Já lá vão cinco anos desde que a jovem Fanta Kebe conquistou a atenção do público francês com a série curta, criada para a web, Tu préfères. São dez episódios, com cerca de sete minutos cada, montados como pequenos sketches de diálogo em que os quatro atores — Shirel Nataf, Fanta Kebe, Zakaria-Tayeb Lazab e Mouctar Diawara — abordam temas que vão do aborto à religião, do dinheiro à homossexualidade, através de questionamentos entre eles que começavam sempre com: “Preferes isto ou aquilo?”.
Realizada pela dupla Lise Akoka e Romane Guéret, cujo filme Os Piores (Les Pires, 2022) estreou nas salas portuguesas, a série teve este ano uma espécie de continuação em forma de longa-metragem: Ma Frère, exibido esta semana na Festa do Cinema Francês.
Interpretando as mesmas personagens de Tu préfères? — Shaï, Djeneba, Aladi e Ismaël —, os atores regressam agora numa nova história que os leva, juntamente com uma colónia de férias, a um espaço de veraneio, observando-se novamente, entre o realismo emocional e o naturalismo social, o ato de crescer. Divertido e comovente, o filme emociona pela observação profunda das dores do crescimento — não apenas dos protagonistas, na passagem da adolescência à idade adulta, mas também pela riqueza das crianças, pré-adolescentes que descobrem e discutem temas como a solidão, o amor, a identidade e a pertença.
Aproveitando a presença de Fanta Kebe na Festa do Cinema Francês, o C7nema falou com a jovem atriz sobre a evolução da sua personagem, Djeneba, o processo de filmagem — entre o guião e a improvisação — e o que significa, para ela, dar corpo a uma geração que raramente se vê representada no grande ecrã.

Já tinhas visto o Tu préfères, mas voltaste a rever ontem depois de assistires ao Ma Frère. Quando é que tudo começou na tua vida — a série e depois o filme?
Tudo começou há cerca de cinco anos, talvez um pouco antes, quando começaram as primeiras cenas de improvisação com as realizadoras Lise Akoka e Romane Guéret. Foi aí que nasceram as ideias para criar uma websérie inspirada no jogo Tu préfères quoi? — “Preferes isto ou aquilo?”. Na altura tinha 14 anos e já tinha trabalhado com os outros três jovens. Já nos conhecíamos bem e éramos amigos. Divertíamo-nos nas filmagens e gostávamos muito das realizadoras, com quem havia uma relação de confiança e cumplicidade. O projeto cresceu naturalmente a partir daí.
Mas inicialmente houve um casting?
Não. A Lise Akoka já nos conhecia de uma rodagem anterior, onde tinha trabalhado como coach de crianças. Achou-nos engraçados e decidiu que queria fazer um projeto connosco.
Disseste que o projeto nasceu de improvisações, mas havia, de alguma forma, um guião?
Sim, claro. As improvisações foram o ponto de partida, mas as realizadoras já tinham uma ideia clara. Queriam fazer uma longa-metragem, mas como isso demoraria tempo, decidiram criar algo mais curto. Pensaram no Tu préfères, pensaram em nós, os quatro jovens que já conheciam, e começámos a fazer cenas improvisadas para explorar o conceito. Todos contribuímos um pouco para a escrita. Mais tarde, quando o guião ficou completo, tivemos de o aprender exatamente como estava escrito. Fizemos muitos ensaios para dominar o texto e o ritmo. Tudo era muito preciso, milimétrico até. Só depois de uma boa filmagem é que, às vezes, havia liberdade para improvisar um pouco.
Existe muito de ti na personagem da Djeneba?
Inevitavelmente, sim. Sobretudo quando era mais nova. Quando vejo a Djeneba e a Shaï, por exemplo — a amizade delas, a maneira de falar, o carácter — há muitas semelhanças connosco. É um papel muito próximo de mim, quase um alter ego.
Nos episódios, mesmo sendo curtos, falam-se de temas importantes — religião, corpo, amizade. São assuntos que também fazem parte das tuas conversas com as tuas amigas?
Sim, claro. A Shirel Nataf e eu já nos conhecíamos de antes, desde pequenas — fizemos o nosso primeiro filme juntas. Sempre tivemos liberdade para falar de tudo: a vida, a sexualidade, as dúvidas, a fé. Temos os nossos próprios códigos e a nossa maneira de conversar sobre esses temas.
