26 anos depois, “Gêmeas” regressa restaurado

(Fotos: Divulgação)

Vencedora do Globo de Ouro pelo filme que rendeu ao Brasil o Óscar, Fernanda Torres, estrela de Ainda Estou Aqui, não ficou de fora da programação do 27.º Festival do Rio: um dos seus trabalhos mais cultuados terá sessão na maratona deste domingo. O CineCarioca José Wilker vai exibir Gêmeas, que ela protagonizou, em 1999, em dois papéis. Andrucha Waddington, parceiro de carreira e de vida, assina a realização. Os dois vão filmar agora Os Corretores, já em preparação. Na sexta-feira, Gêmeas passou pelo Festival do Rio em versão restaurada. A sua trama é a livre adaptação de um conto de A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues (1912–1980). O enredo decorre no início da década de 1980, num bairro de classe média do Rio de Janeiro: as gémeas idênticas Iara e Marilena (interpretadas por Fernanda Torres) vivem a enganar os homens, fazendo-se passar uma pela outra, para desespero do pai. Marilena é bióloga e Iara, costureira. Um dia, Marilena conhece Osmar, dono de uma escola de condução, por quem se apaixona à primeira vista, e inicia um namoro. Iara também se apaixona pelo rapaz e decide seduzi-lo. A partir daí, começa uma relação intensa e complicada entre os três.

Na entrevista a seguir, Andrucha revê o quanto Gêmeas pavimentou o seu percurso de sucessos, na ficção e no documentário.

O que significa reencontrar Gêmeas 25 anos depois e rever a releitura de Nelson Rodrigues que fez à época… rever o desempenho em dose dupla da Fernanda Torres daquele tempo?

Gêmeas foi a minha primeira longa-metragem. Ver o filme restaurado, 26 anos depois, foi curioso, porque tem quase a mesma idade do Festival do Rio e a Conspiração (a produtora do filme) tem a idade do Grupo Estação. É uma geração contemporânea e foi muito bonito ver este trabalho restaurado na sala onde foi exibido no Festival do Rio de 1999. O Estação Botafogo é um cinema de rua “raiz”. O Estação Botafogo 1, na Rua Voluntários da Pátria, n.º 88, é o espaço onde vi muitos clássicos. Considero ali “a raiz da raiz da raiz”. É comovente perceber que o filme sobreviveu ao tempo. Foi muito bonito vê-lo projetado. Parecia que tinha nascido ontem; na verdade, estava “apenas” restaurado, mas a alma do filme permanecia muito presente.

Que alegrias o filme lhe trouxe ali nos anos 1990?

É um filme muito minimalista, mas muito rodrigueano — um thriller psicológico à maneira de Nelson Rodrigues. Tem toda a força da interpretação da Fernanda; o jogo de cena dela com a Isabel Gueron, que foi a sua duplo; e um elenco com Evandro Mesquita, Francisco Cuoco, Matheus Nachtergaele e Caio Junqueira. Ver que sobreviveu ao tempo foi a coisa mais bonita do mundo. Foi uma viagem no tempo. De que maneira aquela narrativa foi importante para a estética que desenvolveu nos anos seguintes? Aquele filme foi uma pedra fundamental na minha filmografia, sobretudo no meu processo de direção de actores. Aprendi muito nas leituras de mesa e com a própria Fernanda. Aprendi ali como conduzir actores sem os desencorajar, para os colocar no registo realista que eu queria. Descobri uma maneira e uma assinatura de trabalhar com o elenco que uso até hoje. Reflectindo depois, percebi que aquele filme foi o meu mestrado, o meu doutoramento e a licenciatura que eu não fiz.

Começou a trabalhar em cinema aos 16 anos e agora parte para filmar a longa Os Corretores, também com Fernanda. Em que medida revisitar Gêmeas baliza a sua estrada nas telas?

Para o ano faço 40 anos de cinema — o tempo passa muito depressa. Comecei a rodar este filme em 1997. Fiz dois terços então e a segunda metade em 1998. O filme foi lançado em 1999. Foi um processo lento. Ao mesmo tempo, estava a escrever Eu, Tu, Eles com a Elena Soarez — a Helena a escrever e eu ao lado. Gêmeas foi quase uma preparação para encarar o Eu, Tu, Eles. Gêmeas foi grande, em termos de base, para que eu pudesse fazer todos os outros filmes que vieram depois.

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