Bruno Bini e “Cinco Tipos de Medo”: “não me alinho a filmes em que a violência urbana vira mera paisagem”

(Fotos: Divulgação)

Depois de receber os troféus Kikito de Melhor Argumento e de Melhor Montagem no final do 53.º Festival de Gramado — pela desenvoltura da sua ação nessas duas frentes no thriller Cinco Tipos de Medo —, o cineasta Bruno Bini ainda levou o prémio de Melhor Filme. O seu estado nunca se havia sagrado vencedor, nas longas, num evento do porte da maratona gaúcha. Do mesmo modo, o país nunca recebera, da região Centro-Oeste, algo com a estrutura de Amores Perros. Esta semana, na sexta-feira, a 49.ª Mostra de São Paulo exibirá o experimento em ecrã grande: passa a 24, no Espaço Petrobras de Cinema 1, e a 26, no Reserva Cultural 2.

Nos moldes do oscarizado Babel (2006), Cinco Tipos de Medo vai e volta nos factos que narra para lhes dar múltiplas camadas de informação. Há uma sequência em que Murilo, violinista enlutado após a covid (João Vitor Silva), usa uma pistola alemã da I Guerra Mundial, mesmo sem saber disparar, para se defender de um ataque armado. Os corpos que tombam parecem um lance do acaso em seu favor. Veremos depois que não.

Fã de Wolverine, Murilo envolve-se com Marlene (Bella Campos), enfermeira presa a um relacionamento abusivo com o traficante Sapinho (Xamã, titânico em cena). As angústias deles cruzam-se com as de Luciana (Bárbara Colen), polícia em cruzada de justiçamento, e Ivan (Rui Ricardo Dias), advogado de intenções ocultas. São cinco vidas aparentemente desconectadas que colidem num caminho sem retorno, numa cartografia de desamparos enquadrada pela direção de fotografia dionisíaca de Ulisses Malta Jr.

Na entrevista a seguir, Bini fala ao C7nema sobre o impacto dos Kikitos no porvir do filme.

Bruno Bini

De que maneira a sua vitória avassaladora no Festival de Gramado pode ampliar a visibilidade do seu estado nas telas e como ele, historicamente, se comporta na produção de imagens para o ecrã?

Nós estamos a viver uma “boa onda” particular em Mato Grosso, com uma safra boa e diversa de filmes a serem realizados. É um momento em que o estado parece deixar de ser apenas cenário para histórias de produtoras de fora para passar a imprimir o nosso próprio olhar sobre o nosso universo particular. Estamos literalmente a apropriar-nos das nossas narrativas. Sinto que a premiação em Gramado aumenta o interesse externo na cena mato-grossense. E deu para sentir isso ainda no festival, com muita gente a querer saber o que tem sido produzido em Mato Grosso. Talvez faltasse isso: ocupar espaços importantes, abrir caminhos. O meu desejo é falar com um público cada vez maior.

Qual é a relação entre a violência (nas raias dos thrillers de ação) que filma e as tragédias sociais do Brasil?

O Brasil é um país violento. Às vezes essa perceção dilui-se, a violência vira paisagem e talvez isso gere a impressão de que estamos seguros. Acho isso perigoso. O registo da violência nos meus filmes procura não perder de vista o impacto devastador que ela pode ter na vida das pessoas. Em alguns momentos de Cinco Tipos de Medo há violência que não testemunhamos: ocorre fora de campo, mas encontramos as personagens a viver o resultado dela. Há também a ideia de que carregamos a violência dentro de nós e que, diante de certos gatilhos, as nossas reações transbordam o limite da civilidade. Isso acontece com as personagens, que reagem de forma crua e agressiva, mas muito humana. Nesse sentido, estas histórias dialogam tanto com a realidade social do país quanto com a própria condição humana.

Há lugar para cinema de ação latino no Brasil?

É possível fazer um filme com temas relevantes que entretenha pelas vias do cinema de género. Só não me alinho a filmes em que a violência urbana vira mera paisagem, como se estivéssemos imunes a ela. Não é o que busco.

Que trilhos fará Cinco Tipos de Medo até à estreia?

A ideia é seguir por mais festivais nacionais e fazer a estreia internacional em breve, antes da estreia em salas no próximo ano. Queremos que o filme encontre públicos diferentes e continue a conversa iniciada em Gramado.

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