“Exploro-o porque quero filmar. Ele explora-me porque quer fama.” Denis Côté fala de “Paul”

(Fotos: Divulgação)

Figura frequentemente presente no Festival de Berlim, onde já foi premiado várias vezes com filmes como Vic+Flo Saw a Bear (2013) e Hygiène sociale (2021), Denis Côté saiu surpreendido da primeira sessão da Berlinale do seu mais recente projeto, Paul.

Estou em choque”, disse, em tom de brincadeira, ao C7nema, horas depois da primeira exibição do seu documentário sobre uma figura das redes sociais, Paul, que luta contra uma grave ansiedade social, interage sobretudo online e se sustenta com um trabalho como empregado doméstico de dominatrixes.

O cineasta canadiano regista tudo da forma mais natural possível, evitando julgamentos. Essa capacidade de retratar com normalidade e dignidade um modo de vida “alternativo” conquistou a audiência — e agora o filme chega também ao Doclisboa, onde será exibido.

Esteve há momentos na estreia do Paul aqui em Berlim. Como correu essa estreia?

Foi um choque, de muitas maneiras. Falar agora tanto sobre o filme é quase divertido.

Choque?

É bizarro — e podes até ser o meu psicoterapeuta para entender o que vou dizer (risos). O filme é o Paul. Ele é adorável, simpático, comovente. Sofre de tudo o que é a ansiedade de 2025. Está metido, não sei, em BDSM. É obcecado com o Instagram. Tudo nele é “cool”. Mas eu fico atrás. E, como realizador, tenho o meu ego (risos). Quero que se veja que é um filme de Denis Côté. Também luto com isso .

Paul

E nessa estreia, como foi a reação?

As pessoas adoraram. A energia na sala — nunca vi nada assim em Berlim. Palmas, gritos. Subimos ao palco. O público olhava para o Paul assim… Todos ficaram para o Q&A. Tivemos de interromper porque havia perguntas a mais. Pensei: “Fiz algo errado? Ou o Paul é mesmo uma estrela? Uma estrela do Instagram?” Não estou em pânico, só não estou habituado a isso. (risos)

O meu diretor de fotografia também me provocou e disse: “Fizeste um crowd pleaser.” E eu fico, tipo, incomodado. “Hey, pára tudo. Sou o Denis Côté, um autor hardcore. Não faço crowd pleasers.” (risos)

Então não quer fazer filmes para agradar ao público?

Estou mesmo orgulhoso do que fizemos com o Paul. Havia um pequeno risco de o filme parecer… não “fofinho”, mas acessível. Está tudo bem. Só não estou habituado a esse tipo de reação.

E pensa: “Tenho de fazer diferente para notarem a minha assinatura”?

Um bocado. É como se dissesse: “Gostaram? Esperem pelo próximo.”(risos)

Estou a brincar, claro. Mas são emoções estranhas. Recebemos muito amor. Às vezes estou em competição aqui, há umas palmas, as pessoas vão-se embora. Depois vejo as críticas: Variety, THR, positivo, zero estrelas, depois “obra-prima”… é sempre assim.

E a primeira crítica de Paul?

4,5 em 5. O Letterboxd está em chamas. Não estou habituado. O meu último filme aqui, That Kind of Summer, foi duro. Não era para todos.

Portanto, tudo isto é inesperado.

Sim, mais o facto de o Paul estar aqui. Isso é que é inesperado. Houve só uma sessão, vamos ver. Estou muito orgulhoso. Acho que é um filme de que as pessoas vão gostar. E isso é muito difícil de fazer.

E como escolhe os filmes que quer fazer? Intuição?

Normalmente sim. Já fiz 16 filmes em 20 anos — e rápido. Costuma ser uma surpresa. Este foi uma surpresa. Fiz um transplante de rim e, um pouco antes disso, estava a namorar com uma mulher que estava sempre a falar do Paul. Perguntei quem era essa pessoa e ela explicou que conseguia, quando queria, uma boleia do Paul, pois ele é um tipo submisso que lhe dava prendas ou pagava cafés. Pedi mais detalhes e ela contou-me como o conheceu através de uma dominatrix.

Lembrei-me de um filme que fiz com bodybuilders, A Skin So Soft, principalmente porque sentia que estava a caminhar numa linha muito fina, a caminho do exploitation, e excitava-me o desafio de fazer um filme que não caísse no voyeurismo. Por outro lado, sou um bocado obcecado com o Ulrich Seidl — alguém que, quando faz algo mal, faz mesmo mal. Mas quando é interessante no que faz, é mesmo e caminha sempre nessa linha ténue. Ele não ama as pessoas. Eu amo. É como um espelho.

E quais foram os primeiros passos para este filme?

Convidei o Paul a vir a minha casa e chamei também o diretor de fotografia. O Paul não fala com homens, mas aceitou porque quer ser famoso. Não conhecia o meu trabalho, nem queria saber. O que encontrei foi alguém muito inteligente. Alguém que sabe o que faz, não tem pena de si e conhece as suas manias.

Paul

E decidiram filmar?

