Pedro Pinho leva ao Rio a aventura do desterro

(Fotos: Divulgação)

Sete anos depois de lançar A Fábrica de Nada numa sessão de gala em terras cariocas, Pedro Pinho está de regresso ao Festival do Rio, desta vez com O Riso e a Faca, que saiu aplaudido e premiado em Cannes, onde estreou na secção Un Certain Regard.

“Este filme, que tem uma equipa brasileira grande, trata da História sob o prisma do que nos une e do que nos desune”, disse Pedro ao C7nema, no hotel Fairmont, no Rio de Janeiro.

Distinguido na Quinzaine des Cinéastes de 2017 com o Prémio FIPRESCI pela fina mescla de linguagens de A Fábrica de Nada — um trânsito entre o musical e o documental —, Pedro Pinho regressa agora ao Rio com uma saga de proporções épicas, que atravessa continentes e uma língua de errância. Há cinco meses, O Riso e a Faca espalhou os seus 211 minutos pelo Palais des Festivals, reunindo talentos de Portugal, França, Roménia, vários países africanos e do Brasil. A fotografia de Ivo Lopes Araújo, artista visual cearense, conquistou aplausos e fãs para a longa, que tem o título internacional I Only Rest in the Storm.

O nome original, O Riso e a Faca, parte de uma canção homónima do músico, cantor e compositor baiano Tom Zé. É um título que traduz os extremos de uma aventura existencialista filmada na Guiné-Bissau e no deserto da Mauritânia, entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2024. Além das produtoras portuguesas Uma Pedra no Sapato e Terratreme, a película conta com a coprodução brasileira da Bubbles Project, de Tatiana Leite, e com distribuição no Brasil pela Vitrine Filmes.

O argumento constrói-se a partir do périplo do engenheiro ambiental Sérgio, um português que viaja para uma metrópole na África Ocidental onde vai trabalhar num projeto rodoviário entre o deserto e a selva. Lá, desenvolve uma relação íntima com dois habitantes locais, Diára e Gui. No trio de protagonistas está o brasileiro Jonathan Guilherme — ex-atleta de voleibol que trocou as quadras pela arte e vive atualmente em Barcelona — que interpreta Gui, contracenando com o português Sérgio Coragem (conhecido pelos papéis em Verão Danado e Fogo-Fátuo) e com a cabo-verdiana Cleo Diára (de Diamantino), distinguida em Cannes com o Prémio de Interpretação.

Em entrevista ao C7nema, Pinho reflete sobre o seu processo criativo e as tensões do Velho Mundo.

De que forma a sua experiência com o documentário, que atravessa elementos de não-ficção em A Fábrica de Nada, influenciou O Riso e a Faca na forma como olha para os territórios?

Aprendi um pouco a filmar na cama do documentário, numa metodologia de rodagem que opera sobre o mise en situation e não sobre o mise-en-scène da ficção, procurando uma sensação de verdade ao improvisar sobre o que é dado como pré-estabelecido. Criamos as cores do mundo no processo de filmar, sem saber exatamente o que vamos dizer.

Que arquétipos norteiam O Riso e a Faca na criação das personagens?

Este é um filme de aventura, de encontros e de desejos, que procura entender como o corpo incorpora um conjunto de injustiças históricas. Não sei definir que arquétipos são, mas sei que são personagens em trânsito, em deslocamento.

Em que deslocamento O Riso e a Faca o coloca? Qual é a sua fricção?

“A minha fricção vem do facto de todos os meus filmes passarem pelo mesmo tema: a Europa. Uma Europa vista a partir de uma certa ideia moral de branquitude que nos tentam impor culturalmente.”

Que ideia de nação impulsiona O Riso e a Faca?

“A palavra ‘nação’, de certa forma, remete-me à primeira fase da criação de uma estrutura que se impõe aos países durante o processo colonial. A História que se constrói a partir daí é uma armadilha, porque é uma História deturpada.”

Qual será o seu próximo projeto?

Estou a trabalhar em dois projetos. Um deles é um remake do João César Monteiro, do seu À Flor do Mar. O outro é um projeto meu com a Filipa Reis sobre uma geração de estudantes de arte na casa dos 20 anos, numa Lisboa dominada pelo capitalismo. É um pouco o reflexo do que eu fui quando tinha 20 e poucos anos. Mar da Palha é o título provisório.

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