“Não me vejo exatamente como um ativista” — Romas Zabarauskas encerra a sua trilogia com “The Activist”

(Fotos: Divulgação)

Já com The Lawyer (2020) e The Writer (2023) na bagagem, o cineasta lituano Romas Zabarauskas encerrou a sua trilogia queer com The Activist, filme que combina melodrama e crítica social, piscando o olho ao film noir e ao cinema político contemporâneo.

No filme seguimos Andrius, um homem em busca do assassino do seu companheiro ativista LGBTQ+, num país dividido pelas tensões políticas e pelo avanço da extrema-direita. 

Após estrear em setembro, nas salas da Lituânia, The Activist prepara-se agora para a sua estreia internacional no Tallinn Black Nights Film Festival, na Estónia, inserido na competição Báltica. 

Foi por essa razão que nos sentámos a falar com o realizador Romas Zabarauskas sobre a evolução da trilogia, o papel do ativismo no seu trabalho e o novo desafio que o espera: uma série sobre o lendário cineasta experimental Jonas Mekas.

The Activist

Como tem sido a reação ao filme? Já recebeu algum feedback do público que o viu?

O filme estreou nos cinemas da Lituânia a 19 de setembro. A reação foi mista. É um filme provocador, e acho que um dos objetivos era mesmo esse — provocar diferentes setores da sociedade. Acho que conseguimos.

Mas fico sempre hesitante em comentar demasiado sobre a reação, porque quero deixar espaço para que cada pessoa possa reagir por si própria. Além disso, ainda estou muito curioso para ver como será a reação na estreia internacional em Tallinn, que acontecerá esta sexta-feira. É curioso, porque esta é a minha quinta longa-metragem, mas é a primeira vez que um dos meus filmes estreia primeiro na Lituânia e só depois no estrangeiro. Estou muito curioso para ver como o público internacional vai reagir de forma diferente.

A questão da extrema-direita — os neonazis que se espalham pela Europa e pelos Estados Unidos — é um tema muito universal, não apenas local. Porque decidiu fazer este filme? 

Sempre me interessei por temas políticos difíceis. Tenho curiosidade sobre o mundo em que vivemos e sobre as suas complexidades. Comecei a desenvolver esta ideia em 2018. Infelizmente, como muitas vezes acontece com a minha arte, o tema foi-se tornando cada vez mais atual ao longo do processo de desenvolvimento. Infelizmente, é exatamente isso o que aconteceu: alguns elementos do filme parecem hoje retirados diretamente das manchetes dos jornais, mas o projeto começou há bastante tempo.

É parte de uma trilogia, mas quando percebeu que queria falar sobre este assunto e mergulhar neste mundo da extrema-direita?

Interessa-me perceber como a extrema-direita contemporânea é, paradoxalmente, moderna. Claro que sou crítico desse movimento, mas acho importante analisá-lo e compreendê-lo para poder combatê-lo de forma eficaz — participar nesta guerra de ideias de modo mais informado.

Vivemos num tempo de divisões muito fortes, em que as pessoas se agrupam por afinidade, e acho essencial compreender as estratégias de comunicação e culturais da extrema-direita. Só assim conseguimos enfrentá-las com mais sucesso. Essa foi uma das minhas principais motivações para o filme.

É interessante o que diz, da modernidade. Por exemplo, na Alemanha há uma mulher homossexual numa posição de poder dentro de um partido com políticas homofóbicas. Isso é difícil de entender. Ao mesmo tempo, questiona também o que é o ativismo hoje. Como estudou estas duas dimensões — a nova direita populista e o ativismo moderno — e como as traduziu para o filme?

Bem, quando comecei a minha carreira, em 2011, apresentei a minha curta-metragem de estreia Porno Melodrama na secção Panorama do Festival de Berlim. Durante a estreia, na Lituânia, assumi publicamente a minha homossexualidade. Na altura, havia pouquíssimas pessoas assumidas, o que gerou um pequeno escândalo mediático. Tornei-me, de certa forma, um símbolo dos direitos LGBT+ no país.

Participei em várias iniciativas de visibilidade e acabei associado ao ativismo, embora eu próprio não me veja exatamente como um ativista. Diria que tenho uma relação complexa com essa palavra. Não me sinto um ativista — apenas uma pessoa aberta sobre quem ama e um cidadão que tenta contribuir positivamente para a sociedade. Acho que todos devíamos fazê-lo, independentemente da profissão.

Mas, claro, tive experiências nesse meio e isso influenciou o meu olhar. Foi interessante explorar essa complexidade em The Activist — permitir que personagens LGBT+ sejam tanto heróis como vilões. Isso parece-me refrescante, porque é profundamente humano. A experiência humana é imperfeita, e admitir essa imperfeição é uma forma de humanização.
Nos meus filmes procuro sempre personagens e histórias complexas. Neste, talvez tenha levado essa busca ao limite.

