Belmonte em dose tripla

(Fotos: Divulgação)

Um dos mais prolíficos realizadores do Brasil nas últimas duas décadas e meia, José Eduardo Belmonte firmou o seu nome no campo das longas-metragens com A Concepção (2003) e manteve-se ativo nesse formato, com pontuais incursões na televisão em sinal aberto e no cabo. Este ano, superou-se em produtividade: participa na 49.ª Mostra de São Paulo com três filmes de abordagens distintas sobre a realidade do seu país.

Um deles é Quase Deserto, protagonizado por Vinícius de Oliveira — o rapaz de Central do Brasil (1998), agora adulto — que volta a brilhar no ecrã. O guião talvez apresente a abordagem mais visionária do cinema brasileiro sobre a rotina de imigrantes em terras estrangeiras. No caso, um brasileiro (Vinícius) e um argentino (Daniel Hendler) aventuram-se a tentar a sorte numa Detroit transformada num oceano de perigos, nos Estados Unidos pós-pandemia. Para Belmonte, o desafio foi mostrar o que (ainda) significa ser latino no país que voltou a eleger Trump.

A segunda participação do cineasta na Mostra de São Paulo acontece com Assalto à Brasileira. Neste filme, o realizador — conhecido por obras como Gorila (2012) — recria um assalto a uma agência do Banestado na cidade de Londrina, nos anos 1980.

A história é narrada a partir do ponto de vista de Paulo Ubiratan, um jornalista e radialista ambicioso que, após perder o emprego na Folha de Londrina, vai ao banco levantar a sua indemnização. É então que se vê no meio de um assalto e acaba feito refém, juntamente com outros trezentos clientes. A partir dessa situação, começa a refletir sobre formas de relatar o acontecimento como metáfora da tragédia moral do seu país.

Belmonte apresenta ainda Aurora 15, uma incursão pelas veredas da fantasia, protagonizada por Carolina Dieckmann e Marjorie Estiano.

Na história, um jovem casal muda-se para a casa dos seus sonhos. Quando estão prestes a assinar o contrato com a mediadora, um homem e a sua filha adolescente invadem o espaço, alegando estar a ser perseguidos por dois indivíduos armados que pretendem matar a rapariga. Pouco depois, os dois homens também chegam, afirmando que precisam desesperadamente de a capturar antes que anoiteça. A noite cai — e a jovem já não tem forma humana.

Na entrevista que se segue, Belmonte — vencedor do Festival do Rio de 2008 com Se Nada Mais Der Certo — partilha com o C7nema as descobertas feitas com esta tríade de filmes.

Tem três longas nesta Mostra, criadas em momentos diferentes, mas que dialogam entre si na construção da sua identidade autoral. O que é que essas três produções marcam da — e na — sua história como realizador?

Esses três filmes marcam pontos distintos de um mesmo mapa afetivo.

Foram feitos em tempos diferentes, mas talvez todos falem da mesma coisa: personagens que tentam existir e compreender a realidade num mundo que muda mais depressa do que conseguimos decifrá-lo. Cada um carrega uma etapa do meu próprio olhar: o impulso do improviso, o desejo de pensar em estruturas e o prazer de descobrir o filme enquanto ele acontece. Vejo neles um percurso de aprendizagem — e também alguns desapegos. Hoje, interessa-me o equilíbrio entre a vibração do instante e o entendimento da forma.

Que Brasis se refletem nessas histórias e até que ponto diferem — ou se aproximam — do Brasil que o formou?

São muitos Brasis, e todos inacabados. Há o país da sobrevivência, o da ironia, o das diásporas e o do absurdo — talvez o mais honesto de todos. O Brasil que me formou era o da transição democrática, um lugar que acreditava que o futuro seria um território conquistado pela imaginação. O que filmo hoje é um país em crise, mas também o país que aprendeu a rir diante do colapso, que se observa à distância, como estrangeiro na própria terra, e que encontra sentido — e poesia — no caos. Acho que continuo a tentar compreender como seguimos em frente mesmo quando tudo insiste em parar.

De que forma o diálogo com as narrativas de género se ampliou no seu percurso recente?

Sempre gostei da ideia de tensionar o género, de o usar como lente e não como fórmula. O terror, o thriller, a comédia — todos me interessam quando revelam a realidade pelo avesso. O género, no fundo, é um disfarce que permite falar de coisas muito íntimas sem parecer solene. É uma roupa que a história veste. Hoje, sinto que a minha relação com o género se tornou mais livre: já não é apenas seguir códigos, mas encontrar um tom. O cinema é o lugar onde o risco vale a pena, e o género é o campo onde posso arriscar, experimentar e comunicar-me com muita gente ao mesmo tempo.

O que vem a seguir, em 2026?

Neste momento, estou a rodar a minha segunda coprodução internacional, Justino, e preparo projetos que venho a acalentar há muito tempo e que, finalmente, devem concretizar-se no próximo ano. É sempre difícil falar antes da hora — aprendi que, no cinema como na vida, é arriscado ter planos demasiado bem traçados —, mas posso dizer que são filmes que continuam nesse território entre o real e o improvável, entre o riso e o abismo. Lugares onde nem sempre me sinto em casa — e isso é bom. O cinema tem sido uma ferramenta para a vida, para expandir as minhas fronteiras e universos.

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