Sim. Os seus lugares seguros são as mulheres à sua volta. Tinha de explorar isto. Com o meu diretor de fotografia, ouvimos o que tinha a dizer, mas não ficámos chocados nem surpreendidos. Quisemos fazer o filme e seguir o Paul, tentando tornar a sua história o mais normal possível, sem julgamentos.

Comecei por procurar estas mulheres, para perceber a sua relação com o Paul, e combinei com elas estarmos lá os dois a filmar a normalidade dos seus dias. Claro que pensei se estávamos a ser exploratórios e voyeurísticos em relação a ele, mas descobri que há todo um jogo de exploração — embora com consentimento. Eu exploro-o porque quero filmar. Ele explora-me porque quer fama. Elas filmam tudo, usam-no para o OnlyFans sem lhe pagar. O filme tornou-se um mundo sobre a relação com a imagem — como controlamos, como exploramos. E há ali uma camada de ansiedade. E claro, algum erotismo do BDSM. Mas quisemos que tudo parecesse vida quotidiana.

O guião foi todo escrito na montagem…

Completamente. No início, disse ao montador: “Não há estrutura. Não há princípio, meio nem fim.” Ele perguntou: “Então qual é a ideia?” Eu respondi: “Encontrámos uma pessoa original. O filme é apenas um vislumbre da vida dele. Sem moral nem mensagem.”

Mas criaram um final.

Sim. Filmámos durante sete meses, mas só 19 dias no total. E um dia disse: “O Paul está numa viagem, a lutar por algo. Vamos levá-lo à montanha. Nos últimos cinco minutos, ele sobe e olha para o futuro.” É um fim, certo? Fizemos isso.

Continua a vê-lo como um enigma?

Completamente. Não nos tornamos amigos. Ele fala pouco comigo. O filme acabou e ainda não falámos muito. Não entendo todas as suas escolhas. Não sei se é uma personagem ou o verdadeiro Paul. Estou confuso com este projeto, porque não controlo tudo.

Normalmente controla…

Sim. Normalmente controlo tudo. Agora tenho de o proteger. O filme é dele, mas de vez em quando lá meto um toque meu. É divertido, mas continuo confuso. E esses são os meus filmes preferidos — os que não se entendem totalmente.

Porquê?

Porque continuam vivos. Os filmes escritos, como Vic and Flo Saw a Bear ou That Kind of Summer, já estão mortos para mim. Estão no papel e no ecrã. Mas A Skin So Soft, Paul, Carcasse, até o meu primeiro sem guião — posso vê-los com o público e ainda pensar: “O que é que fizemos?” Isso é excitante.

Já tem outro projeto?

Sempre. É porque, na vida privada, não tenho nada. Não tenho casa, carro, carta de condução, filhos, casamento, nem sou dono de um restaurante. A minha vida é o cinema. Acordo no meu pequeno apartamento e o que tenho é o próximo projeto. Isso é um luxo — e é por isso que trabalho depressa.

O cinema é a sua vida…

Não quero dizê-lo de forma poética ou romântica, mas sim — tecnicamente é. Quando estou sozinho, vejo filmes, leio sobre cinema, preparo um novo projeto. Por isso fiz 16 filmes em 20 anos, mesmo tendo estado doente e feito um transplante.

E o próximo filme?

Estamos a tentar financiar. É um projeto de grande orçamento, comprámos os direitos de um livro japonês. Tenho de escrever o guião. Mas às vezes aparece uma ideia rápida, como Paul, que custou mil euros.

Mil euros?

Sim! É como tu e eu: temos uma ideia, pegamos no carro, filmamos algo simples, comemos sandes, filmamos três horas por dia. Assim fizemos Paul. E depois, como já tenho nome, levo a uma produtora e dão-me mais recursos. Enviamos ao Ministério da Cultura, mostramos a primeira montagem e pedimos dinheiro para terminar. Eles dizem: “Ah, o Denis Côté tem um novo filme.” E mandam um cheque, mesmo que o filme já esteja pronto. Pegamos no cheque e pagamo-nos. Fiz três filmes assim.

E o Paul gostou?

Durante as filmagens, nem ligava. Não sabia se éramos estudantes ou profissionais. Depois disse-lhe: “O filme está pronto, queres vê-lo?” Ele não dormiu dois dias. Sentou-se, trouxe a dominatrix — a mulher que corta o cabelo no fim. Ela comporta-se como uma mãe, protege-o. Durante a projeção, só se ouvia: “Hmm… hmm…” No fim, ele olhou-me nos olhos, apertou-me a mão e disse: “Obrigado. Isto parece muito com a minha vida.”  Está felicíssimo. Escreveu-me há dias: “Obrigado por me fazer viver coisas que muitos não veem.” Levei-o à mistura de som. É como uma criança. Não sabe o que é a Berlinale, mas está encantado.

Era importante para si que ele gostasse do filme?

Sim. No fim dos créditos está o QR code dele. Está muito feliz com isso. Vai ganhar novos seguidores. É uma história de Cinderela. Um conto de fadas. 

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