Qual foi, para ti, o maior desafio — no Tu préfères e depois em Ma Frère?
Em Tu préfères, o maior desafio foi confiar em mim e nas realizadoras. No início dizia: “Não consigo dizer isto”. Não tinha a mesma visão que elas. Quando li o guião final, percebi o quanto tinham conseguido transformar as nossas improvisações em algo coeso e forte. Tive medo de não estar à altura, mas correu muito bem e adorei o papel. Já em Ma Frère, onde volto a interpretar a Djeneba, o desafio foi outro: era uma longa-metragem, o ritmo é diferente e houve muitas cenas com crianças, o que é sempre mais delicado. Foi um processo intenso, cheio de emoções e surpresas, mas recebi tudo de braços abertos.
O filme e a série têm um realismo emocional e um naturalismo social muito fortes. É um género que te atrai ou gostarias de experimentar outras coisas?
Gosto muito deste género. Toca-me. Gosto do realismo que faz as pessoas identificarem-se com o que veem e sentirem esperança. Mas também gosto de experimentar outras coisas — ficção, ação… Gosto de explorar tudo um pouco, faz parte da profissão de atriz.
Tens ambição de realizar ou escrever?
Sim. Já comecei a escrever. Gostava de seguir o exemplo da Lise e da Romane e conseguir fazer projetos com uma dimensão social e realista, mas à minha maneira.
Sentes que mudaste, como pessoa e atriz, depois do Tu préfères?
Sim, mudei muito. Primeiro, porque era adolescente e estava em crescimento, e depois porque a experiência foi realmente transformadora. Abriu-me portas, permitiu-me fazer castings, conhecer pessoas, descobrir o que queria fazer da vida.
Como foi a experiência de ir ao Festival de Cannes com o Ma Frère?
Foi incrível! Guardo só boas recordações. Subimos as escadas de Cannes, fomos ao photocall… Foi muito emocionante, porque é bom sentir reconhecimento e ver o filme bem recebido pelo público. Foi uma experiência única, e desejo a todos os atores que a vivam pelo menos uma vez.

Quando eras pequena, imaginavas ser atriz?
Nada disso! (risos) Aconteceu por acaso. Comecei num casting aos 12 anos, com a minha amiga Shirel. Passámos várias fases e acabámos escolhidas para o filme. Depois conhecemos a Lise, que era coach infantil, e ela levou-nos para um novo projeto. Entrámos numa agência e tudo foi acontecendo naturalmente. Mais tarde, deixei a escola para me dedicar totalmente ao cinema. Mudou completamente a minha vida.
O cinema francês costuma representar muito a classe média ou burguesa. Os teus projetos são diferentes. Achas que o cinema francês está mais diverso?
Acho que sim. Há cada vez mais diversidade e espaço para diferentes histórias e vozes. Tenho tido a sorte de participar em filmes muito diferentes uns dos outros, e isso mostra que há escolha e oportunidades para todos.
Tens algum ator ou atriz que te inspire?
Sim, o Omar Sy. Gosto muito do percurso dele e da forma como interpreta. Identifico-me com ele. Adorava trabalhar com ele um dia.
A história da Djeneba vai continuar?
Não tenho a certeza. Talvez… mas acho que, por agora, acabou. Foi uma aventura linda, e estou muito feliz por ter levado a Djeneba até aqui. Já é um belo caminho.
Seria interessante vê-la dez anos depois, não?
(risos) Sim, seria! Quem sabe?
Tens novos projetos agora?
Neste momento, não tenho nada confirmado, mas estou muito interessada em teatro. Estou a preparar um projeto com um amigo encenador e espero que avance. Continuo a fazer castings e a trabalhar com a agência.
Como representante de uma geração jovem, como vês o papel do streaming — Netflix, por exemplo — em relação ao cinema? Dá alguma importância especial ao cinema?
O streaming tem um papel enorme hoje, sobretudo entre os jovens. Mas, pessoalmente, continuo a preferir o cinema de autor. Gosto de filmes com uma visão pessoal, mais profunda. Ainda assim, adorava participar também em produções de streaming, mas sem deixar o cinema de autor — é esse que me toca mais.