Falemos então da trilogia. Quando começou, já pensava nos três filmes ou isso foi crescendo com o tempo? E em termos estéticos, cada um tem um estilo distinto. The Activist, por exemplo, é claramente mais noir. Como pensou essa diferença entre eles?

Tudo começou com The Lawyer. Esse filme já tinha alguns elementos de noir, mas era essencialmente um drama romântico. Depois comecei a desenvolver The Activist. O terceiro filme, The Writer, acabou por surgir entre os dois, quase como um projeto improvisado, e foi assim que a trilogia se formou.

Percebi que podia ligar os três filme, pois todos se centram em casais queer masculinos em contextos políticos diferentes.  Penso que, com estes filmes, comecei a definir a minha sensibilidade artística — algo que poderia descrever como melodramático, conduzido pelo drama, e situado entre o cinema mais convencional e o arthouse, mas sempre preocupado em expressar emoções e histórias de forma original.

Sou muito inspirado pelos melodramas de Hollywood dos anos 50. Curiosamente, na época, o termo “film noir” nem era usado — chamavam-lhes “melodramas criminais”. No fundo, pertencem ao mesmo universo melodramático. E é isso que, para mim, liga os três filmes.

É esse o tipo de cinema que quer continuar a fazer — melodramas com interesse político, que falem do mundo atual?

Sim, sem dúvida. É o caminho que quero seguir. Neste momento, comecei um doutoramento em cinema na Academia Lituana de Música e Teatro. O meu objetivo é escrever o guião de uma minissérie sobre o Jonas Mekas, um cineasta experimental e crítico lituano-americano que co-fundou os Anthology Film Archives. Estou a fazê-lo com a autorização oficial do espólio Jonas Mekas.

Será um projeto biográfico, o que representa uma pequena mudança de direção, mas acredito que a minha sensibilidade e o interesse por circunstâncias políticas complexas continuarão presentes.

The Activist

E quem foi Jonas Mekas para si? É alguém que admira?

Com certeza. Apesar de ser um cineasta muito diferente de mim, inspira-me a sua originalidade e trajetória. Ele veio de uma pequena cidade da Lituânia e criou um verdadeiro império do cinema experimental. É uma figura muito inspiradora para os lituanos e, claro, para mim também.

Dado que Mekas foi um cineasta experimental, pensa adotar alguma abordagem experimental para retratar essa faceta no seu projeto?

Ainda é cedo para dizer. Acabei de iniciar o doutoramento, que durará quatro anos, e o objetivo nesta fase é apenas escrever o guião. Portanto, é cedo para definir o estilo.

Pensa realizá-lo ou apenas escrever?

Ainda não sei. É um projeto muito ambicioso, e quero ir passo a passo. Por agora, tenho quatro anos para escrever o guião — veremos o que acontece depois.

Entrevistador: Quando desenvolve um projeto, pensa no cinema tradicional ou também em plataformas de streaming?

Até agora trabalhei apenas para cinema, mas neste caso estou a pensar numa série, simplesmente porque a vida de Mekas é tão vasta que se adapta melhor a esse formato.
De qualquer forma, reconheço que há séries com enorme qualidade hoje em dia. É interessante ver como conseguem envolver o público e gerar debate — às vezes mais do que o próprio cinema. Isso diz muito sobre o momento atual da indústria.

Ainda valorizo a experiência cinematográfica, a de ver um filme numa sala escura, mas admito que séries como Succession são impressionantes: criam uma forma original e refletem a realidade moderna com inteligência.

Qual foi o maior desafio em The Activist? Sentiu alguma pressão por já ter uma carreira e expectativas criadas?

Para ser honesto, não foi particularmente difícil. Acho que o maior desafio, na verdade, é encontrar público. Sou muito teimoso nas minhas escolhas artísticas — faço o que me interessa pessoalmente —, mas sinto que o meu cinema às vezes fica entre o arthouse e o cinema narrativo mais convencional. Isso pode ser problemático, especialmente num país pequeno como a Lituânia. 

Muitos festivais internacionais esperam de nós filmes experimentais e radicais, enquanto os dramas mais clássicos tendem a vir de países com línguas e mercados maiores, como o inglês ou o francês.Não tenho interesse em fazer filmes puramente experimentais. Prefiro o equilíbrio entre emoção e estrutura. Acho que esse é o meu maior desafio: encontrar espaço para um cinema emocional, político e acessível.

De qualquer forma, The Activist já tem distribuição — será lançado online na plataforma OutTV, em VOD, no próximo ano — e vai circular em festivais. Portanto, não posso queixar-me.

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