre arquivos e confissões: “Souraya, Mon Amour”

(Fotos: Divulgação)

Exibido com pompa e circunstância no Festival do Cairo, Souraya Mon Amour colocou imediatamente o filme no centro de uma conversa maior sobre o íntimo e o pessoal, em confluência com a preservação, o arquivo e a identidade no Cinema libanês contemporâneo. Realizado por Nicolas Khoury, o documentário apresenta-se como uma escuta prolongada de Souraya Baghdadi, viúva do cineasta Maroun Baghdadi, figura maior da história cinematográfica do Líbano. “Por meio de imagens de arquivo e recordações pessoais, Souraya revisita a sua vida com Maroun, explorando o vínculo duradouro entre ambos e o espírito criativo que moldou o caminho que partilharam.”

Nicolas Khoury

Numa conversa com o C7nema, o realizador relata que o impulso inicial surgiu quando viu Souraya — que ainda não conhecia — apresentar uma projeção de um filme restaurado de Maroun. “Foi ali que a vi pela primeira vez. E, espontaneamente, fiquei muito curioso, quis saber mais sobre ela”, explica. Esse impulso não o largou: “Depois da sessão continuei a pensar nela e quis contactá-la. Uns dias depois enviei-lhe uma mensagem no Facebook a dizer que queria falar com ela, conhecer melhor a história, entender as relações.” A presença dela, “30 anos depois, naquela sessão de Maroun Baghdadi”, impressionou-o profundamente. Foi assim que tudo começou.

A importância histórica de Maroun Baghdadi, cineasta cujo nome continua a ecoar no Líbano, deu ao realizador um ponto de partida emocional e cultural. “Maroun Baghdadi é um realizador muito importante. Na universidade ouvimos falar muito dele. Os seus filmes, o arquivo deles, são quase a nossa história, porque não há outra forma tão clara de ver a guerra do Líbano.” Esta consciência do passado — e da fragilidade da sua preservação — atravessa o filme.

Mas este não é um filme sobre ele, e sim sobre Souraya e a sua conexão com o companheiro. Para Souraya Baghdadi, o telefonema de Khoury chegou num momento improvável. A própria descreve-o como uma espécie de suspensão no tempo: “Estava com COVID e recebi este telefonema. Foi invulgar… Estava numa fase em que andava a rever os arquivos do Mahmoud, a escrever, a tentar fazer algo com aquilo. E reler aquelas coisas mexeu muito comigo.” O inesperado da proposta funcionou como abertura interna: “Quando ele apareceu com a ideia de fazer algo sobre mim, por uma vez, eu pensei: ‘Uau.’ O timing foi perfeito.” E acrescenta que, ao desligar a chamada, “senti-me melhor”. A forma de Khoury, “delicada, não invasiva”, convenceu-a. “Adorei a ideia de não termos plano nenhum: só nos encontrar e falar. Para mim foi como uma terapia.”

Souraya Baghdadi

O filme constrói-se precisamente nesse espaço de confiança, onde a intimidade é explorada sem voyeurismo. Ainda assim, Souraya recorda o cansaço acumulado: “Tantas pessoas me procuraram para falar sobre o meu marido. Estava farta disso.” A postura de Khoury permitiu-lhe ressignificar essa exposição. O realizador confirma: “Quando perguntava se havia temas que não queria abordar, ela dizia sempre: ‘Não tenho problema com nada. Se faz parte da história, falamos.’ Nunca houve um ‘não’.” Esta ausência de barreiras deu ao filme a profundidade emocional e humana que agora apresenta.

A dimensão dos arquivos pessoais, acumulados ao longo de décadas, funciona como espinha dorsal e, ao mesmo tempo, como desafio. “Sim. Muitos, muitos. O que está no filme é quase nada. É uma seleção muito curta”, diz-nos. O processo de organização, admite o realizador, foi um dos maiores obstáculos. Khoury explica que queria evitar caminhos fáceis: não estamos aqui perante uma hagiografia, nem uma dramatização melodramática da viuvez. “Eu não queria cair na armadilha de fazer um discurso político direto ou de transformar isto numa tragédia dramatizada. (…) O foco era a relação — quem era aquele homem, quem era a Souraya — e seguir a minha história a partir daí.”

Souraya descreve todo o processo como uma reconciliação consigo própria: “Descobri também que nunca é tarde para reparar. Tenho passado 13 anos a reparar, reparar, compreender.”

Noutra direção, Souraya Mon Amour revela tanto a precariedade das estruturas de preservação quanto a força das iniciativas individuais. “No Líbano não há um arquivo nacional funcional. Tentou-se criar um durante décadas, mas nunca avançou. Precisamos de um lugar próprio, condições adequadas, equipas treinadas. E financiamento.” A insistência em manter viva a memória de Baghdadi — e de tantos outros cineastas — é aqui evidente.

O Festival do Cairo prossegue até ao dia 22 de novembro.

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