A experiência de mudar de casa já por si carrega níveis elevados de stress; quando o prédio para onde nos mudamos entra em obras, a ansiedade sobe ainda mais. Em Renovation (2025), o novo projeto da cineasta lituana Gabrielė Urbonaitė, é exatamente isso que acontece a Ilona, uma mulher que tenta construir estabilidade num edifício que, ironicamente, inicia um longo período de reparações precisamente quando ela mais procura ancorar-se.
Filmado em 16mm por Vytautas Katkus — diretor de fotografia de Toxic (2024), vencedor em Locarno, e realizador de The Visitor (2024), premiado em Karlovy Vary — o filme instala-se nesse território onde a vida urbana parece sólida, mas qualquer abalo revela fissuras profundas.
Aproveitando a passagem da obra pelo Festival do Cairo, sentámo-nos com Gabrielė Urbonaitė para perceber como capturou a poesia do quotidiano, num filme que ganha um duplo sentido: as obras do edifício tornam-se também metáfora das transformações iminentes na vida de Ilona, uma mulher prestes a atravessar a fronteira simbólica — e real — entre solteira e casada.

O termo “renovação” pesa muito no filme — tanto no edifício como na personagem principal. Tendo visto um filme de Krzysztof Kieślowski (Camera Buff/Amador, 1979) que a inspirou, como foi o processo de criar esta figura e integrá-la na narrativa?
Foi um processo longo. As personagens e a situação surgiram-me quase de imediato, mas no início tudo era mais leve, até cómico. Via o casal como profundamente incompatível, e à medida que fui reescrevendo e a passar mais tempo com eles, a perceber porque são assim, tudo ganhou mais camadas. A inspiração veio da minha vida e da observação de amigos. A metáfora da “renovação” não estava lá no início — começou como circunstância — mas cresceu com o próprio guião. Percebi que todas as personagens precisavam de uma renovação interior.
Quanto de si existe nestas personagens?
Alguma coisa. Quando comecei a escrever, sentia muito aquela pressão dos 30 anos. Tinha 26 e parecia-me que tinha de tomar decisões definitivas. Com o tempo parece tolo, mas na altura era real: dúvidas, escolhas sobre relações, trabalho, identidade. E aquela sensação de que tudo parece bem, mas há sempre algo cá dentro a inquietar — isso era essencial.
Apesar do lado íntimo, existem também referências ao turismo e à política local. Acha que o próprio país está em renovação?
Sim. A personagem masculina era ucraniana desde o início, e depois começou a invasão em larga escala. O mundo mudou, e na Lituânia sentimos isso profundamente. Perguntei-me se queria refletir essa mudança e como fazê-lo sem perder a leveza da história. O desafio era manter o comentário político sem o deixar dominar o filme. Gosto de obras que equilibram o pessoal e o político, que dizem mais do que aparentam.
Vivemos com a sensação de que “algo não está bem” no mundo — pandemia, guerra, crise habitacional. Isso influencia o seu trabalho?
Sem dúvida. Acho que entrou de forma intuitiva, porque faço parte dessa geração e vivo os mesmos problemas. Antes era normal ter casa própria aos 30; agora já não. Isso cria um sentimento de inadequação, como se estivéssemos a falhar. E claro, trabalhar nas artes tem particularidades. Sem pensar muito nisso, o filme acabou por se tornar um retrato de geração — basta observar o que os meus amigos também atravessam. Interessa-me filmar o presente político e emocional.
A diretora de fotografia é também realizadora. Como foi trabalhar com outra pessoa habituada a dirigir?
Havia mais realizadores no set — até os meus assistentes eram realizadores. Mas somos todos amigos há muito tempo. A diretora de fotografia é minha amiga desde a adolescência. Essa confiança ajuda: conhece-me bem e tem ideias fortes. Às vezes tenho de ser firme nas decisões, mas também há ideias brilhantes dela no filme. E quando alguém também realiza, compreende melhor o processo e quer ajudar genuinamente. Acabou por ser uma colaboração muito bonita.
A opção pelo 16mm foi sua ou da diretora de fotografia?
Foi uma decisão conjunta. Queria elevar a vida quotidiana, torná-la mais poética. A poesia do dia-a-dia era a palavra-chave. Ela também gosta de filmar em película. Não é só a textura: filmar em película muda a energia do set. Todos estão mais focados, mais atentos. E até pode ser mais produtivo. Quero continuar a filmar em película, embora acredite que cada história pede a sua forma.
E a escolha da protagonista? Houve um casting? Dá liberdade aos atores ou segue o guião com rigor?
Reescrevi o guião durante muito tempo, por isso a versão final estava muito polida. Mas não sou preciosista. Os atores acompanharam tudo desde cedo, leram versões, conversámos muito. Como conheciam bem as personagens, deixei liberdade para pequenos ajustes no diálogo. Mas não houve grande improvisação porque ensaiámos duas semanas antes da rodagem. Filmámos em 19 dias, em película, sem margem para hesitações.
O filme depende muito do não-dito: olhares, expressões, silêncio. Isso já estava no guião?
Metade estava escrito. Até alguns sons estavam previstos. Sabia que este filme era sobre detalhes, e que era crucial acertar neles.
É alguém que trabalha muito com detalhes?
Depende do filme. Neste, sim — porque quase tudo acontece num apartamento. Num espaço tão isolado, cada objeto, cada som, cada gesto ganha peso. Era essencial construir o mundo sensorial daquela personagem.
Qual foi o maior desafio da produção?
O financiamento. Pôr o projeto a andar levou muito tempo. Depois surgiram outros desafios: encontrar o apartamento certo, por exemplo. Foi quase um casting. Precisávamos de um apartamento moderno dentro de um prédio soviético — algo difícil de encontrar. Tivemos sorte. E também tivemos de combinar a obra do apartamento com a do edifício real, que felizmente ficava perto.
Tem novos projetos em desenvolvimento?
Sim. Um documentário muito pessoal sobre arte e família, já quase em montagem. E estou a começar a desenvolver um novo projeto de ficção.
Quando escreve, pensa em cinema ou também em streaming?
Penso em cinema. Sou bastante tradicional: gosto de filmar em película e ver o resultado numa sala, com o público. Com este filme percebi como a experiência muda quando há reacções — de repente apercebemo-nos de como o filme é mais divertido do que parecia na sala de montagem.

