Cinco anos depois de Gaza Mon Amour, os irmãos palestinianos Tarzan e Arab Nasser regressaram a Cannes (secção Un Certain Regard) com mais uma história vinda de um território exíguo — 365 quilómetros quadrados — mas em permanente estado de confinamento: Gaza.
Profundamente inspirado pelo género western e pelo cinema de Sergio Leone, Once Upon a Time in Gaza (Era uma Vez em Gaza) — que chega esta semana às salas portuguesas — acompanha um estudante e vendedor de falafel envolvido em pequenos crimes de tráfico de drogas que, após testemunhar um homicídio, é inesperadamente escolhido para interpretar o papel principal num filme de propaganda. Durante as filmagens, o destino coloca-o frente a frente com o assassino.
Sem receio de expor as tensões internas de Gaza, mas profundamente crítico da política israelita e do cerco que há décadas transformou o território numa prisão a céu aberto, o que gera complexas relações de poder entre facções no mesmo território, Arab Nasser falou ao C7nema em Cannes sobre Era uma Vez em Gaza.

Como surgiu a ideia para o vosso novo filme, Once Upon a Time in Gaza — um filme dentro de outro filme, com um tom de western?
A ideia começou há uns dez anos. Fizemos outro filme ao lado, e este foi evoluindo, mudando de forma a cada etapa. Queríamos fazer um western, mas um western de Gaza. Somos fãs de Sergio Leone, de todos os grandes westerns.
Decidiram situar a história em 2007. Porquê essa data?
Porque é uma data essencial na história de Gaza. Foi o ano em que Israel decidiu considerar Gaza uma entidade inimiga e começou oficialmente o bloqueio. Construíram o muro — de que tanto se orgulhavam — e iniciaram o cerco. Desde então, houve sete ataques violentos a Gaza, sete guerras, todas prelúdios de um genocídio. E o mundo nunca fez nada.
Sente que o mundo nunca fez nada?
Nunca. Gaza tem dois milhões de pessoas presas, sem liberdade, sem escolha. Israel decide tudo — até cortar eletricidade, água e internet, como fez a 7 de outubro. O mundo inteiro ficou a olhar.
E no meio disso, porquê escolher jovens como protagonistas?
Porque os jovens representam o futuro, a mudança. Mas em Gaza, os jovens vivem dentro de uma prisão. Não escolheram nada, não têm escolha nenhuma. Têm sonhos imensos, mas uma realidade completamente fechada.
E a situação na Cisjordânia é diferente?
É diferente, mas não é melhor. Todo o palestiniano sofre, onde quer que esteja. A realidade na Cisjordânia é até mais complexa e dura. Os colonos estão por todo o lado, expulsam as pessoas das suas terras. É também um genocídio.
No filme fala-se muito da vida dentro da prisão e do tráfico de drogas. É uma crítica interna também?
Sim. Mas o foco não é o tráfico. Não é o negócio. É sobre as pessoas — sobre como vivem com aquilo que lhes é imposto. Em Gaza, mesmo o mais pequeno gesto é condicionado. A história do filme é uma metáfora da sobrevivência.
O protagonista, Yahya, era estudante, não era?
Sim, era um jovem estudante, muito ingénuo. Mas Israel recusou-lhe a autorização para sair. É assim com todos. Usam a desculpa da “segurança” para negar tudo. E essas pessoas acabam por adaptar-se à realidade inumana onde vivem. Não vivem, sobrevivem.

Onde filmaram?
Filmámos na Jordânia, num campo de refugiados palestinianos chamado Al–Wehdat. Todos os campos palestinianos são parecidos — mesmo em Gaza.
Nasceste em Gaza?
Sim, sou de Gaza. Mas, na minha identidade, está escrito “refugiado”. Sou refugiado no meu próprio país.
No início do filme, há um plano que mostra os colonatos e Gaza em contraste.
Sim. Esse é o verdadeiro significado de apartheid. Do meu lado, as casas estão amontoadas, o cimento é cinzento, não há espaço para respirar. Do outro lado, há espaço, árvores, silêncio. Eles dizem que investem em segurança — é falso. Investem na separação, na desigualdade.
E como é fazer cinema no meio de tudo isso?
Foi quase impossível. Quando o genocídio começou, ficámos cinco meses sem trabalhar. Só esperávamos não receber notícias de familiares mortos. A minha família ficou no norte, onde os ataques foram mais violentos. Passámos meses sem acreditar na humanidade, na arte, no cinema.
E depois decidiram retomar o filme.
Sim, porque o filme fala dessas pessoas — as que agora estão a ser mortas. Era importante continuar, dizer algo sobre elas. Mas foi uma das experiências mais difíceis da minha vida. Produção, tempo, condições… tudo foi complicado. Ter este filme pronto hoje é um milagre.
Como te sentes ao apresentá-lo agora, nestas circunstâncias?
Gostava que fosse em tempos diferentes. Quando o vejo em projeção, 70% da minha mente está em Gaza e só 10% está no filme. Mas sinto que o público aplaude Gaza, não o filme. E isso deixa-me orgulhoso.
Podes visitar a tua família?
Não. Para sair de Gaza é preciso um convite, dinheiro, e uma pilha de autorizações de Israel e do Egito. Tens de pedir permissão aos dois lados. E mesmo assim, é quase impossível. Gaza tinha um aeroporto internacional — Israel destruiu-o em 2000. Desde então, o plano foi transformar Gaza numa prisão.
O filme termina com a frase “It will end” — “Vai acabar”.
Sim. Porque essa é a crença de todos os palestinianos. É o que nos faz resistir. Continuamos a lutar porque acreditamos que um dia vai acabar, e que recuperaremos os nossos direitos e a nossa terra.






